10 de junho de 2026

A luta de classes na Sapucaí, por Francisco Fernandes Ladeira

Cabe à arte traduzir de forma acessível ao público o (conturbado) contexto político nacional dos últimos anos.

Em 2018, Paraíso do Tuiuti relacionou escravidão ao desmonte das leis trabalhistas no desfile da Sapucaí.
Acadêmicos de Niterói em 2024 retratou sucessões presidenciais, Lula homenageado e críticas a Temer e Bolsonaro.
Globo foi evasiva na transmissão dos desfiles, omitindo críticas sociais e políticas presentes nas escolas de samba.

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A luta de classes na Sapucaí: Tuiuti, Acadêmicos de Niterói e o papel da arte

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por Francisco Fernandes Ladeira

Muitas vezes, os intelectuais progressistas – em sua maioria adeptos do academicismo – não conseguem explicar de forma acessível os recentes retrocessos do Estado brasileiro. A grande mídia, menos ainda, uma vez que ela própria faz parte desses retrocessos. Assim, por razões óbvias, acaba distorcendo a realidade.

Diante desse cenário, cabe à arte traduzir de forma acessível ao público o (conturbado) contexto político nacional dos últimos anos. Em 2018, a escola de samba Paraíso do Tuiuti, em seu desfile na Marquês de Sapucaí, relacionou diretamente a escravidão ao desmonte das leis trabalhistas durante o governo Temer. Além disso, denunciou a chamada “classe média coxinha” que foi às ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff, alegando combate à corrupção. Mas esse ódio ao partido da presidente tinha, na verdade, motivações mais profundas. Conviver com pobres em aeroportos, jovens periféricos em rolezinhos nos shoppings centers e pretos nas universidades públicas é demais para um segmento da sociedade que ainda não assimilou a Lei Áurea.

Neste ano, foi a vez de a Acadêmicos de Niterói, logo em sua comissão de frente, ilustrar as sucessões presidenciais desde 2010. Lula, o homenageado pela escola, com sua enorme popularidade no segundo mandato, conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff.

Seis anos depois, a primeira mulher presidenta da República sofreu um golpe de Estado. Na comissão, é mostrado o vice da época, Michel Temer, roubando a faixa presidencial. Na sequência, Lula é preso para não ser eleito presidente novamente em 2018. Como efeito colateral, um palhaço fascista que fazia arminha com a mão – conforme apresentado pela escola – chegou ao Planalto. Após o desastre desse desgoverno, Lula volta para seu terceiro mandato. Covardemente, o palhaço não reconhece a derrota e se recusa a entregar a faixa presidencial a Lula, que sobe a rampa do Planalto com o povo brasileiro. Ou seja, foi elucidada toda a interpretação dos fatos que, ironicamente, foi escondida pela Rede Globo, emissora que transmitiu o desfile.

A temática “soberania”, agenda positiva do governo Lula, foi a tônica da evolução da escola, com críticas a Trump, aos “Patriotas da América” e uma alusão ao viralatismo de Flávio Bolsonaro, que, diretamente dos Estados Unidos, conspirou contra o próprio país. Outros temas atuais também foram mencionados: a “taxação BBB” (bilionários, bancos e bets), a luta pelo fim da escala 6×1, a ascensão dos conservadores e a desigualdade social. Como não poderia deixar de ser, o verdadeiro motivo do ódio de classe a Lula foi abordado na letra do samba da Acadêmicos de Niterói: “tem filho de pobre virando doutor”.

Assim como ocorreu no desfile da Tuiuti, oito anos atrás, a transmissão da Rede Globo foi evasiva. Não houve a habitual explicação detalhada de todas as alas, tampouco a letra do samba permaneceu por muito tempo na tela. O que mais se viu foi a comunicação via rádio entre os responsáveis pelo desfile, com um desejo tácito, por parte de quem transmitia, de que “tudo desse errado”. Não foi o que aconteceu! Agora, resta torcer contra a Acadêmicos de Niterói na apuração de quarta-feira, na expectativa de que seja rebaixada.

Por outro lado, sobre a repercussão do desfile da Acadêmicos de Niterói, a Revista Veja, em um raro sincericídio jornalístico, noticiou que Lula foi “vaiado em camarote da Sapucaí” enquanto o setor popular gritava “Olé, olé, olá, Lula, Lula” quando a escola entrou na avenida. Um antigo pensador prussiano chamava isso de “luta de classes”.

***

Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)

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2 Comentários
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  1. alfredo machado

    17 de fevereiro de 2026 4:24 pm

    Há quantos anos um político da direitona não apresenta, e leva adiante um plano de governo para o país ? Quais são os novos políticos da direitona, com pretensão ao trono ? Quais foram as últimas significativas realizações da direitona no país ? Pelo que me lembro, as significativas foram as escandalosas estatizações, a LavaJato, o flerte permanente visando o próximo golpe de Estado, para isto mirando o Congresso Nacional. No meio do caminho, na falta de coisa melhor, trouxe um semianalfabeto incapaz de redigir dez linhas de um caderno sobre o país, incapaz de falar a um público sem que esteja cercado de teleprompters, um boçal medíocre comprovadamente ladrão que, em condições normais, deveria terminar a vida onde se encontra. Mais um governo de direita e este país sofrerá bastante.

  2. Carlos

    18 de fevereiro de 2026 8:02 am

    Políticos (podem ser definidos assim?) do PL (partido que precisa acabar pelo bem do país) agora irão representar contra a ala dos enlatados da escola, que apenas traduziu um consenso popular sobre grupos que não se dão conta das mentiras que os conduzem.
    Como tentam criminalizar a liberdade de expressão da escola não é mesmo?
    Mostram que a tal liberdade de expressão que tanto defendem só vale no c* dos outros.
    Bando de embusteiros.

  3. melrj

    18 de fevereiro de 2026 9:38 am

    “Acadêmicos de Niterói em 2024 retratou sucessões presidenciais, Lula homenageado e críticas a Temer e Bolsonaro.”
    É 2026 e não 2024

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