A guerra de Mendonça e a prostração do PT, por Aldo Fornazieri
André Mendonça se tornou o principal general de Flávio Bolsonaro na guerra que o bolsonarismo move contra a campanha de Lula. Ele fornece os conteúdos, as munições, a orientação estratégica e é a voz que confere coesão e força moral ao ativismo militante e mobilizador da campanha.
Ele virou o estandarte da campanha nas manifestações, nas mobilizações, nas ruas e nas redes. Ele é o boneco inflado que abençoa os comícios de campanha e o rosto estampado nos estandartes agitados pelos guerreiros. Ele é a voz de comando das mobilizações ao postar mensagens em vídeos que são imediatamente transformadas em peças de campanha.
A voz de Mendonça tem uma força poderosa, porque, no dizer de Michelle Bolsonaro, ele é “o escolhido e ungido do Senhor”. Ele é o filho sobre o qual Deus libera a sua palavra. Os burocratas e receituários petistas não têm ideia quantos votos esse contexto pode render, quanta energia militante ele pode desencadear. É uma disputa travada nos âmbitos simbólico, moral, político e jurídico, com força de coesão e fidelização de intenções e expectativas.
Mendonça é o general que traçou as linhas de defesa e de ataque. Durante mais de 20 dias o entorno do ministro promoveu vazamentos seletivos acerca do imbróglio Lulinha. As munições foram e são amplamente utilizadas nos ataques bolsonaristas. Fizeram o governo perder pontos na avaliação e Lula perder intenção de voto. Não houve reação do PT e da campanha lulista. Não foi traçada uma tática para enfrentar o problema.
Em poucos dias, Mendonça lançou duas bombas de alto poder sobre o ambiente da campanha, fortalecendo os ataques bolsonaristas. A primeira, atropelando procedimentos legais, tinha alvo aparente Alexandre de Moraes e alvo profundo a campanha de Lula. Os dois nomes foram interligados num alvo de ataque único e os bolsonaristas entoam “fora Lula” e “fora Moraes” num único grito de guerra.
A segunda bomba foi sobre a cúpula da Polícia Federal, com o afastamento do diretor Andrei Rodrigues e do delegado Leonardo Almada. Em solidariedade aos afastados, toda a cúpula da PF pediu afastamento.
Quer dizer: Mendonça já promovia intervenções administrativas ilegais na PF. Agora paralisa a polícia que mais combate a corrupção e o crime organizado, que é um símbolo de competência para os brasileiros. Ao mesmo tempo passa por cima de Lula, de Fachin, presidente do supremo e do plenário do STF.
Ao agir assim, Mendonça promoveu um ato de campanha em favor de Flávio Bolsonaro. Forneceu mais munições para ataques incluindo, agora, a própria PF. As ações de Mendonça erodem a confiança nas instituições e reforçam a ideia de que a democracia brasileira está esculhambada. Este é um argumento do bolsonarismo para atacar a democracia em nome da democracia para preparar o terreno para a sua destruição.
Juristas renomados, a exemplo de Walter Maierovitch, dizem que a decisão de Mendonça é perigosa, inconstitucional, arbitrária, ilegal e fere a legislação processual penal. Se assim é, Mendonça está cometendo crime de responsabilidade, passível de impeachment. Os senadores petistas precisam propô-lo no Senado.
Além de municiar os ataques bolsonaristas, Mendonça estrutura as linhas de sua defesa: agrava as suspeições sobre o STF, a PF e a PGR, guarda sob rigoroso sigilo o envolvimento do Flávio Bolsonaro com o escândalo Master e protege o próprio Vorcaro ao paralisar o processo e ao adotar medidas que podem levar a anulação de todo o caso no futuro.
Fachin precisa ser cobrado para que adote medidas urgentes para deter a crise do STF e as ilegalidades e parcialidades de Mendonça. Mas o PT e a campanha de Lula precisam distinguir o que são medidas legais e jurídicas do que são medidas de guerra política (https://jornalggn.com.br/opiniao/a-guerra-eleitoral-por-aldo-fornazieri/). No nosso tempo, as primeiras andam a passo de um muar cansado, subindo uma montanha. As segundas têm a instantaneidade da inteligência artificial.
As medidas de guerra política precisam ser ativadas em contra-ataques instantâneos desencadeados por um estado-maior em permanente prontidão estratégica. Mas na campanha lulista parece que não há uma estratégia, não há táticas de ataque e defesa, não há material de campanha, não há produção de conteúdos para municiar a militância nas redes. Os atos de campanha são mal preparados e mal organizados. A própria campanha de rádio e TV carece de orientação estratégica. Em meio a crise, o comando da campanha se reúne esporadicamente.
