Bandeira branca, por Jorge Alexandre Neves

Uma mensagem de paz e conciliação, portanto, ajuda a enfraquecer o bolsonarismo, a desmontar o ambiente necessário para sua reprodução e sobrevivência.

Bandeira branca

por Jorge Alexandre Neves

Símbolos importam! A sugestão – e a rápida aceitação por parte do ex-presidente Lula e do PT – da senadora Simone Tebet, para que se passe a usar roupas brancas na campanha e nas manifestações de rua, me parece um acerto. Vestimentas brancas, há muito tempo, simbolizam o desejo de paz.

No podcast “O Assunto” de hoje (13/10/22), o cientista político Fernando Abrucio chama a atenção para o fato de que, caso eleito, o ex-presidente Lula precisará governar com uma frente ampla, de fato. A frente mais ampla com a qual já precisou governar. Para muitos militantes de esquerda, isso poderia parecer ruim. Todavia, eu diria que, neste momento pelo qual o Brasil passa, isso será inequivocamente bom.

O Brasil precisa de paz! O resgate de um ambiente de concertação, de retorno ao pacto constituído e representado pela CF-88. Ninguém melhor do que o ex-presidente Lula para construir as condições necessárias para essa retomada do processo civilizatório, no Brasil.

O bolsonarismo – como de resto toda a nova direita neofascista, em nível mundial – se alimenta do ódio e da violência. Uma mensagem de paz e conciliação, portanto, ajuda a enfraquecer o bolsonarismo, a desmontar o ambiente necessário para sua reprodução e sobrevivência. Um novo governo Lula precisará pacificar e unir o Brasil sob o pacto estabelecido com a CF-88.

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Dito isso, acho importante ressaltar que a esquerda brasileira (da qual sinto-me integrante) precisa compreender que o momento é de reconstrução de uma concertação que já foi pactuada com o processo de redemocratização. Assim sendo, não é hora de ideias imprudentes. Um exemplo é a proposta de uma nova Constituinte. Não, por favor! Não bastassem as razões abundantes para não irmos nessa direção (que, por sinal, é o desejo justamente do bolsonarismo), o exemplo recente do Chile é um extraordinário alerta a nos mostrar que seria um erro gigantesco.

A CF-88 não foi um obstáculo, muito pelo contrário, para que conseguíssemos avanços extraordinários, a partir do primeiro governo Lula, em 2003. Contudo, é importante termos em mente que, 20 anos depois, vivemos um momento muito mais difícil. Com o golpe estamental de 2016, retomamos, com ferocidade, o que tenho chamado de pós-industrialismo periférico (https://jornalggn.com.br/artigos/gotejamento-versus-pos-industrialismo-periferico/). A destruição do mercado de trabalho foi brutal. Boa parte da classe trabalhadora, hoje, já não é assalariada, mas formada por autônomos que, em grande proporção, se enxergam como empreendedores.

Fernando Abrucio, no mesmo podcast citado acima, colocou uma coisa que tem me “pertubado” há algum tempo. Empreendedores de baixa renda veem um possível futuro governo do PT como uma ameaça. Isso é bastante surpreendente, pois foram os governos petistas que tiveram mais iniciativas para criar um ambiente institucional e normativo favorável aos microempreendedores (a criação do MEI, por exemplo), bem como disponibilizaram crédito subsidiado, através de bancos públicos federais (em particular, na região Nordeste, com o CrediAmigo, do BNB).

Por sua vez, vivemos um cenário econômico, no Brasil, no qual não será fácil criar empregos formais em grande quantidade ou elevar os salários de forma significativa, de imediato. A marca do mercado de trabalho brasileiro, hoje, é a “queda do desemprego” a partir do aumento da informalidade e, justamente, da posição ocupacional de “autônomo”. A maior evidência disso é que o desemprego tem caído, mas o rendimento do trabalho não tem subido de forma consistente. Uma atuação rápida do Estado pode transformar esse limão em uma limonada. A baixa remuneração dessas iniciativas de “auto-ocupação” vem da baixa produtividade derivada de uma situação laboral totalmente precária, que pode ser fortemente remediada com a disponibilização de recursos de valor bastante baixo, além de esforços de facilitação às atividades típicas do empreendedorismo popular.

Um possível novo governo Lula precisará, pois, agir rápido para que o Brasil retome o caminho civilizatório. Algumas das políticas empreendidas anteriormente talvez não tenham o mesmo impacto de antes (como a elevação do valor real do salário mínimo, que continuará sendo fundamental, mas que terá menos impacto devido à destruição do mercado de trabalho formal ocorrida nos últimos anos). Por outro lado, políticas de microcrédito e de facilitação das atividade econômicas dos microempreendedores terão impactos ainda maiores do que tiveram nos governos anteriores de Lula e Dilma, principalmente se o desenho institucional exitoso do CrediAmigo for adotado em todo o território nacional. A conjunção de políticas públicas bem feitas permitirá um novo ciclo virtuoso de desenvolvimento socioeconômico. Iniciativas mais arrojadas, por sua vez, precisarão ficar para um momento posterior (o que não implica dizer que coisas que não foram ralizadas antes não possam ser feitas de imediato, como uma reforma tributária progressiva, que, muito provavelmente, será necessária para possibilitar as demais políticas públicas).

Minha conclamação final neste texto é para que, no dia 30 de outubro, votemos vestidos de branco. Vamos levantar uma bandeira branca, pelo bem do Brasil.

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Jorge Alexandre Neves

1 Comentário

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  1. Sensacional, precisamos mudar o quadro de violência gerada pelo ódio.E símbolo Dois feito com os dedos ,é de Paz e Amor.Lula já!

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