21 de maio de 2026

A Economia Peter Pan e o Brasil no Espelho, por Henrique Morrone

Por trás da imagem, há um corpo estagnado, dependente e temeroso. O país não é incapaz de crescer; é relutante em amadurecer.
Reprodução

1. Brasil vive sob lógica de economia Peter Pan, temendo crescer para não mudar estruturas de renda e poder.

2. Setores financeiros, políticos e construção civil preferem estabilidade à evolução econômica, mantendo desigualdades lucrativas.

3. País reflete contradição entre imagem moderna e realidade estagnada, resistindo a amadurecer e enfrentar conflitos do crescimento.

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A Economia Peter Pan e o Brasil no Espelho

por Henrique Morrone

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O país que sonha com o futuro, mas teme amadurecer — e encontra na estagnação o conforto de não precisar mudar.

O Brasil vive sob a lógica de uma economia Peter Pan — uma economia que teme crescer. Não por falta de talento, nem de vocação produtiva, mas porque crescer exige amadurecer. E amadurecer, para nós, significa mexer nas estruturas que concentram renda, poder e privilégios.

Durante décadas, o país construiu um verdadeiro temor institucional ao crescimento. Não é um problema de produtividade, mas de conveniência política e econômica. Quando o crescimento se sustenta, algo essencial acontece: a renda do trabalho tende a avançar mais rápido que a renda do capital. E isso desloca o centro de gravidade da sociedade.

Crescer de forma contínua é perigoso para quem se alimenta da paralisia. Mais emprego formal, salários em alta, expansão do mercado interno, e uma classe média capaz de se organizar politicamente — tudo isso redistribui poder. E o poder, no Brasil, raramente aceita ser redistribuído.

Por isso há quem prefira uma economia que flutua, mas não decola. O sistema financeiro, os setores oligopolizados, as elites políticas do curto prazo e parte da construção civil voltada à alta renda ganham mais com a estabilidade imóvel do que com o movimento real. Nessa lógica, construir virou sinônimo de gentrificar — criar enclaves privados de bem-estar em meio à estagnação pública. A desigualdade deixou de ser um problema e virou insumo de lucro.

Há também empresários que evitam inovar — não por falta de capacidade, mas porque o ambiente econômico pune o risco produtivo e premia o rentismo. Enquanto isso, a classe média se fragmenta: sem crescimento, divide-se entre defender seus privilégios e temer a queda. A pobreza aumenta não por falta de riqueza, mas porque a riqueza não circula.

O espelho brasileiro reflete essa contradição: vemos um país moderno, competitivo, globalizado — mas o reflexo é enganoso. Por trás da imagem, há um corpo estagnado, dependente e temeroso. O país não é incapaz de crescer; é relutante em amadurecer. Teme o conflito que o crescimento provoca — teme a política do desenvolvimento.

Enquanto o Brasil insistir em permanecer na Terra do Nunca, onde juros altos e lucros fáceis substituem o trabalho e o investimento, seguirá preso à sua infância econômica: um país que sonha com o futuro, mas recusa o preço de torná-lo real.

Henrique Morrone – economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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