Há pruridos em atacar André Mendonça. Acreditam que ao atacá-lo, caem no colo de Alexandre de Moraes. Esta suposição indica que os comandos perderam a noção do agir político, do ardil, da astúcia, da arte da simulação e da dissimulação, coisas absolutamente necessárias à guerra política. Este dilema é paralisante.
Assisti um vídeo do combativo Lindenberg Faria abordando o afastamento dos diretores da PF. Ele atribui a decisão a uma irresponsabilidade de Mendonça, até à sua vaidade. De seguida cobra explicações a Alexandre de Moraes e medidas do STF. É a tática da ineficiência que favorece o bolsonarismo. A questão do PT e da campanha é a atacar Mendonça e ponto. O caso Alexandre de Moraes é um problema do STF. De novo, é uma tática defensivista e moralista. Maquiavel ensinou à exaustão que o que dita a moralidade da política são as circunstâncias. E isto não é ser imoral.
A campanha não tem peças mobilizadoras. A militância está abatida, desorientada e desmobilizada. É um exército com vontade de combater, mas sem generais no comando. Numa eleição marcada pela apatia e o desânimo, a capacidade de mobilização pode ser decisiva para determinar o resultado. As informações que se tem é que os comandos do PT e da campanha vivem no reino da desorganização, da desarticulação, do defensivismo e da prostração. Não há articulação entre o comando nacional, o comando estadual e as candidaturas a deputados. Estas se sentem tão abandonadas quanto a militância.
O efeito eleitoral dessa guerra vem produzindo uma lenta redução da avaliação positiva do governo, redução de intenção de votos em Lula e estabilização de Flávio Bolsonaro. Os chamados nanicos tiveram movimentações mais expressivas, particularmente Cury. Aqui está o perigo
Na virada do primeiro para o segundo turno quem estiver na frente tende a vencer. Deverá carear mais votos dos candidatos nanicos e um deslocamento do centrão para seu apoio. A campanha de Lula tem 25 dias para virar com vantagem. Lula e os comandos da campanha e do PT têm a responsabilidade de dar uma resposta. A militância abnegada precisa cobrar uma resposta. Não há alternativa. Ou é arrancar uma vitória ou é um fim melancólico das esperanças que Lula e o PT suscitaram.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
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Jose
9 de setembro de 2026 10:20 amAs Big Techs colocam os post de apoiadores de Lula a 20 km/ha e os do Bozzo a mil km/h, daí a impressão de que a campanha de Lula tá parada nas redes sociais, o lugar em que atualmente se decide o voto
Sabemos que quem vota na extrema direita o faz motivado pelo ódio a algo e não devido a uma boa realização, mas as pessoas não se ligam, pois são manipuladas ao bel prazer das Big Techs, com a agravante de que Mendonça transformou o seu gabinete em fábrica de falsas acusações contra Lula e seu entorno, ao mesmo tempo em que está provado que 99,99999% dos envolvidos no caso master são bolsonaristas
Mendonça está a perseguir os policiais que prenderam Vorcaro e quem descobriu os envolvidos na morte de Marielle
Mendonça começa a soltar os fraudadores do INSS
Lula prende e Mendonça solta, o objetivo é soltar o Bozzo e demais envolvidos na tentativa de golpe de 8/1
Assis
9 de setembro de 2026 10:59 amGenial.
Para um bom entendedor essa análise leva a observação da fragilidade do PT e do risco de perder as eleições
Jose de Almeida Bispo
9 de setembro de 2026 1:17 pmComo o Brasil, o poder do PT é um milagre
Até hoje, honrosas e providenciais exceções à parte, é tudo cheio de boa intenção, e repleto de ética e boa fé, expressas nas manuais, e zero malícia. Enquanto o oponente aproveita essa fragilidade, transformando em percepção de incompetência junto às massas.
