Biotecnologia na Amazônia: sem articulação, o potencial não vira poder
por Augusto Cesar Barreto Rocha
Não existe tecnologia sem ciência, sem prática e sem capital. A potência da biotecnologia na Amazônia só surgirá destes três elementos em grande quantidade. Fora disso, é pura distração. E tudo que não nos falta na Amazônia é distração. São cientistas que se distraem com a imensidão da Amazônia e de sua biodiversidade e pulam de conhecimento em conhecimento. São capitalistas que veem tantas alternativas e não investem em nada. São habitantes que sorvem da sua exuberância e não constroem riquezas econômicas com bases sólidas, ficando deitados em berço esplêndido, como diz o hino.
A superação desta ineficácia poderá ser feita com uma mudança de postura das três partes. Uma só não basta, pois não há tecnologia sem o tripé: conhecimento científico, conhecimento prático e capital. Tudo de muito. Nesta semana terei meu recorde de alunos de mestrado e doutorado em uma única turma: 230. Espalhados pela Amazônia Legal: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Roraima, Rondônia e Tocantins. É a melhor semana do ano, onde mais aprendo sobre Amazônia. Mais do que viver aqui toda uma vida, ouvir a inquietação de mentes afiadas é, com o perdão da palavra, uma maravilha.
Todo ano a turma aumenta e, neste ano, vou ter quase o dobro de alunos em relação ao ano passado. Não sei se é pelos créditos fáceis ou seria para o propósito da disciplina: transformar pesquisa em inovações tecnológicas, no âmbito da biotecnologia. Além de transtornar alguns com os conceitos mais básicos e mais avançados do assunto, em pouquíssimas horas, o que tenho visto ao longo dos anos é que não faltam pessoas habilitadas para lidar com a Amazônia. Faltam recursos. É gritante sua escassez para a transformação dos potenciais em prosperidade. Para completar este quadro, meu convidado deste ano será o Presidente do CORECON/SP, Dr. Haroldo da Silva, que tem refletido tão bem sobre a Sociologia da produção nacional, com seus capitais simbólicos e financeiros.
Também é gritante o descaso dos grandes centros do Brasil em relação à pesquisa nas periferias nacionais. As administrações centrais não conseguem compreender as dimensões da Amazônia e suas particularidades. Falta o básico. E, quando falta o básico, aprende-se rápido a cooperação. Para quem tem o básico, nos grandes centros, é difícil compreender como cooperar com quem está longe. É impossível partilhar a decisão e com isso os recursos seguem a ser direcionados para as maiores instituições e grupos de pesquisa. Assim, permanece a desigualdade, ou, como se diz no ambiente acadêmico: a assimetria.
Não há capital financeiro abundante na região. Os poucos capitalistas optam, em geral, pelos juros e ganhos mais fáceis e só uma parcela pequena é alocada no risco regional. Em uma síntese apertada: os capitalistas nacionais não dialogam com os cientistas do Norte; os cientistas Sudestinos, no máximo, fazem missões à Amazônia e pouco cooperam com os pares do Norte e, em geral, nem a autoria ofertam para os colegas Amazônicos, quando publicam seus artigos com base em resultados de pesquisas realizadas com interações nestas partes do país.
Como superar isto? Com o empoderamento e o diálogo republicano. Quando os cientistas da Amazônia passarem a não aceitar e a mudar as condições trazidas pelas lideranças nacionais. Quando os capitalistas brasileiros quiserem ganhar dinheiro com o Brasil, ao invés de sugar como imperialistas. Vejo que a cada ano estamos mais próximos disto. Todo mês de junho é animador. Todavia, como é lento. Como temos tanto retrocesso em meio a cada avanço. Basta ler as notícias do que se discute para a corrida presidencial.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.
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