“Uma infância conturbada”: Heloísa fala ao GGN sobre a vida com Olavo de Carvalho

Cintia Alves
Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.
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"Meu pai foi criado em ambiente de mágoa e ódio; ao mesmo tempo, estava numa redoma, minha avó tratava ele como doente"

Heloísa, a primogênita de Olavo de Carvalho. Fotos: Reprodução
Heloísa, a primogênita de Olavo de Carvalho. Fotos: Reprodução

Heloísa de Carvalho, filha primogênita do filósofo e guru da extrema-direita, Olavo de Carvalho, narra em entrevista exclusiva ao jornalista Luis Nassif, para o canal TVGGN [inscreva-se gratuitamente aqui], sobre como foi sua infância e adolescência ao lado de um pai “atormentado” que acabou influenciado, ao longo de sua vida, uma legião de seguidores com visões distorcidas de mundo.

Heloísa faz uma viagem ao tempo e revela como era a relação de Olavo com seus pais; relembra seus casamentos e relacionamentos extraoficiais, além da convivência com a mãe de Heloísa – que acabou desenvolvendo depressão e traumatizando a família com duas tentativas de suicídio que levaram a dois episódios de internação psiquiátrica. Olavo também foi internado algumas vezes.

A primogênita também narra como Olavo encabeçou uma escola de astrologia na década de 1980 que fez sucesso para, depois, investir em outros tipos de cursos que atraíram alunos ricos que ajudaram a bancar suas despesas nos Estados Unidos nos anos seguintes.

As várias religiões, seitas e filosofias de vida de Olavo também estão na pauta da entrevista, que aborda ainda como ele ficou amigos dos militares e como conheceu Steve Bannon.

O papo foi gravado em 26 de abril de 2024, um mês antes de o jornal O Globo revelar os detalhes do testamento deixado por Olavo, morto há dois anos, provavelmente em função da Covid-19. Olavo deixou a maior parte de sua herança (duas propriedades nos EUA e entre 30% a 20% dos direitos autorais sobre seus livros) para a última esposa e seus dois filhos com ela. Outros cinco filhos de outro casamento receberão entre 0,3% e 0,5% dos direitos autorais. Já Heloisa, que há anos não convivia com o pai e passou a militar na esquerda política, ficou de fora do testamento.

Assista a entrevista abaixo e confira os principais trechos nesta matéria:

A INFÂNCIA DE HELOÍSA E OS IRMÃOS

Foi uma “infância completamente conturbada”, relata Heloísa, lembrando que até seus 15 anos de idade, computou cerca de 15 mudanças de endereço. Olavo de Carvalho tinha problemas para pagar o aluguel e, na maioria das vezes, precisa mudar de casa após ter sido despejado.

SURTOS PSIQUIÁTRICOS DE OLAVO

A primeira internação de Olavo de Carvalho teria se dado após um surto, quando ele trabalhava na redação do Jornal da Tarde. “Quando o histórico psiquiátrica dele veio à tona, ele veio com essa história de que ele se internava antes do surto. (…) Ele dizia que ele tinha a chave da clínica e fazia reuniões com o corpo clínico e dava diagnósticos! É evidente que tinha problemas psiquiátricos. Todo louco fala loucura desse nível.”

A RELIGIÃO DE OLAVO

Segundo Heloísa, é curioso como os seguidores de Olavo de Carvalho, que são em maioria conservadores, não se atentam ao fato de que ele nunca foi fiel a uma só religião, mas sim passou por diversas “fases”, sendo que a que mais durou foi sua fase no islã.

“Até meus oito anos, ele era católico, rezava antes de refeições. Depois veio a fase ateu, meio ‘hipponga’, só maluquice, frequentando o inferno do Madame Satã em São Paulo. Ele chegou a me levar com 12 anos. Depois teve a fase budista, depois a islâmica, depois voltou para católica. Teve a fase mística, onde ele participou de duas investigações por causa de uma seita – investigação criminal sobre várias questões, desde aborto até lavagem de dinheiro, descaminho fiscal, etc.”

A INFÂNCIA DO OLAVO

“Olavo teve uma infância difícil. Meu avô, o pai dele, era advogado formado pelo Largo de São Francisco, na USP. Minha avó era de cidade do interior, dona de casa, de estudo primário, criada para um bom casamento e ser a dona de casa perfeita”, lembra Heloísa. “Quando Olavo tinha seus 8 anos de idade, meu avô abandonou minha avó, pois tinha um relacionamento com uma secretária.”

“Olavo só foi ter relacionamento de novo com o pai dele aos 18 anos. Foram 10 anos de alienação parental. (…) Meu pai foi criado em ambiente de mágoa e ódio, e ao mesmo tempo ele estava numa redoma, minha avó tratava ele como uma criancinha doente.”