Pedro Rocha
9 de setembro de 2026 2:33 pmA incompetência e coragem do sistema Lula/PT é flagrante há décadas. São amadores e nao é pouca coisa. O defensivismo que o professor aponta significa no futebol que mesmo jogando com 11 jogadores enfiados dentro da pequena área os caras conseguem tomar bola nas costas. Com dois meses de governo o Lula iniciou um périplo internacional que terminou em março deste ano, foi pra gringa resolver a disputa de palestinos com judeus, russos com ucranianos etc. O presidente do Brasil é um dos caras mais poderosos do mundo por causa do posto que ocupa mas nao consegue antagonizar, criar atritos. É um centrodireitista que sequestrou a esquerda e um presente dos céus para inimigos do país. Tenho MUITA raiva do Lula, não é pouca não
Laol
9 de setembro de 2026 7:05 pmA militância agiu admirável e surpreendentemente bem no episódio do “Hugo Nem se Importa”, inimigo do povo, usando a IA. É certo que agora não poderia usar armas assim ligando a nada que soe campanha em si, pois o Krasso Nunes mandaria suspender. Mas, com humor e criatividade, daria para fazer muita coisa, não pró-campanha, mas ante-quadrilha dos adversários, dando aos Mendonças, Vorcaros, Flávios etc a retratação que merecem – e recorrendo em nome da liberdade de expressão, afinal, quando Krasso tentar barrar. Falta reunir os militantes hábeis nessas armas e instigá-los, municiá-los. Ainda há tempo, mas acho que a cada dia é uns 10% a menos…
Rui Ribeiro
10 de setembro de 2026 8:19 amO comentário do Laol me fez lembrar da 5ª dificuldade de escrever a verdade, constante do texto intitulado as 5 Dificuldades para escrever a verdade, do Brecht:
“HABILIDADE PARA DIFUNDIR A VERDADE
Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura fatigados com o esforço necessário para lhe dar uma forma manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário o uso de manhas e estratagemas para a difundir. Frequentemente, é assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi necessário recorrer a “truques” para espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la. Confúcio falsificou um velho calendário histórico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia: “o senhor de Kun condenou à morte o filósofo Wan por ter dito frito e cozido”, Confúcio substituía “condenou à morte” por “assassinou”. Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia “foi executado”. Com este processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção da história.
Na nossa época, aquele que em vez de “povo”, diz “população”, e em lugar de terra”, fala de “latifúndio”, evita já muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha. A palavra “povo” exprime uma certa unidade e sugere interesses comuns; a “população” de um território tem interesses diferentes e opostos. Da mesma forma, aquele que fala em “terra” e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as mentiras dos poderosos, porque não fala do preço do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos ricaços das cidades e não aos dos camponeses que se matam a tornar fértil o “paraíso”. “Latifúndio” é a expressão justa: torna a aldrabice menos fácil. Nos sítios onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez de “disciplina”, a palavra “obediência”, já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obediência. Do mesmo modo, “dignidade humana” vale mais do que “honra”: com a primeira expressão o indivíduo não desaparece tão facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o género de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem “honrarias” pelos famélicos que os engordam.
Ao substituir avaliações inexactas de acontecimentos nacionais por notações exactas, o método de Confúcio ainda hoje é aplicável. Lénine, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar, quis descrever a exploração e a opressão da ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu “Rússia” por “Japão” e “Sakalina” por “Coreia”. Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não foi proibida, porque o Japão era inimigo da Rússia. Muitas coisas que não podem ser ditas na Alemanha a propósito da Alemanha, podem sê-lo a propósito da Áustria. Há muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.
Voltaire combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem dúvida foram necessários para Joana d’Arc permanecer virgem no exército, na Corte e no meio dos frades.
Pela elegância do seu estilo e a descrição de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta. Mais e melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difusão dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a polícia que protegia os seus prazeres. E o grande Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos seus versos.
Não há dúvida de que um alto nível literário pode servir de salvo-conduto à expressão de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente. É o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos, a descrição dos males da sociedade. O grande Shakespeare baixou o seu nível por considerações bem mais fracas, quando tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com que a mãe de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projecto, não por causa de razões sólidas ou de uma emoção profunda, mas por uma certa fraqueza de carácter que o entregava aos seus velhos hábitos. Encontramos igualmente em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de Marco António perante o corpo de César, quando repete com insistência que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo tempo o seu acto, e a descrição do acto provoca mais impressão que a do autor.
Jonathan Swift propôs numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los como carniça no talho. Através de minuciosos cálculos, provava que se podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências decorrentes de certas concepções.
São consideradas baixas as actividades úteis aos que são mantidos no fundo da escala: a preocupação constante pela satisfação de necessidades; o desdém pelas honrarias com que procuram engodar os que defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador; o protesto contra a obrigação de ter um comportamento de idiotas; a indiferença para com a família, quando de nada serve a gente interessar-se por ela. Os esfomeados são acusados de gulodice; os que não têm nada a defender, de cobardia; os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria força; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de preguiça, etc.
Numa época como a nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria, têm de evitar que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar à prisão antes que a sua busca atinja o governo. Mas é sempre possível opormo-nos à conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias, que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme à verdade, quando se incorporam à natureza as coisas criadas pelo homem.”