5 de junho de 2026

A vergonha, por Urariano Mota

Ficaram fora da lista de perseguição de Trump contra a justiça brasileira os ministros André Mendonça, Kassio Nunes e Luiz Fux. 
de Carlos Moura - STF

A vergonha *

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por Urariano Mota

Para situar o sinuoso agir do Ministro Luiz Fux, do STF, uma notícia de julho deste 2025:

“Trump suspendeu os vistos de oito dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal: Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Dias Toffoli, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. Inclusive o Procurador-Geral da República Paulo Gonet”.

Depois, em 30 de julho o déspota dos Estados Unidos utilizou a chamada lei Magnitsky: todos os eventuais bens de Alexandre de Moraes nos EUA estão bloqueados, assim como qualquer empresa que esteja ligada a ele. O bravo ministro também não pode realizar transações com cidadãos e empresas dos EUA — usando cartões de crédito de bandeira americana, por exemplo. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, mencionou diretamente uma suposta “caça às buxas” tendo o ex-presidente Jair Bolsonaro como alvo por parte do ministro.

Esses acontecimentos geraram no digno Ministro Flávio Dino esta declaração:

“Minha solidariedade pessoal ao ministro Alexandre de Moraes. Ele está apenas fazendo o seu trabalho, de modo honesto e dedicado, conforme a Constituição do Brasil. E as suas decisões são julgadas e confirmadas pelo colegiado competente (Plenário ou 1ª Turma do STF)”.

Ficaram fora da lista de perseguição de Trump contra a justiça brasileira os ministros André Mendonça, Kassio Nunes e Luiz Fux.  Tirando André Mendonça e Kassio Nunes, dois indicados por Bolsonaro, fiéis ao golpista,  surpreende a ausência de Luiz Fux da medida arbitrária. E pelo visto, ficou bem feliz pelo reconhecimento do governo dos Estados Unidos.   

Mas surpresa mesmo é o silêncio de Fux diante da sua desonrosa exclusão.

No seu voto em 21/07/2025:

“Verifico que a amplitude das medidas impostas (da tornozeleira a Bolsonaro0  restringe desproporcionalmente direitos fundamentais, como a liberdade de ir e vir e a liberdade de expressão e comunicação, sem que tenha havido a demonstração contemporânea, concreta e individualizada dos requisitos que legalmente autorizariam a imposição dessas cautelares.

Deveras, mesmo para a imposição de cautelares penais diversas da prisão, é indispensável a demonstração concreta da necessidade da medida para a aplicação da lei penal e sua consequente adequação aos fins pretendidos.

À luz desses requisitos legais, não se vislumbra nesse momento a necessidade, em concreto, das medidas cautelares impostas”

Mas antes, contra Lula, o tortuoso Ministro Fux votou contrário:

Em setembro de 2018, ele censurou um pedido de entrevista para Lula,  feito pela Folha de São Paulo. O nosso maior presidente estava preso. A autorização para a conversa com a colunista Mônica Bergamo já havia sido dada pelo então ministro Ricardo Lewandowski, mas foi revertida por Fux.

Na época, e prestem atenção às curvas da retórica, Fux disse que a liberdade de imprensa é algo que poderia ser relativizado e não pode ser alçado a um “patamar absoluto incompatível com a multiplicidade de vetores fundamentais estabelecidos na Constituição”. Que belo atestado moral.

Vergonha.

Diante disso, eu me lembrei da grandeza e dignidade de Tchekhov. Quando Máximo Gorki foi eleito membro honorário da Academia de Ciências, mas teve sua posse impedida pelo czar, Tchekhov protestou contra e se demitiu da Academia. Sim, é claro que Trump não é o czar, embora se porte como tal, e os ministros do STF perseguidos não são Górki, nem muito menos – longe de mim comparar estaturas literária e ética – Fux é Tchekhov. Mas o caso me vem pelo exemplo da dignidade histórica.

Para Fux, o que importa é receber o prêmio de Trump e assemelhados. Em lugar de se sentir desonrado pelo silêncio diante da agressão, o ministro parece estar feliz por poder visitar Disneylândia. Vergonha é artigo que não se vende na feira.

*Vermelho A vergonha – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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3 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    1 de agosto de 2025 8:26 pm

    Se tivessem amor ao Brasil e ao STF, teriam se solidarizado com os demais e desafiado sanções também pra eles. Traíras

  2. ERNESTO

    2 de agosto de 2025 11:31 am

    Quem assessorou Dilma nessa escolha? Afinal quem vê cara não vê coração, mas há casos…

  3. Gilmar Ferreira

    5 de agosto de 2025 12:04 pm

    Embora busque aparentar uma crítica institucional em defesa de princípios democráticos, este autor Urariano revela-se, em sua essência, um ataque ideológico enviesado, repleto de mensagens subliminares e parcialidades gritantes, demonstra não só um desejo de humilhar o ministro Luiz Fux, mas também de criar uma narrativa maniqueísta onde há mocinhos e vilões previamente definidos, conforme o alinhamento político do autor. O uso pejorativo do termo “golpista” para se referir ao ex-presidente Bolsonaro e a afirmação de que Fux se “sentiu lisonjeado” por não ter sido punido pelo governo dos Estados Unidos carecem de qualquer base factual e reforçam o caráter especulativo e tendencioso do artigo.

    Além disso, o autor critica o voto técnico de Fux com relação às medidas cautelares impostas a Bolsonaro, mas ignora completamente os fundamentos jurídicos por trás da decisão, reduzindo o debate à caricatura de uma suposta “submissão” ao imperialismo americano — mais uma vez, sem evidências. Quando trata da censura à entrevista de Lula em 2018, o texto omite o contexto jurídico da decisão, preferindo reforçar uma narrativa acusatória.

    A crítica não é à atuação de um ministro da Suprema Corte com base em critérios legais, mas à sua postura política presumida, criando uma atmosfera de desqualificação moral com um verniz literário. O silêncio de Fux é interpretado como covardia ou conivência, quando poderia muito bem ser fruto de prudência institucional — algo que parece fora do alcance da visão limitada pelo partidarismo, assim, transforma uma análise jurídica e política complexa em panfleto ideológico. E, ao fazê-lo, compromete qualquer pretensão de objetividade. A imparcialidade, fundamental para qualquer crítica séria ao Poder Judiciário, passa longe. O autor não quer justiça: quer revanche política travestida de indignação moral.

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