Entre “Medida Provisória” e medidas permanentes: o racismo para além do cinema, por Alexandre Filordi e Ellen Lima Souza

“Medida Provisória” retrata em sua distopia a força de um desejo recalcado, mas que se transborda nos vários sintomas do racismo ordinário

(And the migrants kept coming [1940-41] – Jacob Lawrence)

Entre “Medida Provisória” e medidas permanentes: o racismo para além do cinema

por Alexandre Filordi e Ellen Lima Souza

Desde a invasão do que hoje denominamos Brasil é recorrente a tentativa da colonialidade do poder de sistematizar uma história que nos divida em heróis e vilões. Herança do maniqueísmo simplista e equivocado do eurocentrismo. Nessa história, para a população negra chegada aqui pela instituição bárbara da escravidão, restou a ironia, dentre tantas, como esta patenteada no samba da Mangueira, em 2020: “Brasil, meu dengo/A Mangueira chegou/ Com versos que o livro apagou/ Desde 1500/ Tem mais invasão do que descobrimento/ Tem sangue retinto pisado/ Atrás do herói emoldurado/ Mulheres, tamoios, mulatos/ Eu quero um país que não está no retrato”.

No filme “Medida Provisória”, dirigido por Lázaro Ramos, adaptação de “Namíbia, Não!”, peça de Aldri Anunciação, nos deparamos com um futuro distópico. Nele, o governo brasileiro decreta uma medida provisória. É uma iniciativa de reparação pelo passado escravocrata, provocando uma reação no Congresso Nacional, que então decide a obrigar os cidadãos negros a migrarem para a África, na intenção de retornar às suas origens. Eis-nos às voltas com outra ironia.

A estreia de “Medida Provisória” tem levado o movimento negro, com o apoio da “Coalizão Negra por Direitos”, a acessar diversas salas de cinema em São Paulo gratuitamente. Garante-se, assim, a participação em um importante aparelho cultural nem sempre disponível para toda população, ainda mais a negra. Ocorre que muitas salas de cinema estão em espaços elitizados cujos frequentadores corriqueiros se habituaram a invisibilizar negras e negros com uniformes de faxineiras e seguranças; ou a visibilizá-los/las como ameaça ao templo do consumo. Conhecemos notícias de negros e negras abordados equivocamente em shoppings, ainda que tenham adquirido produtos com o suor de seu trabalho.

A chegada de um grupo de negros e negras ativistas em uma sala de cinema, localizada em um shopping da pretensa elite paulistana, no último domingo do feriado de Páscoa, impactou as percepções que naturalizam as desigualdades. Ao sairmos em grupo da sessão de “Medida Provisória”, uma senhora branca não fez questão de ocultar o gesto de realocar a sua bolsa com maior vigor e segurança: poderia ser um arrastão, não é mesmo? Para a camada branca endinheirada, o hábito de cristalizar a negritude nos registros da exclusão faz parte das mesmas estratégias políticas de exploração dos negros e das negras, espécie de geolocalizador importante para mostrar onde se é e onde não se é lugar de negros e negras.

Como o constrangimento também é uma marca punitiva, ter consciência das possibilidades de reversão do constrangimento é sempre uma atitude política necessária para resistirmos e denunciarmos a normalidade racista de cada dia. Nas peles negras, a sociedade insiste tatuar a segunda pele dos abusos da colônia. Os gestos, tal como os desta senhora, fazem parte do abuso habitual com o qual convivemos. Mas o que hábito faz, o hábito refaz e o hábito desfaz.

Cientes disso, uma voz negra ousou dizer, não sem ironia, em alto e bom som: “não segura a bolsa, minha senhora, é o seu povo quem rouba o Brasil desde 1500”. A forma como negros e negras são executados neste país; presos à batelada, com sentenças muitas vezes racializadas; subempregados e explorados; desamparados pela justiça social; ameaçados de exclusão social, por exemplo, com a iminente ameaça ao fim da política social de cotas ao ingresso universitário; hipersexualizados conforme a conveniência do mercado – quem não se lembra das “mulatas” do Sargentelli – dão prova que são os povos africanos os ameaçados cotidianamente.

