Relato Pessoal: como com Ministros/STF, para nós questionamentos também começam em casa

(Reproduzo abaixo mensagem enviada ao Luis Nassif, que tão bem me acolheu em seu blog, desde o momento em que resolvi ser mais ativo na luta atual. Obrigado, Nassif)

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Dureza, Nassif.

Meu pai há dias tem apelado para que eu pare de escrever. Diz que teme que eu nunca mais arranje emprego no Brasil, que eu destrua minha carreira, etc.

Se é assim com um simples advogado que posta em um blog, que nem no Brasil vive, o que não sofrerá um Min. do STF?

Sempre mando meus posts pra ele, em particular. Lá em casa sempre foi um “pega pra capar”. Minha mãe brizolista histórica e meu pai tucano. Cresci vendo e ouvindo embates sobre política que não raro chegavam aos gritos e portas batidas. Certamente essa politização precoce em muito influiu – benza, Deus – na pessoa que sou hoje.

Meu pai, muito envergonhadamente diga-se em seu “favor”, apoia o golpe (na linha “instituições estão funcionando normalmente”… aff…) e inclusive postou foto no Facebook naquela última passeata pró-golpe em Copacabana.

Por isso tenho sempre marcado ele nos meus posts. Temos um dialogo franco, mas ele é incapaz de dizer o mínimo que eu quero ouvir: “é um golpe sim, mas eu o apoio”. Como filho só quero a sua sinceridade, não o convencer.

O constrangimento dele aumentou muito ultimamente, registro. Nos primeiros posts ele sempre retorquia na linha “instituições estão funcionando normalmente”. De uns 15 dias para cá (penso que desde que Moro vazou os áudios Dilma/Lula) não fala mais nada. Eu o marco nas publicações e ele nada responde.

Só manda apelos cada vez mais frequentes pelo whatsapp pedindo que eu pare des escrever, “como preocupação de pai que ama e se preocupa com o futuro de seu filho”. Ele é sincero e sua preocupação me comove.

Mas felizmente estou muito bem aqui na Suíça. Quantos no Brasil não estarão tão confortáveis para expressas publicamente suas visões? De forma que, gozando da liberdade dos Alpes, não pretendo parar de escrever não.

Hoje me emocionei um pouco.

Conversava com pessoas próximas que temiam como eu me sentiria se no final desse tudo errado, já que estava “tão engajado”. E eu falei: pois é justamente estar engajado agora que me permitirá me sentir menos mal depois, caso o pior ocorra.

Eu fiz a minha parte (mínima que seja) e não me omiti. Emocionei-me fazendo um paralelo (muito inadequado, é verdade, pela dimensão diferente dos sacrifícios pessoais) entre aqueles que se levantaram contra o arbítrio em 70 e nós, que o fazemos hoje em 2016.

Pensava eu com olhos marejados ao responder a esses que se preocupavam comigo:

– talvez a jovem Dilma Roussef, tivesse nascido como eu nos anos 80, estivesse hoje louca da vida gritando em um blog ou em tweets e mais tweets.

Ela certamente pagou – e está pagando agora – um preço muito maior do que eu jamais irei pagar. E tem a minha TOTAL solidariedade, apesar de qualquer crítica que eu eventualmente lhe dirija.

(impossível conter o marejar dos olhos novamente ao escrever essas últimas linhas)

Apesar do caráter pessoal dessa mensagem, vou eu tomar a iniciativa – agora tão corriqueira – de “vazá-la” eu mesmo no meu blog. Pode fazer o mesmo se quiser.

Creio que muitos que frequentam o seu blog hão de se sentir assim também. E da mesma forma devem estar enfrentando questionamentos em casa de quem os ama.

Abraço e vamos em frente.

Não vai ter golpe. No pasarán.

 

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