
O fim do socialismo na Bolívia: do “milagre” de Evo Morales ao desastre total
por Khalil de Aguiar Lima
Após 20 anos no poder, o MAS (Movimento ao Socialismo) da Bolívia perdeu força nas eleições presidenciais de 2025, ficando fora do segundo turno, enquanto a oposição de centro-direita avança e o país enfrenta polarização política e econômica marcada pelo legado de Evo Morales.
Após duas décadas de hegemonia, o MAS, principal partido da esquerda boliviana, sofreu sua derrota mais significativa desde a chegada de Morales ao poder. Pela primeira vez desde 2006, a legenda não disputará o segundo turno presidencial, que será decidido entre candidatos de centro-direita. O episódio simboliza um esgotamento político e social que vinha se acumulando ao longo dos últimos anos.
A ascensão de Evo Morales, em 2006, foi histórica: pela primeira vez, um indígena chegou ao cargo máximo do país pelo voto popular. Morales contou com o apoio dos camponeses indígenas do pobre Altiplano Andino, que falam idiomas autóctones como quéchua e aimará. Seus adversários, por outro lado, eram políticos das províncias das planícies, regiões fronteiriças com Brasil, Paraguai e Argentina, historicamente concentradoras do poder econômico e com forte presença branca. Morales rompeu com a velha política boliviana, marcada por golpes, instabilidade e governos frágeis, palco de mais de 70 golpes de estado em 100 anos a democracia boliviana ainda caminha à passos curtos desde a redemocratização.
Com o tempo, a polarização política se intensificou. Na esquerda, apoiadores do MAS, incluindo a maioria da população indígena, respaldaram as políticas sociais de Morales, que ampliaram o acesso à educação, saúde e programas de transferência de renda. Já a direita liberal acusava o ex-presidente de autoritarismo, má gestão econômica e aparelhamento das instituições públicas. A prisão de líderes opositores, como Luis Fernando Camacho (ex governador de Santa Cruz) , alimentaram as acusações de perseguição política e deterioração da democracia.
No campo econômico, a Bolívia experimentou crescimento acelerado entre 2006 e 2014, impulsionado pelo boom do gás natural. A receita extraordinária das exportações permitiu financiar políticas sociais, reduzir a pobreza e ampliar a presença do Estado na economia. No entanto, críticos alertaram que a dependência dessa commodity fragilizava o país e que Morales apenas surfava uma onda favorável herdada de políticas de liberalização anteriores. Com a queda dos preços internacionais, a falta de diversificação econômica ficou evidente.
As nacionalizações promovidas pelo governo também dividiram opiniões. Empresas estatais foram criadas ou reestruturadas, mas muitas não alcançaram resultados sustentáveis. Enquanto os defensores destacam o fortalecimento da soberania nacional, opositores argumentam que o modelo reforçou a dependência do Estado, afastou investidores e limitou a inovação.
No debate político contemporâneo, três figuras se destacam. Evo Morales, líder histórico do MAS, ainda exerce forte influência, mas é acusado de centralizar o poder e contribuir para o desgaste do modelo socialista. Rodrigo Paz, visto por críticos como um “socialista burguês”, é acusado de se beneficiar da ambiguidade política, oscilando entre aproximações e distanciamentos do MAS. Já Tuto Quiroga, opositor liberal, tornou-se uma das principais vozes contra Morales, defendendo uma agenda de abertura econômica e responsabilização judicial do ex-presidente.
A renúncia de Morales, em 10 de novembro de 2019, após semanas de protestos e denúncias de fraude eleitoral, foi um divisor de águas. Pressionado pelas Forças Armadas e pela Polícia, o então presidente denunciou um “golpe de Estado”. Seus opositores, por outro lado, sustentaram que ele havia perdido legitimidade devido às irregularidades. O episódio levou à posse da senadora Jeanine Áñez como presidente interina, aprofundando a polarização e dividindo a comunidade internacional. Enquanto países como México e Argentina apoiaram Morales, os Estados Unidos e parte da União Europeia reconheceram Áñez.
O MAS retornou ao governo em 2020 com a eleição de Luis Arce, ex-ministro da Economia de Morales. No entanto, a vitória não consolidou a unidade interna. Conflitos entre Arce e Morales se intensificaram, revelando disputas estratégicas e pessoais. Em 2025, a derrota eleitoral expôs um partido enfraquecido e incapaz de renovar lideranças.
Para analistas, o debate central permanece: o crescimento econômico inicial do ciclo Morales foi de fato fruto das políticas socialistas ou apenas consequência da bonança do gás natural? A falta de industrialização e inovação parece dar razão à tese de que o modelo tinha bases frágeis.
A oposição, por sua vez, enfrenta dilemas próprios. Embora líderes como Tuto Quiroga tentam unificar forças, a tradição de rivalidades regionais e ideológicas dificulta a formação de um bloco sólido. O risco é que a alternância de poder não resulte em estabilidade, mas sim em mais fragmentação.
Khalil de Aguiar Lima, bacharel em Relações Internacionais pela UFMG e pós-graduação em economia.
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