O último capítulo das gravações da Lava Jato traz um novo personagem: a empresária Patrícia Tendrich Pires Coelho, que apareceu em uma operação da Lava Jato e foi liberada sem ser incomodada. Patrícia é mais do que uma mera empresária agraciada por um gesto simpático de Deltan Dallagnol, depois de ter doado R$ 1 milhão para o Instituto MUDE, criado para promover as tais 10 Medidas. Ela é figura-chave para desvendar o escândalo da MP dos Portos, pela qual foi acusado o então presidente da República Michel Temer.

Entenda o que ocorreu.

Peça 1 – o encontro de Deus de Deltan

Patrícia se encontrou com o procurador Deltan Dallagnol em circunstâncias não reveladas nos diálogos do The Intercept. Declarou-se uma defensora da luta anticorrupção e foi convencida a doar R$ 1 milhão para o Instituto MUDE – uma ONG criada na Igreja de Deltan para defender as 10 Medidas Contra a Corrupção.

Patrícia é proprietária da Asgaard Navegação S.A., fornecedora de navios para a Petrobras, e da Mlog, empresa de mineração e portos. Já trabalhara no Opportunity, de Daniel Dantas, e tinha proximidade com André Esteves, do BTG Pactual, e com Eike Baptista, três dos mais notórios personagens do mercado de capitais e cambial brasileiro.

O encontro com Patrícia ocorreu em 28 de junho de 2016, em “uma viagem”, diz Dellagnol, que atribui a Deus a coincidência da viagem ter lhe permitido conseguir recursos para o MUDE.

Logo depois, Dallagnol foi avisado por membro do grupo do MUDE no WhatsApp das ligações suspeitas da empresária. Os alertas não foram considerados. No dia 8 de setembro Dallagnol voltou a se encontrar com ela no Rio de Janeiro e novamente foi alertado sobre suas possíveis intenções. “Me pergunto se ela quer ‘ficar bem’ com o MPF por alguma razão”, especulou seu interlocutor.

No dia 25 de outubro de 2017 o nome de Patrícia apareceu na Lava Jato, como sócia do grego Kotronakis, envolvido em um afretamento da Petrobras. Ela telefonou para Dallagnol informando que tinha só 1% da empresa.

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Peça 2 – as jogadas da empresária de Deus

Em julho de 2019, a Lava Jato denunciou os sócios de Patricia na Asgaard Navegação, o ex-senador do PMDB Ney Suassuna, e Georgios Kotronakis, filho do ex-cônsul honorário da Grécia no Rio de Janeiro.

Segundo levantou a Lava Jato, Suassuna teria se associado a Patrícia para participar do Grupo Superpesa, de transporte rodoviário e marítimo, e operação de terminais, então em situação delicada. O relatório indicava que Suassuna e Patrícia se tornaram sócios da empresa. Patricia tornou-se vice-presidente do Conselho de Administração, e sua outra empresa, Voga Empreendimentos e Participações Ltda. Foi contratada para prestar consultoria à Superpesa.

Segundo o inquérito, “cumpre destacar duas medidas adotadas por Ney Suassuna e Patrícia Tendrich para tentar salvar o Grupo Superpesa: i. foram recrutados os serviços de Jorge Luz e Bruno Luz, os quais possuíam amplo acesso ao alto escalão da Petrobras (principal cliente do Grupo Superpesa) e, como é sabido hoje, valiam-se da prática de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro para conseguir alavancar negócios dentro da estatal; e ii. foram estabelecidas tratativas para captação de investimento do armador grego Tsakos Energy Navigation”.

Ou seja, mesmo com todas as indicações da participação de Patricia nos esquemas, ela foi poupada de denúncia.

Mas não ficou nisso.

Peça 3 – os escândalos do porto de Santos

Um aprofundamento maior da história de Patricia vai mostrar ganhos mais substanciais com a Lava Jato.

Em setembro de 2017 estourou a notícia de que o Consócio Santos Brasil, que venceu a concessão para operar o Tecon, maior terminal de container do país, no porto de Santos, tinha fraudado a licitação (clique aqui).

