5 de junho de 2026

Mitologias da Independência II: a bandeira da Pátria é a bandeira da Pátria?, por Alexandre Filordi

A alviverde praticamente virou moda prêt-à-porter do patriotismo de encomenda.

Mitologias da Independência II: a bandeira da Pátria é a bandeira da Pátria?

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por Alexandre Filordi

Nesses tempos de efusivo patriotismo, adotei um teste pueril. Você pode fazer o mesmo, não deixa de ser curioso. Pergunte a qualquer patriota por que a nossa bandeira é tramada num retângulo verde, losango amarelo e um círculo azul, repleto de estrelas. Aliás, já é divertido perguntar qual é a cor em que se está escrito “Ordem e Progresso”, e aguardar a resposta.

Quanto às cores, praticamente 100% respondem, diante da pergunta escolar: o verde representa nossa mata ou esperança; o amarelo, a riqueza do ouro; o azul, bem, aqui se complica: pode ser o mar ou as nossas águas, até mesmo o céu. As estrelas demandariam demais dos neurônios. Há quem diga que o branco se refere à paz. Seguramente. Afinal, o Brasil é endemicamente pacífico: só matou alguns milhões de povos indígenas aqui; outros tantos de africanos acolá; mais uns tantos paraguaios-guaranis numa guerra de anexação territorial; uns beatos em Canudos etc. E, em tempos atuais, com mais armas do que diplomas nas mãos dos patriotas, basta não sair de casa para não correr risco algum; nem defender os povos indígenas remanescentes ou os afro-brasileiros, ou qualquer minoria. Seja como for, o importante é que a nossa bandeira não seja vermelha.

A alviverde praticamente virou moda prêt-à-porter do patriotismo de encomenda. Nesse caso, como disse Lima Barreto, em Os Brazundangas, “não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das coisas que fingem amar, de decifrá-las; só querem a aparência das coisas”. No entanto, qual não é a surpresa dessa gente quando passo a discorrer acerca da verdadeira razão da semiótica patriótica, com perdão da cacofonia.

A bandeira atual, filha herdeira da Proclamação da República sem povo e sem coisa pública – res publica – é um papel carbono da bandeira do Brasil Império. É que a nossa República se inspirou naquilo que também nunca houve: Independência (Veja aqui: https://jornalggn.com.br/opiniao/a-reescrita-da-dependencia-politico-economica-do-brasil/). O retângulo verde é mero decalque da bandeira de Dom Pedro II – cheia de detalhes vermelhos, diga-se de passagem; o losango amarelo, para caber na altura da flâmula, não passa do brasão deitado de Dona Leopoldina, pertencente à casa dos Habsburgo – igualmente pleno de vermelho; o azul, ora, era a cor do uniforme do exército no tempo da Proclamação da República.

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Por que a bandeira do Brasil, a incensar o Bicentenário da Independência, decalcou desde 1889, os símbolos da monarquia com suas artroses de poder? Por que é a cor do uniforme do exército republicano que está no centro da bandeira? Por que a nossa bandeira não remete a nada que seja pertencente ao povo; que emanasse do povo; que pudesse dar sentimento marcante de pertença ao povo e unidade participante na constituição de sua Pátria?

Tais indagações devem ser tomadas como placas tectônicas moventes no patriotismo sedentário, de crença arrimada a um pertencimento ao qual, a bem da verdade, é sobreposição violenta de formas de dominação sobre o povo. Aliás, até hoje – DUZENTOS ANOS DEPOIS DA PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA – os longínquos descentes da monarquia recebem, por exemplo, o famigerado laudêmio: quem compra um imóvel no Primeiro Distrito de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, deve pagar uma taxa de 2,5% aos herdeiros dos donos do verde e do amarelo da bandeira nacional.

 Nenhuma independência de espírito democrático pode pulsar com tranquilidade quando a nossa bandeira testemunha completa falta de cumplicidade com os mais frágeis socialmente, a gente não graúda, destituída de nobreza, casta ou patente. A “Ordem” alcunhada ali é urdidura das velhas ordenanças e presságio dos mandos acumpliciados cuja mão forte sempre acariciou os mesmos poderes incrustados no que o verde, o amarelo e o azul representaram e vieram a representar.

Longe de se pensar em Independência, em 1638, o Padre Antônio Vieira proclamava assim no Sermão da Visitação de Nossa Senhora: “esta é a causa original das doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda, e o Estado se perde”. E arrematava acerca de seus conterrâneos: “não vêm cá buscar o nosso bem, vêm cá buscar nossos bens”. Se julgarmos pela ignorância parasitária dos patriotas ao redor da constituição e dos sentidos da bandeira da Pátria, é bem possível dizer que muitos deles não vêm cá para buscar o nosso bem. E seguem por aí, tomando o alheio, quando não se inclinam aos ganhos e conveniências particulares. Fazem-no quase sempre em nome deles, como se povo o fossem, não sem ignorar a vontade soberana do povo, que não são eles. Em moeda corrente, até dizem que, suponhamos no caso de uma eleição, a escolha da maioria pode bem não ser a maioria, pois essa maioria seria justamente povo – algo extremamente perigoso.

Entre mastros e mãos, o aspirado “Salve, lindo pendão da esperança”, nos termos do primeiro verso do Hino da Bandeira, em tempos correntes, mais demanda salvação do que saudação. O patriotismo bem que pode ser a repetição de um mesmo vocábulo e de uma mesma história. Contradizê-los, porém, tornou-se urgência patriótica. Talvez esteja aqui outra possibilidade de experiência de pertencimento à Pátria, porém, escrita com outra história, em busca de outras independências.

Alexandre Filordi – Departamento de Educação – DED – UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. Coordenador do GT de Filosofia da Educação – ANPEd – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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4 Comentários
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  1. José de Souza

    6 de setembro de 2022 9:11 am

    Existem outras formas de uso da bandeira brasileira, de recuperá-la ou resignificá-la.
    Interessante este artigo:
    https://bananasnews.noblogs.org/post/2021/07/08/sobre-bananas-e-bandeiras/

  2. Lima

    6 de setembro de 2022 12:47 pm

    Faltou citar os Positivistas, militares, civis e outros “çábios”. Sábio mesmo era o Lima Barreto…

  3. César Alberto Nobre de Melo

    8 de setembro de 2022 1:40 pm

    Estes são pontos de vista de um esquerdista. Só interessam para os infelizes que professam a mesma cartilha!
    Fique com seu ponto de vista seu dr. de araque!!!

  4. César Alberto Nobre de Melo

    8 de setembro de 2022 1:40 pm

    Estes são pontos de vista de um esquerdista. Só interessam para os infelizes que professam a mesma cartilha!
    Fique com seu ponto de vista seu dr. de araque!!!

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