A ADOLESCÊNCIA DE HELOÍSA

“A gente nunca sofreu violência física do meu pai. Eu na minha vida apanhei uma vez só do meu pai. Meus irmãos, uma ou duas vezes. Era mais violência psicológica e material.”

Segundo Heloísa, era os familiares do lado materno quem cuidava financeiramente das crianças de Olavo. Por alguns anos, Heloísa viveu na casa de uma tia. Ao chegar aos 15 anos de idade, a tia conversou com Heloísa e explicou que, se quisesse, ela poderia voltar a morar na casa de Olavo, e Heloísa acabou escolhendo se mudar. “Quando cheguei na casa da Bela Vista, era uma comunidade islâmica! Tinha de 20 a 30 pessoas morando numa casa”, disse ela, afirmando que se arrependeu da decisão, mas era tarde demais.

A MÃE DE HELOÍSA

“Minha mãe e Olavo não tinham diferença. Ela era uma pessoa igual a ele, irresponsável, sem profissão. (…) Em qualquer problema que o Olavo se envolvia, estava lá minha mãe para ajudar.”

A mãe de Heloisa tentou suicídio duas vezes, em meados da década de 1980, quando Olavo tinha a Escola Júpiter, uma escola de astrologia que fez sucesso à época. Na primeira tentativa, a mãe tentou cortar os pulsos na banheira, e Olavo usou do episódio para dar uma “lição” aos filhos homens.

“Nesse episódio teve uma coisa horrorosa. Eu lembro da minha mãe amarrada numa camisa de força, toda cheia de sangue, molhada, porque tinham tirado ela da banheira e puseram na camisa de força. Ela na maca, com aqueles cinturões de couro, e meu pai pegou a mão dos meus dois irmãos menores e disse: ‘Olhem! Sejam homens, sejam homens!’ O Luís tinha uns 8 anos e o Tales, uns 6, vendo a mãe na maca toda ensanguentada, delirando porque ela já tinha perdido muito sangue e falava coisa com coisa.”

A segunda tentativa de autoimolação foi usando remédios, e Heloísa também presenciou a cena. “Olhei embaixo da cama e vi os comprimidos. E foi quando ela teve a segunda internação psiquiatra. Todas essas internações tinham relação com o Olavo, porque ela nunca se desconectou dele, nunca aceitou a separação – e nem ele, porque ele ia atrás dela.”

Heloísa conta que a sua mãe se separou de Olavo pela primeira vez quando descobriu que ele estava namorando uma aula da Escola Júpiter. Enquanto a mulher e os filhos viviam nos fundos da escola com poucos recursos, Olavo usava o faturamento para se divertir em bares com estudantes, lembra Heloísa.

Olavo decidiu investir em filosofia no final da década de 1980, início dos anos 1990.

AMIGOS DE OLAVO

Segundo Heloísa, Olavo tinha muito amigos e alunos, inclusive de famílias abastadas, ao longo de sua vida. “Uma coisa que temos que concordar: ele tinha carisma, tinha uma falácia, um potencial de convencimento muito grande. Eu admirava ele ter essa facilidade. Mas era sempre para o errado, para a sacanagem e os golpes”, disse Heloísa, lembrando que não era raro o pai pedir dinheiro aos amigos ricos alegando que precisava cuidar das crianças.

MILITARES E ESTADOS UNIDOS

Foi morando em Petrópolis, no Rio de Janeiro, que Heloísa percebeu que além de tudo, Olavo também tinha amizades com militares. Depois da passagem pelo Rio, ele morou ainda na Romênia, retornou ao Brasil para viver no interior de São Paulo, e depois mudou-se para Curitiba. Por fim, foi viver nos Estados Unidos, onde comprou a casa de uma prima de um amigo endinheirado, pagando prestações de maneira informal, sem precisar passar pela burocracia de financiamento.

CAPACIDADE DE ALTERAR A REALIDADE

“É assustadora. Teve uma época em que eu estava na faculdade, começando a assistir audiências, e eu pedi a ele alguns livros de referência sobre retórica. Ele me deu uma lista de 20 livros. Eu falei ‘menos, pai’. Então ele me deu 10 livros de presente, entre eles, Schopenhauer. Quando eu li, eu comecei a entender muito mais o Olavo. Aqueles estratagemas… Ele passou a acreditar e incorporar um personagem que ele criou.”

FASE ANTICOMUNISTA

A fase anticomunista de Olavo de Carvalho começou em meados de 2002, quando o primeiro governo Lula estava germinando ainda. Uma vez eleito, Lula passou a ser alvo de críticas constantes de Olavo. Curiosamente, naquela fase, Heloísa namorava um assessor direto de José Dirceu.