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A principal concorrente da Libra é a Santos Brasil, do banqueiro Daniel Dantas. Em vídeo de três anos antes, o empresário Arthur Joaquim de Carvalho, sócio do Opportunity, confessou a fraude na formação do consórcio em 1997. O Grupo Libra entrou no consórcio disfarçadamente, através de um fundo de investimento do grupo. Portanto, haveria um cartel disfarçado no posto. O escândalo explodiu em setembro de 2017, levando o Ministério Público Federal a investigar (clique aqui)

Em outubro de 2017 estourou o escândalo da Medida Provisória dos Portos, envolvendo diretamente o então presidente Michel Temer. Delação do operador Lúcio Funaro indicava que Temer havia pedido ao deputado Eduardo Cunha para defender interesses de empresas portuárias durante a tramitação da MP dos Portos, em 2013 (clique aqui)

Um dos interessados era o grupo Libra, um dos padrinhos de Temer. O grupo não conseguiria renovar suas concessões portuários devido ao fato de ter vários débitos fiscais inscritos na dívida ativa, em um total de mais de R$ 2 bilhões. Cunha incluiu na MP uma cláusula permitindo às empresas inscritas na dívida ativa renovar seus contratos desde que ajuizassem arbitragem para discutir o débito tributário. Na delação, Funaro relatou conversas com Daniel Dantas, do Opportunity, acionista da Santos Brasil.

Ou seja, o Grupo Libra entrou “sem aparecer” no Consórcio da Santos Brasil; e Dantas entra “sem aparecer” nos esquemas de propina Cunha-Temer operados pelo Grupo Libra.

Peça 4 – Patrícia, a testemunha-chave

E aí Patrícia entra na história. No mercado do Rio, sabe-se que ela trabalha é operadora de Daniel Dantas. Ainda em 2017, notas publicadas na imprensa informavam que ela havia adquirido o controle dos Terminais Portuários Libra, e sua companhia de navegação, associada a armadores estrangeiros. Há boa probabilidade de que seja novo movimento de Daniel Dantas.

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Em 8 de fevereiro de 2018, Patricia foi afastada da MLog, onde era CEO, e submetida a um processo judicial por violação de seus deveres fiduciários, para privilegiar os interesses dos acionistas controladores em detrimento dos interesses da própria empresa.

Tem-se, então, os seguintes fatos:

  1. Um escândalo graúdo no porto de Santos, envolvendo as concessionárias Libra e Santos Brasil.
  2. O próprio presidente da República Michel Temer acusado de ter levado propina para emitir a Medida Provisória dos Portos, que beneficiava as antigas concessionárias.
  3. A Lava Jato chega a uma figura-chave, Patrícia, que poderia detalhar as ligações Libra-Santos Brasil-Eduardo Cunha. E é liberada sem ser incomodada.
  4. Um membro do MUDE, auditor da Price Waterhouse, alerta Dallagnol sobre as ligações de Patrícia. O alerta é ignorado.
  5. A pedido de Dallagnol, a empresária doa R$ 1 milhão para o Instituto MUDE.

Ou seja, o episódio é mais do que simpatia quase amor, nascido de um encontro fortuito entre Patricia e seu anjo protetor Dallagnol.

 

 

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21 comentários

  1. Deltan Dallagnol em muitos momentos infringiu as dez medidas da lei anticorrupção. Mas como Lula é o “chefe da quadrilha petista” e na cruzada contra os bandidos do PT, tudo vale a pena… Pouco importa a prevaricação e partidarismo dos procuradores se ao fim e ao cabo “lavaram a alma” e conseguiram seus objetivos.

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    • Que objetivos? Quebrar empresas, causar desemprego e manchar as instituições? Praticaram o que diziam combater. Os meios não justificam os fins, quem sofre é o povo.

    • RENATO NEDER: por isso penso que precisamos de uma Frente Ampla pela restauração do Estado Democrático de Direito. Sem essa Frente, os criminosos (Dallagnol, Moro etc) continuam livres, Lula continua na cadeia e Bolsonaro continua destruindo o Brasil. Só mesmo mesquinhos interesses pessoais ou de grupelhos impedem que os democratas (liberais, socialistas, trabalhistas…) se unam e constituam uma força pra restaurar o contexto social que já tivemos.

  2. Se a Corregedoria não corrigir o MPF da Lava Jato que entrara no banco dos reus e a própria Procuradoria Federal e junto a PGR.
    Se não for de fato será no que lhe e mais caro, sua reputação e imagem.

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  3. Isto tudo +2,5bi extorquidos da Petrobras com ajuda de amigos gringos contava com capital para enfrentar até bolsonaro na campanha presidencial. Salve salve , muita fé no deus mercado-jurídico.

