do Observatório de Geopolítica
A xenofobia não usa black-tie
por Felipe Bueno
“Se eu fosse o presidente, todo mundo teria emprego”, afirmava ele com inabalável segurança, entre uma chuva e outra numa manhã fria no Centro de São Paulo. Descansando em um banco no parque, eu e uma moça com um cachorro deixamos por alguns minutos nossos mundos particulares para dar atenção ao morador de rua que havia nos abordado com educação e argumentos articulados.
Sereno, contava que era bom em serviços gerais, tinha muitos anos de trabalho com carteira assinada em várias empresas, mas havia tempo não conseguia nenhuma ocupação remunerada. “Almejava” – e de fato usou essa palavra – comprar um refrigerante para dar de presente de aniversário ao filho. Suas posses eram, pelo menos naquele momento, inversamente proporcionais à riqueza de seu vocabulário.
Declarou-se contrário ao antecessor do atual presidente da República e ao Palmeiras, tendo o cuidado de antes perguntar se havia alviverdes entre seus ouvintes. Não explicou os motivos – a cada um caberá suas suposições. Depois, passou a discorrer sobre a atuação do atual governo na economia. Mostrou-se, com alguns exemplos, um defensor da presença do Estado como investidor, gerando empregos e fornecendo crédito mais barato que os bancos.
Feita essa última reflexão sobre o papel do Leviatã, virou a metralhadora para outro alvo. Seu discurso ficou ainda mais enfático, bem menos ponderado: bradou que faltavam empregos porque bolivianos, peruanos e nigerianos estavam “por aí”, entrando no país com a maior facilidade, e “não deveria ser assim”. Depois generalizou a xenofobia, dizendo que o Brasil tinha que ser só dos brasileiros.
E desafiou: “veja se nos Estados Unidos é assim! Na Europa também!”
Não cabia, naquele momento, ponderar que as raízes de sua árvore genealógica estavam do outro lado do Oceano Atlântico, assim como as de qualquer ser humano das três Américas. Lamentei em pensamento o fato de que o preconceito e a visão do estrangeiro como inimigo – especialmente o estrangeiro mais necessitado – estejam consolidados em alguém que, tanto quanto esse outro, precisa de apoio, seja do poder público, seja da sociedade, seja do companheiro ou companheira de sofrimento que mora na calçada adiante.
Claro, isso quando e onde as calçadas ainda são permitidas aos moradores de rua.
Por um segundo me perguntei se deveria ter insistido. Mas, como na vida sempre acontece, a trégua havia passado. A chuva estava de volta.
Quanto ao cachorro, que pacientemente também ouvia a conversa, por um momento me pareceu também ter se incomodado. Afinal, seus ancestrais vêm da China.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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José de Almeida Bispo
24 de abril de 2023 2:19 pmNão é possível! Esse tal DNA é invenção do diabo; coisa de comunista pra confundir a sociedade livre e trabalhadora do Ocidente. Onde já se viu? Sueco, Suíço… descendente de africanos, né?
Ainda bem que a Terra é plana.