A luta de classes na Sapucaí: Tuiuti, Acadêmicos de Niterói e o papel da arte
por Francisco Fernandes Ladeira
Muitas vezes, os intelectuais progressistas – em sua maioria adeptos do academicismo – não conseguem explicar de forma acessível os recentes retrocessos do Estado brasileiro. A grande mídia, menos ainda, uma vez que ela própria faz parte desses retrocessos. Assim, por razões óbvias, acaba distorcendo a realidade.
Diante desse cenário, cabe à arte traduzir de forma acessível ao público o (conturbado) contexto político nacional dos últimos anos. Em 2018, a escola de samba Paraíso do Tuiuti, em seu desfile na Marquês de Sapucaí, relacionou diretamente a escravidão ao desmonte das leis trabalhistas durante o governo Temer. Além disso, denunciou a chamada “classe média coxinha” que foi às ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff, alegando combate à corrupção. Mas esse ódio ao partido da presidente tinha, na verdade, motivações mais profundas. Conviver com pobres em aeroportos, jovens periféricos em rolezinhos nos shoppings centers e pretos nas universidades públicas é demais para um segmento da sociedade que ainda não assimilou a Lei Áurea.
Neste ano, foi a vez de a Acadêmicos de Niterói, logo em sua comissão de frente, ilustrar as sucessões presidenciais desde 2010. Lula, o homenageado pela escola, com sua enorme popularidade no segundo mandato, conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff.
Seis anos depois, a primeira mulher presidenta da República sofreu um golpe de Estado. Na comissão, é mostrado o vice da época, Michel Temer, roubando a faixa presidencial. Na sequência, Lula é preso para não ser eleito presidente novamente em 2018. Como efeito colateral, um palhaço fascista que fazia arminha com a mão – conforme apresentado pela escola – chegou ao Planalto. Após o desastre desse desgoverno, Lula volta para seu terceiro mandato. Covardemente, o palhaço não reconhece a derrota e se recusa a entregar a faixa presidencial a Lula, que sobe a rampa do Planalto com o povo brasileiro. Ou seja, foi elucidada toda a interpretação dos fatos que, ironicamente, foi escondida pela Rede Globo, emissora que transmitiu o desfile.
A temática “soberania”, agenda positiva do governo Lula, foi a tônica da evolução da escola, com críticas a Trump, aos “Patriotas da América” e uma alusão ao viralatismo de Flávio Bolsonaro, que, diretamente dos Estados Unidos, conspirou contra o próprio país. Outros temas atuais também foram mencionados: a “taxação BBB” (bilionários, bancos e bets), a luta pelo fim da escala 6×1, a ascensão dos conservadores e a desigualdade social. Como não poderia deixar de ser, o verdadeiro motivo do ódio de classe a Lula foi abordado na letra do samba da Acadêmicos de Niterói: “tem filho de pobre virando doutor”.
Assim como ocorreu no desfile da Tuiuti, oito anos atrás, a transmissão da Rede Globo foi evasiva. Não houve a habitual explicação detalhada de todas as alas, tampouco a letra do samba permaneceu por muito tempo na tela. O que mais se viu foi a comunicação via rádio entre os responsáveis pelo desfile, com um desejo tácito, por parte de quem transmitia, de que “tudo desse errado”. Não foi o que aconteceu! Agora, resta torcer contra a Acadêmicos de Niterói na apuração de quarta-feira, na expectativa de que seja rebaixada.
Por outro lado, sobre a repercussão do desfile da Acadêmicos de Niterói, a Revista Veja, em um raro sincericídio jornalístico, noticiou que Lula foi “vaiado em camarote da Sapucaí” enquanto o setor popular gritava “Olé, olé, olá, Lula, Lula” quando a escola entrou na avenida. Um antigo pensador prussiano chamava isso de “luta de classes”.
***
Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)
alfredo machado
17 de fevereiro de 2026 4:24 pmHá quantos anos um político da direitona não apresenta, e leva adiante um plano de governo para o país ? Quais são os novos políticos da direitona, com pretensão ao trono ? Quais foram as últimas significativas realizações da direitona no país ? Pelo que me lembro, as significativas foram as escandalosas estatizações, a LavaJato, o flerte permanente visando o próximo golpe de Estado, para isto mirando o Congresso Nacional. No meio do caminho, na falta de coisa melhor, trouxe um semianalfabeto incapaz de redigir dez linhas de um caderno sobre o país, incapaz de falar a um público sem que esteja cercado de teleprompters, um boçal medíocre comprovadamente ladrão que, em condições normais, deveria terminar a vida onde se encontra. Mais um governo de direita e este país sofrerá bastante.
Carlos
18 de fevereiro de 2026 8:02 amPolíticos (podem ser definidos assim?) do PL (partido que precisa acabar pelo bem do país) agora irão representar contra a ala dos enlatados da escola, que apenas traduziu um consenso popular sobre grupos que não se dão conta das mentiras que os conduzem.
Como tentam criminalizar a liberdade de expressão da escola não é mesmo?
Mostram que a tal liberdade de expressão que tanto defendem só vale no c* dos outros.
Bando de embusteiros.
melrj
18 de fevereiro de 2026 9:38 am“Acadêmicos de Niterói em 2024 retratou sucessões presidenciais, Lula homenageado e críticas a Temer e Bolsonaro.”
É 2026 e não 2024