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  4. Realmente é impressionante a intocabilidade e o respeito que autoridades judiciais, policiais e fiscalizadoras prestam a Daniel Dantas e seus peixinhos. Parodiando o ex-presidente Obama: “esse é o cara”

  5. Alguém pode imaginar que todos eles estejam no mesmo balaio, não estão, o procurador está fora. Não, não está fora, está em outro. Os empresários fazem o que sempre fizeram e farão, passado, presente e futuro, querem empreender e ganhar dinheiro. Lícita ou ilicitamente, mas isso, em tempos normais, seria assunto para Código Penal. Os licitamente não seriam incomodados, os outros DEVERIAM ser, e, se chamados para a prestação de contas, diante das provas dos ilícitos, seriam simplesmente caracterizados como desonestos, coisa que eles SABERIAM que são, e condenados às penas previstas no retro citado Código, que poderiam ser amenizadas por delação, blá, blá, blá. O procurador é diferente, ele não sabe o que faz. Mas não é o pobre de espírito da Bíblia, não, que só ganhará o Céu. Ele se julga parceiro do dono do Céu por merecimento genético divino. Ele não tem noção de que o que faz nada constrói, muito destrói. Ele não sabe o que faz e faz o que não sabe, imagina-se senador, imagina-se combatente da corrupção, imagina-se o inimaginável, que faz bem ao País. E a tragédia, fosse apenas um personagem isolado, sem poder, sem parceria de iguais, talvez mal nenhum fizesse. Só que não está só. Bom seria se aparecesse um Freud verdadeiro com modus operandi de Simão Bacamarte, para agir até que uma sonhada (tornar-se-á real ?) normalidade retorne. Se eles são emissários de deus espero que o diabo nos ajude.

  6. esse é o verdadeiro jornalismo…
    contextualizou a denúnica da vaza-jato
    com novos dados que demonstram
    cabalmente a prevaricação ocorrida…

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  7. lembrar que moro aliviou estranhamente
    em relação a eduardo cunha…
    deveria ter motivos indicados aí pela nateria, talvez..

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  8. Essas denúncias em conta-gotas já encheram o saco e não produziram resultado algum estão tentando curar um paciente terminal com homeopatia. Me parece que o único interesse do Glenn é apenas ganhar outro prêmio de jornalismo. O interesse por essas denúncias diminuiu sensivelmente não está fazendo efeito algum.

  9. Provas, tretas, prevaricações, conluios, etc. Diferentemente, tudo com provas mil.
    Enquanto isso o Brasil vai sendo assaltado em tenebrosas transações no congresso nacional e nos tribunais.
    Todos tem culpa porque o roubo é “com tudo”, quer dizer um grande acordo nacional que você não vê na globo.
    Quando o Brasil abrir os olhos não haverá mais o Brasil.
    Está sendo depauperado até os ossos e não restará nenhum futuro.

  10. Há muito mais podre nessa história do que já se sabe. Mas até aqui, já se fez notar que que o impoluto procurador se corrompeu e agiu com desídia como forma de promover o combate à corrupção. Além disso, vivemos tempos de nomenclaturas mutantes: o que antes chamavam de “mensalão”, hoje é conhecido como “liberação de emendas parlamentares”. A diferença? O primeiro seria para o congresso (minúsculas, sim!) aprovar projetos que conquistaram mais de 80% de aprovação popular, o segundo, para acabar com aposentadoria de pobre.

  11. O procuradorinho de bacacheri nunca enganou: ele é isto aí mesmo. E o pior é que nada vai acontecer com ele.

  12. Vai ser muito difícil que o capítulo sobre as delações premiadas, feitas por advogados “escolhidos” pela levajetons, não tragam podres muito incriminatórios sobre o nobre futuro-ex-senador e seu partido.
    Seria por causa deste caso também, que o celular do Eduardo Cunha ficou para trás?

  13. Há pianos, há delações, há portos, há música em Roterdã…
    e há Deltans que a gente só consegue medir, ouvir, traduzir e entender, em dinheiro

    com todos e tudo jogados neste mundo qualitativo de araque, para não dizer de merda, para se preocuparem apenas com o quantitativo

  14. Resumindo: deltan recebeu vantagens indevidas em função de seu cargo e fez intermediação de negócios para terceiros com seu cargo, prevaricou ao não denunciar. Que se aplique a Lei

  15. + comentários

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