27 de junho de 2026

A ameaça do narcisismo e do desengajamento moral como traços identitários, por Luiz Henrique Lima Faria

Quando encontra oportunidades e aliados, o narcisismo deixa de ser um traço isolado e integra-se a um projeto coletivo.

A ameaça do narcisismo e do desengajamento moral como traços identitários

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por Luiz Henrique Lima Faria

O narcisismo é um traço de personalidade caracterizado pela busca incessante de reconhecimento e pela convicção de que a realização pessoal só é possível para quem ocupa um lugar singular no mundo. Manifesta-se por escassez de empatia e por uma orientação quase exclusiva aos próprios interesses. Embora possa aparecer em gestos aparentemente inofensivos, como o apoio automático ao grupo que detém o poder, revela seu aspecto mais nocivo quando passa a influenciar decisões capazes de moldar a vida coletiva.

No artigo clássico The Dark Triad of Personality: Narcissism, Machiavellianism, and Psychopathy (A Tríade Sombria da Personalidade: Narcisismo, Maquiavelismo e Psicopatia), Paulhus e Williams descrevem o narcisismo como uma combinação de apetite intenso por poder com a disposição de explorar, sem reservas, as estruturas psicossociais disponíveis para alcançar objetivos pessoais.

Quando encontra oportunidades e aliados, o narcisismo deixa de ser um traço isolado e integra-se a um projeto coletivo. Indivíduos com esse perfil tendem a se aproximar e formar blocos coesos de poder, unificados pela defesa de interesses próprios e pela preservação de posições estratégicas. Essas redes moldam normas, processos e prioridades de acordo com sua conveniência, frequentemente à revelia do interesse público ou institucional.

Sob uma aparência de lealdade entre pessoas com estilos de trabalho semelhantes, surgem feudos que corroem a transparência, a equidade e a responsabilidade, transformando estruturas organizacionais em instrumentos de autopreservação e ampliação de influência. Esse ambiente se fortalece por meio do desengajamento moral, conceito amplamente estudado por Albert Bandura em Moral Disengagement: How People Do Harm and Live with Themselves (Desengajamento Moral: Como as Pessoas Praticam o Mal e Conseguem Conviver Consigo Mesmas), que demonstra como mecanismos cognitivos permitem justificar condutas antiéticas, neutralizar a culpa e preservar uma autoimagem de integridade enquanto se prejudica deliberadamente o bem comum.

Com o apoio do desengajamento moral, os mecanismos típicos do narcisismo tornam-se previsíveis. Transgressões são justificadas como se estivessem amparadas pelo próprio regramento institucional, responsabilidades são diluídas para que ninguém responda por nada, impactos negativos são minimizados e colegas são desumanizados por meio da atribuição de inferioridade moral. Quando essas práticas são compartilhadas por um coletivo, consolidam-se culturas paralelas, impermeáveis à ética institucional e insensíveis ao interesse público.

Essa dinâmica, porém, encontra limites. Redes dominadas por pessoas narcisistas tendem a moderar o comportamento quando percebem que práticas antiéticas ameaçam sua própria sobrevivência. A preservação do grupo depende de relações minimamente saudáveis, de boa reputação e de alianças duradouras, o que leva o interesse próprio a impor restrições ao impulso predatório.

Um clima organizacional positivo e coerente também atua como fator de contenção. Em ambientes em que recompensas estão associadas à integridade, à responsabilidade social e ao respeito às normas, até as coalizões narcisistas tendem a ajustar-se ao padrão dominante. Essa adaptação não resulta de adesão genuína a valores morais, mas de cálculo estratégico, quando a preservação de poder é mais vantajosa do que o confronto com os anseios coletivos.

O antídoto contra o narcisismo e o desengajamento moral está na criação de mecanismos que vinculem ganhos individuais à geração de benefícios coletivos e que impeçam a consolidação desses desvios como traços identitários de sucesso institucional. Tanto indivíduos isolados quanto redes articuladas operam segundo uma lógica de cálculo, e é sobre essa lógica que se deve atuar. Quando o custo da transgressão se torna alto e a recompensa pela conduta ética é concreta, até os blocos mais autocentrados tendem a alinhar-se ao interesse comum.

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    19 de agosto de 2025 2:32 pm

    Instituições privadas e públicas não tem subjetividade ou emoções. Mas tenho a impressão que elas podem desenvolver culturas próprias (modos de ação compartilhados que maximizam sua eficiência e perpetuação) que facilitam o desenvolvimento e/ou o fortalecimento de emoções e tipos de subjetividades específicas nos seus membros. O sadismo dos policiais é algo típico das pessoas que entram na PM ou algo que a corporação estimula, premia e valoriza até consolidar nos “bons membros” dela? Os juízes e promotores também têm suas características distintivas, que não raro acabam dominando seus membros e separando-os das demais pessoas. Traços patológicos específicos também são encontrados em pessoas que trabalham no mercado financeiro, nos engenheiros de TI das Big Techs e assim por diante. Essas culturas profissionais e corporativas deveriam ser mais estudadas, suponho.

    1. Luiz Henrique Lima Faria

      19 de agosto de 2025 9:43 pm

      Boa noite, Fábio de Oliveira Ribeiro.

      Você toca em um ponto essencial que dialoga diretamente com o argumento central do meu artigo que é o modo como o narcisismo e o desengajamento moral, quando não enfrentados pelas instituições, podem se consolidar como traços identitários.

      Embora instituições não tenham subjetividade ou emoções próprias, elas operam a partir de um ethos que pode ser mais ou menos rígido, mais ou menos ético. Quando é frágil, inconsistente ou ambíguo, tende a ser testado por sujeitos narcisistas ou moralmente desvinculados, que, ao encontrarem maleabilidade institucional, acabam por “empurrar a cerca”. Com o tempo, traços inicialmente individuais tornam-se reforçados, naturalizados e até premiados.

      É nesse processo que determinadas culturas organizacionais passam a produzir subjetividades específicas. O sadismo policial, por exemplo, não é necessariamente uma característica intrínseca dos indivíduos que ingressam na corporação, mas pode ser algo que ao longo do tempo une pessoas, na medida em que se alinha a um ethos institucional que recompensa a brutalidade como eficiência. O mesmo pode ser dito da altivez tecnocrática de certos membros do Judiciário, da frieza calculista do mercado financeiro ou da arrogância meritocrática presente em setores das big techs.

      Essas culturas não apenas refletem o tipo de profissional que atraem, mas, sobretudo, o tipo de subjetividade que consolidam. São dispositivos de produção de identidades, sustentados por práticas de socialização, reconhecimento e exclusão.

      Estudá-las, de fato, é fundamental. Não apenas para compreender a reprodução de dinâmicas tóxicas ou autoritárias, mas também para propor formas de intervenção ética nas estruturas institucionais que, quando mal reguladas, deixam de conter a barbárie e passam a estruturá-la.

      Agradeço seu comentário. Sempre é bom encontrar interlocução de qualidade.

  2. Rui Ribeiro

    19 de agosto de 2025 3:42 pm

    O Ancelotti tá achando que a copa do mundo não é de futebol mas de Choro e de Queda, pois pré-convocou o Neymala, que é campeoníssimo em chorumelas e em cai-cais.

  3. twa

    3 de setembro de 2025 4:54 pm

    “Sob uma aparência de lealdade entre pessoas com estilos de trabalho semelhantes, surgem feudos que corroem a transparência, a equidade e a responsabilidade, transformando estruturas organizacionais em instrumentos de autopreservação e ampliação de influência.”

    Me lembro na hora do funcionalismo e do judiciário brasileiros

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