Bolsonaro e sua imagem Gray, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Bolsonaro não se importa com a natureza. Ele também não se importa com a imagem do Brasil. O presidente do Brasil é tão egocêntrico que ele transformou a ONU num palanque.

Bolsonaro e sua imagem Gray

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Na estrutura profunda do discurso que Jair Bolsonaro fez na ONU merecem destaque:

1- o desespero político;

Bolsonaro culpou supostos adversários dele dentro e fora do Brasil, demonstrando que a fragilidade da posição que ocupa. Quem se sente seguro não tem medo de admitir suas próprias falhas admitindo que tentará supera-las.

2- a crença de que um presidente tem poder para criar a realidade;

A devastação no Pantanal, Cerrado, Floresta Amazônica e Mata Atlântica são tão reais quanto o fato do governo sabotar qualquer iniciativa para preservar a natureza. O discurso de Bolsonaro prova apenas que ele acredita que poderá seguir em frente fazendo uma coisa (autorizar a plantação de cana de açúcar na Amazônia, legitimando a devastação ambiental em benefício de uma monocultura) enquanto diz fazer outra (proteger o meio ambiente).

3- o desprezo pela comunidade internacional;

Países que assumiram os mesmos compromissos ecológicos que o Brasil e se esforçam para cumpri-los tem todas as razões para se sentir menosprezados por um governo que trabalha para destruir a natureza. Mentir descaradamente nunca foi a melhor maneira de conquistar a credibilidade e a simpatia no cenário internacional.

4- uma preocupação excessiva consigo mesmo.

Ao ver o discurso de Bolsonaro lembrei de uma cena do filme alemão Stauffemberg (2004). Completamente bêbado, o general da inteligência Fritz E. Fellgiebel cai num banheiro e pragueja porque Hitler não se importa com as baixas em Stalingrado.

A frase que ele diz é memorável:

“- Ele só se importa consigo aquele idiota inescrupuloso.”

Bolsonaro não se importa com a natureza. Ele também não se importa com a imagem do Brasil. O presidente do Brasil é tão egocêntrico que ele transformou a ONU num palanque. Ele não discursou para o mundo e sim para o gueto de ruralistas, criminosos ambientais, milicianos e fanáticos religiosos que aplaudem qualquer coisa que ele diz.

O estrago está feito. Ele foi consolidado pelo discurso na ONU. O Brasil ficará mais e mais isolado. Todos os ganhos que os grileiros, ruralistas, madeireiros, mineradores supostamente obtiveram destruindo nossas florestas será incinerado em virtude da impossibilidade de aumentar as exportações.

Quando as reservas internacionais deixadas por Lula e Dilma Rousseff terminarem, o Brasil ficará com o pires na mão totalmente a mercê da mesma comunidade internacional que Bolsonaro desdenhou, ofendeu e desprezou ao discursar na ONU. O resultado será uma verdadeira Síndrome da China.

Após observar a reação negativa ao discurso de seu Führer bananeiro, o general Heleno vociferou que o Brasil deve retaliar contra qualquer país que impor restrições às exportações brasileiras por causa da devastação ambiental. Quem está numa posição fragilizada deve cortejar os parceiros relutantes e acalmar adversários em potencial.

Apesar de não ter qualquer vocação para a diplomacia (a chacina inútil que ele comandou no Haiti é uma prova eloquente desse fato), o general Heleno decidiu usurpar a competência do Itamaraty. O resultado das ameaças que ele fez é previsível: o Brasil vai derreter até atingir a China. Todavia, os chineses somente salvarão nosso país se Bolsonaro se indispor com os EUA privilegiando a tecnologia 5G da Huawei, o que é pouco provável.

Bolsonaro não precisa de inimigos. Ele precisa apenas olhar no espelho.

Ao concluir seu discurso na ONU, o presidente do Brasil reforçou sua imagem de personagem mundialmente repulsivo e repugnante. Nesse sentido, a tragédia pessoal de Bolsonaro se distancia da de Hitler (modelo que o capitão tenta emular de maneira disfarçada) e se aproxima da do personagem de Oscar Wilde.

Como Dorian Gray, Bolsonaro está fadado a destruir tudo e todos à sua volta até que a imagem que ele criou o destrua. O preço que o Brasil pagará pela encenação presidencial dos desvarios literários do famoso escritor inglês homossexual, entretanto, será real.

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