HERANÇA

Sobre a herança, Heloísa comentou achar um “absurdo” que, após dois anos da morte de Olavo de Carvalho, a viúva e terceira esposa dele ainda não tinha feito o inventário. Foi Heloísa quem entrou na Justiça para dar publicidade ao testamento que Olavo fez nos EUA em 2018, revelado na quarta-feira, 22 de abril de 2024, pelo Jornal O Globo.

TRATAMENTO NOS EUA

“Ele teve várias internações lá, caríssimas. Tenho uma amigo que foi médico nos EUA e ele me falou que uma das estimativas de uma semana de internação de Olavo sairia mais de 300 mil dólares. Eu acho que foi o seguinte: a maioria delas [internações] foi bancada por alunos. Gente com muito dinheiro. Mas chegou num ponto que não dava mais. Internações muito longas. Uma delas, nos EUA, durou quase um mês. E daí ele veio para onde ele tanto falou mal: o SUS, no Brasil. (…) Do dia para a noite, ele acorda no Brasil num apartamento no InCor. Como ele chegou e como ele foi embora – aquela fuga fantástica – ninguém sabia”.

Heloísa contou em primeira mão ao GGN que descobriu como Olavo de Carvalho saiu “fugido” do Brasil após suas internações em virtude de um câncer. Ele decidiu retornar aos EUA escapando pelo Paraguai depois que foi intimado pela Polícia Federal a prestar esclarecimentos no inquérito das fake news, que tramita no Supremo Tribunal Federal. “Ele morria de medo de ser preso.”

“Primeira vez que falo em entrevista: Olavo saiu de São Paulo e foi para o Paraguai de carro. Quem levou ele foi o filho de um aluno dele, o Thales de Carvalho, esse mesmo Thales que explodiu na imprensa com a história de assédio e abusos. No Paraguai, Olavo ficou na casa do Thales. De lá é que ele foi para os EUA. (…) Meus irmãos negam, mas fizeram parte da arquitetação e realização da fuga.”

MORTE DO OLAVO

“Até hoje não obtive a certidão de óbito onde fala que foi Covid mesmo. Foi em plena pandemia, e no cemitério onde ele foi enterrado tinham outros velórios. Eram todos velado com caixão aberto, porque eram mortes de causas naturais. Mas Olavo foi velado ao lar livre, de caixão lacrado. Dias antes, saiu notícias de que ele estava internado com Covid.”

PESSOA ATORMENTADA A VIDA INTEIRA

Para Heloísa, Olavo foi uma pessoa atormentada a vida inteira e “com isso acabou criando seres atormentados. Meus irmãos, infelizmente, dão dó. Eu tenho dó dos meus 21 sobrinhos, 21 netos que o Olavo tem. Estou descontando meu filho, que foi afastado disso tudo. Mas foram 21 sobrinhos criados na teoria da conspiração, homofobia, discurso de ódio, fake news. É preocupante, é triste. Mas não posso fazer nada.”

“Dos alunos do Olavo, há muitos relatos de alunos que ficaram loucos, tiveram surtos, foram internados em clínicas psiquiátricas. Tentei levantar história de uma aluna muito próxima dele que cometeu suicídio. Desde criança escuto essas histórias.”

BOLSONARO E STEVE BANNON

“Olavo dizia que não tinha relação com Bolsonaro. Mas a relação dele com Eduardo Bolsonaro tinha 10 anos antes da eleição de 2018. A coisa veio publicamente agora, mas não era de agora. (…) Ele acabou conhecendo [o Steve Bannon] por meio do Eduardo. Acabaram virando amiguinhos. Um ia jantar na casa do outro e tudo. Olavo já conhecia Bannon e, provavelmente, deveria ser o grande líder dele. Outra pessoa completamente perturbada.”

Cintia Alves

Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.

5 Comentários

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  1. Quem é feliz 😁 não enche o saco, foi o que sempre ouvi falar.Esse, como a maioria dos infelizes precisou fazer muitos adeptos.Discipulo da confusão e do mal, deixa seu legado e a certeza de que o mal não descansa.

  2. Olavo de Carvalho, filósofo? Mas, o que é isso reportagem? Esse cara estudou até a antiga quarta série do 1°Grau, e tu o chamas de filósofo? Preciso entender isso. Tu tens desprezo pela filosofia? E pelos filósofos?

    1. V. nunca ouviu falar em “marketing pessoal”? Tem gente que se acha e convence a todos daquilo que ela acha que é. Que tal Flávio Marçal?

    2. O que conheço do indivíduo é
      pouco (imprensa) e das publicações é nada. Mas, sinto muito, exigir curso para ser filósofo? Não é por aí.

      1. Você já leu “as obras” do Olavo? Conhece o “pensamento” do Olavo? Tente ler “O jardim das aflições” . Talvez você conclua que a exigência de um curso não seria de todo má para quem pretenda ensinar filosofia.

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