Sergio Moro ainda não desistiu de usar sua influência e cargo público para beneficiar a poderosa indústria do cigarro. Sete anos atrás, quando era ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro, Moro criou uma celeuma ao anunciar a formação de um grupo de trabalho para estudar a redução de tributos para o setor tabagista, que esperava lucrar bilhões de reais com a proposta. Não deu certo. Agora, enquanto senador, Moro faz avançar um projeto de lei de sua autoria que tenta agradar o ramo em uma nova frente: não mais a dos impostos, mas a do combate à pirataria por meio da destruição de maquinários e produtos apreendidos em operações contra fábricas clandestinas de cigarro.
O PL 3000/2025, de Sergio Moro, já foi aprovado em decisão terminativa (ou seja, não precisará de aval do plenário) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado no final do ano passado, sob a relatoria do companheiro de governo Bolsonaro, o general e hoje senador Hamilton Mourão. Agora aguardando revisão pela Câmara dos Deputados, o projeto sustenta que os produtos apreendidos na fabricação clandestina de cigarros acabam ficando, muitas vezes, armazenados sob o poder público, correndo o risco de serem subtraídos e devolvidos aos criminosos que os utilizam para produzir cigarros mais baratos, o que causa prejuízo aos fabricantes legalizados.
Com essa nova investida, Moro detona mais uma vez sua preocupação em defender os interesses da indústria do cigarro. Não à toa. O Brasil, reconhecido internacionalmente por sua árdua trajetória de liderança no controle do tabagismo, é o maior exportador global e terceiro maior produtor de tabaco do mundo, atrás apenas da China e da Índia. O Paraná, onde Moro pretende eleger-se governador em 2026, está entre os três principais produtores de tabaco no País (junto com Rio Grande do Sul e Santa Catarina, correspondem a 95% da produção nacional). Dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) apontam que os três estados somam cerca de 138 mil famílias produtoras de fumo.
Sob a batuta de Moro, o Ministério da Justiça não quis revelar à imprensa as agendas privadas que antecederam a decisão de criar um GT para reduzir os tributos do setor tabagista. Mas é público e notório que o lobby foi forte. Moro chegou a realizar eventos institucionais em parceria com o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), um “grupo financiado pela Philip Morris Brasil e pela BAT Brasil”, justamente duas das maiores empresas produtoras de cigarro no Brasil, que costumam abastecer a imprensa com dados sobre os prejuízos do setor. A informação consta no estudo “Índice de Interferência da Indústria do Tabaco”, publicado em maio de 2025 pelo Observatório de Monitoramento das Estratégias da Indústria do Tabaco do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde, gerido pela CETAB/Fiocruz.
O estudo afirma categoricamente que “a indústria do tabaco conta com apoio de associações, organizações afiliadas, grupos de fachada e indivíduos – incluindo alguns membros do governo em nível municipal, estadual e federal – que trabalham em prol dos interesses comerciais das fumageiras.”
Moro é citado ao menos uma vez no documento. Não pelo plano antigo de reduzir tributos ao setor ou a ideia recente de destruir maquinários e produtos piratas, mas por ter articulado, junto ao senadores Izalci Lucas e Soraya Thronicke, apoio a outro projeto de lei, do deputado federal Rafael Pezenti (ex-fumicultor e aliado do setor produtivo), que reduz a taxa para registro cobrada de produtos fumígenos artesanais. A intenção era beneficiar esses pequenos agricultores no pacote final da reforma tributária.

Em 2019, o jornalista Luís Nassif mostrou, durante o programa TV GGN 20 Horas, que o elo entre a indústria do tabaco e o então ministro da Justiça Sergio Moro teria sido o empresário, advogado e jornalista Fábio Aguayo, presidente da Abrabar (Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas). Filho de um boliviano com uma cearense, amigo pessoal de Moro desde os tempos da Lava Jato, aliado de primeira hora na transição para a vida política, e candidato frustrado à vereança, Fábio Aguayo hoje atua como assessor parlamentar no gabinete de Moro no Senado. Suas redes sociais ostentam um histórico de reuniões e eventos com diversos empresários do setor de comércio e serviços do Paraná, onde ele transita muito bem, abrindo cada vez mais portas para Moro alavancar a candidatura ao Palácio Iguaçu.
Dias atrás, o blog do Esmael, que acompanha de perto a política no Paraná, informou que Aguayo é cotado para chefiar a Casa Civil de um eventual governo de Moro no Estado a partir de 2027. Por ora, Moro tenta emplacar o aliado na presidência estadual do DC, partido que deve lançar Joaquim Barbosa ao Palácio do Planalto. A ideia de Moro é aproveitar um racha interno regional para evitar que o DC forme um palanque contrário à sua candidatura no Paraná.
emerson57
1 de junho de 2026 5:16 pmEsse ai, quando for preso, prometo soltar uma caixa de rojão Caramurú (os únicos que não dão chabu) de 12 tiros reais!
Fábio
1 de junho de 2026 5:28 pmOla, Cintia. Eu não estou lembrado se foi no GGN, no DCM ou 247Brasil que eu li uma reportagem sobre a operação Agro Fantasma da Policia federal que comentava que as famílias que foram perseguidas pelo Moro antes de entram no programa de governo aquisição alimentar plantavam tabaco. Mas para poder participar do programa do governo de aquisição alimentar tinham que deixar de produzir tabaco para produzir hortifruti orgânicos. Então, será que a perseguição em cima desses agricultores tem haver com essa ligação com a indústria de tabaco e ao mesmo tempo acabar com o Programa de Aquisição Alimentar do governo?
Flavio
2 de junho de 2026 6:06 amEm face de tudo aconteceu na Lava Lava Jato, considerada a maior farsa judicial de todos os tempos, fica difícil entender como esse ex-juiz não está preso. Ou seja, a própria justiça brasileira passa a mensagem de que o crime compensa.