Valeria uma inversão da distopia de “Medida Provisória”. Como a maioria da população brasileira é negra-parda-africanizada, por que não se pensar no retorno da minoria branca para suas nações originárias como espécie de fare l’America às avessas? Os negros e as negras poderiam aqui permanecer, juntamente com os povos originários e quem desejasse a reconstrução de uma nação democrática não racista e mais justa.

Aliás, a senhora que segurou a bolsa e não conseguiu disfarçar seu espanto também comunica a marca de sua ancestralidade colonizadora. Por sinal, ao contrair o corpo com sinais de pânico, não deixou de nos evidenciar que estava a caminhar isolada e solitária. O povo negro sempre foi povo do coletivo; é o povo do espírito ubuntu, que significa “humanidade para os outros”, com a refinada consciência que não há eu sem coletivo, sem alteridade.  O simples fato do espírito ubuntu atravessar saguões e corredores de um shopping desestabiliza a planificação de uma sociedade habituada ao cada um por si e eu contra todos.  Por si só, isto é uma ameaça à ordem vigente, pois solidariedade e coletividade não combinam com subjetividade neoliberal do mérito individualista.

Anunciar este acontecimento é importante por que escangara a indagação presente no inconsciente racista brasileiro: onde é o lugar do negro e da negra? Para nós, em qualquer lugar; para os brancos racistas, aonde eles não estiverem. Os passos acelerados da senhora bem que nos fazem pressentir tal constatação. Acelerar os passos: sintoma personificado do gesto em fuga, que teme a convivência e a partilha negras.

De que outra forma a população negra pode construir outro Brasil? Um país que, para além da “Medida Provisória”, ultrapasse as medidas permanentes de continuação da saga da colonialidade do poder e da exclusão neste País? “Medida Provisória” retrata em sua distopia a força de um desejo recalcado, mas que se transborda nos vários sintomas do racismo ordinário, não sem evidenciar a aceitação social da segregação racial no Brasil. Desse ponto de vista, provisório há muito deixou de ser sinônimo de efemeridade. Aqui é de outras medidas que se trata. No enfrentamento das medidas de injúrias, passando pelos constrangimentos e chegando até a violência de toda espécie é que precisamos intervir. Nos gestos infames e banais do dia a dia elas se fazem presentes. Portanto, é preciso lutar contra o apagamento das medidas que transformam as diferenças em desigualdades. No idílio branco, há a tentativa constante de se deletar a negritude com sua riqueza simbólica advinda da África pois a considera perigosa.

 Na saída da referida sala de cinema, um grupo negro, altivo e afirmando um estilo afrofuturista com suas vestimentas, “desfilava”. Sua composição era de cidadãos e cidadãs brasileiros/as, pagantes de impostos, trabalhadores/as, herdeiros/as de pais que irrigaram com sangue as terras tupiniquins que geraram frutos para a riqueza da Nação. Mas por que o grupo assustava? Por que o povo negro afrontava e gerava temor? Pode ser por que ao escaparmos da “Medida Provisória” caímos no braseiro das medidas racistas permanentes. E isto é a vida real, infelizmente.  

Alexandre Filordi – Departamento de Educação – DED – UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. Coordenador do GT de Filosofia da Educação – ANPEd – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO

Ellen Lima Souza, professora do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo. 

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2 Comentários

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Holder Chaia Toledo Miranda

- 2022-04-23 17:11:56

Há de se ter o " Medida Provisòria 2 ": os afrodescendentes (incluso muitos de nós) fazem uma revolução moral e intelectual, tomam o poder (eles são a maioria) e obrigam os brancos a ocuparem os cargoes e afazerem as atividades que eles têm feito: porteiro, empregada domestica, baba, lavador de carro, catador de restos nos lixos, e por aí agora. Qdo será que a nossa gente (racista) irá permitir essa (não) ficçâo ?

AMBAR

- 2022-04-23 14:58:14

Eis o perigo que o povo branco vê, luta contra ele, tenta evitar mas o próprio "ser perigoso" não percebe. Um povo mais forte geneticamente, resistente e sobrevivente, que ocupa vastas áreas do planeta, mantido em indigência cultural por milênios, se de repente se reune, se instrui e reivindica sua hegemonia, o mundo branco se acaba. O brasil foi muito inteligente no controle dos seus afrodescendentes dando-lhe a ilusão de igualdade. Maravilhosa hipocrisia que os tem mantido em estado de inferioridade até agora.

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