O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta quarta-feira (8) que considera encerrado o acordo preliminar de paz firmado com o Irã e afirmou que não pretende manter diálogo com Teerã. A declaração, feita em Ancara antes da abertura da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), representa o reconhecimento político do colapso do memorando de entendimento firmado no mês passado para estabelecer um cessar-fogo entre os dois países.
“Para mim, acho que acabou. Eu não quero mais lidar com eles. Eles são a escória, são liderados por pessoas doentes e são um povo maldoso e violento“, afirmou Trump. Embora tenha dito que seus negociadores podem continuar conversando com representantes iranianos, o republicano classificou qualquer tentativa de negociação como “uma perda de tempo“.
TV GGN antecipou ruptura durante transmissão ao vivo
A quebra do cessar-fogo foi noticiada em primeira mão pelo programa Observatório de Geopolítica, da TV GGN, ainda durante sua transmissão ao vivo.
Poucos minutos antes de o programa entrar no ar, uma informação urgente chegou à redação: os Estados Unidos haviam iniciado uma nova ofensiva contra alvos estratégicos no sul do Irã, atingindo o complexo portuário de Bandarabás, o maior do país, e a ilha de Qeshm, importante centro logístico e energético.
Na abertura do programa, o jornalista e cientista político Bruno Lima Rocha Beaklini informou que a ofensiva significava, na prática, o rompimento imediato do memorando de entendimento firmado entre Washington e Teerã.
Para analisar as consequências da nova escalada, o programa reuniu os professores Bernardo Schirmer Muratt e Sami El Jundi e o diretor do Arresala, Nasser Khazraji. Segundo os debatedores, o ataque não apenas rompeu o acordo firmado entre os dois países como inaugurou uma nova fase do conflito militar no Oriente Médio.
Nova ofensiva militar
As hostilidades voltaram na noite de terça-feira, quando forças americanas bombardearam dezenas de alvos no sul do Irã, incluindo instalações militares na província de Bushehr.
Washington justificou a operação como resposta aos ataques atribuídos ao Irã contra embarcações comerciais no Estreito de Ormuz, corredor responsável por parte significativa do comércio mundial de petróleo.
Em reação, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou mísseis contra bases militares americanas instaladas no Bahrein e no Kuwait. Os dois países acionaram sistemas de alerta para a população diante do risco de novos ataques.
Durante a cúpula da Otan, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, respaldou a ação americana, afirmando que o bombardeio foi “absolutamente necessário” e atribuindo ao Irã a responsabilidade pela ruptura da trégua.
Irã acusa EUA de violar o memorando
Teerã rejeitou as acusações e responsabilizou Washington pela retomada do conflito. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores iraniano classificou a ofensiva americana como uma “violação grosseira” do memorando de entendimento, destacando que o acordo previa justamente o encerramento das operações militares e o compromisso de não ampliar as sanções econômicas.
O governo iraniano também argumentou que os ataques violam o Artigo 2º da Carta das Nações Unidas e advertiu os países do Golfo Pérsico de que permitir o uso de seus territórios para operações militares americanas poderá torná-los corresponsáveis pelo conflito.
Debate aponta impacto econômico e fortalecimento interno do Irã
Durante o Observatório de Geopolítica, os especialistas destacaram que o bombardeio possui efeitos que vão além da dimensão militar.
Entre as principais consequências apontadas estão o colapso definitivo do acordo diplomático, a retomada das sanções ao petróleo iraniano, o aumento da insegurança no Estreito de Ormuz e o risco de ampliação do conflito para outros países da região.
Os debatedores também avaliaram que a ofensiva ocorreu em um momento de forte mobilização nacional no Irã, durante o funeral do líder Ali Khamenei, produzindo um efeito contrário ao esperado por Washington.
Segundo Sami El Jundi, a estratégia americana acabou fortalecendo a unidade interna iraniana em vez de enfraquecer o governo. “A palavra que vem na minha cabeça neste momento é anticlímax na perspectiva trumpista do que ia acontecer. Eles estão apostando na queda do regime todos os dias, mas este funeral é a prova do fracasso. O tiro saiu completamente pela culatra no que se esperava de enfraquecer o regime iraniano; ele sai significativamente fortalecido como unidade nacional desse momento histórico, e a prova disso está na rua“, analisou.
Já Nasser Khazraji, especialista na política interna iraniana, reforçou que o país se preparou estruturalmente para o confronto direto. “Os iranianos estão preparados para essa guerra há anos. Depois de quatro meses, percebemos o quanto o povo iraniano ainda está unido em volta de sua liderança através das cenas que vimos no funeral. O Irã vai sair muito mais forte do que antes dessa guerra. Eles sabem usar muito bem suas armas militares, que são armas simplesmente para proteger sua soberania e seu país“, concluiu.
Cresce temor por nova escalada regional
A deterioração do cenário também provocou reações internacionais. O Catar criticou a resposta iraniana contra instalações americanas na região, classificando-a como violação da soberania dos países do Golfo e defendendo a retomada das negociações diplomáticas.
Embora Trump tenha adotado um tom agressivo na cúpula, chamando os iranianos de “jogadores sujos” e defendendo a necessidade de “cortar o câncer cedo“, ele indicou que não impedirá o trabalho de sua equipe técnica. “Temos que eliminar esse câncer“, afirmou. “E sabem o que se faz? É preciso cortar o câncer cedo. É assim que eu vejo isso.” O presidente acrescentou, contudo, que os negociadores de ambos os lados ainda podem continuar a conversar, embora considere a iniciativa uma “pura perda de tempo“.
Geopolítica em debate
O colapso da trégua interina, que coexistiu com a continuidade dos ataques de Israel no Líbano, cuja interrupção era uma das condições centrais exigidas por Teerã, e o papel de Israel como ator diretamente envolvido desde o início nas tensões entre EUA e Irã também foram temas do debate no programa transmitido pela TV GGN, assista:
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