17 de junho de 2026

Sobre o tribunal da história e o anacronismo metodológico, por Edgar Silva dos Anjos

Uma contribuição ao mesmo problema que Nassif identifica: como a esquerda (e a história) devem julgar seus próprios líderes.
Lula em foto de Ricardo Stuckert / PR

Luís Nassif aponta ausência de projeto mobilizador em 2026, mas ignora diferenças históricas nos contextos de Lula.
Lula 2003-2010 operou em cenário estável; 2023-2026 enfrenta economia e instituições fragilizadas e boicote político.
História amplia legados modestos; Lula 3 pode ter escolhido estabilidade para permitir futuras transformações políticas.

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Sobre o tribunal da história e o anacronismo metodológico

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por Edgar Silva dos Anjos

A coluna de Luís Nassif “Lula 4.0 e o tribunal da história” identifica corretamente uma lacuna real, um vazio que as pesquisas já capturam, um desejo não satisfeito que atravessa o eleitorado. Há de fato, neste momento de 2026, uma falta de projeto mobilizador que transcenda a gestão competente do presente. Nisso Nassif tem razão, e sua observação merece ser levada a sério não como opinião, mas como leitura do presente que a política precisará enfrentar.

Mas há uma questão metodológica anterior, que está subdiagnosticada em sua análise e que merecia ser nomeada explicitamente: quando a história julga um líder político, ela o compara a um ideal imaginado ou às margens reais de manobra que ele tinha?

Trata-se de um problema fundamental de historiografia, não meramente de gosto crítico.

O anacronismo na comparação

Nassif constrói um contrafactual: aquilo que Lula “poderia ter sido” diante do que efetivamente foi. Isso é legítimo como exercício reflexivo. O problema emerge quando esse contrafactual opera com um medidor único, como se os graus de liberdade disponíveis em 2003-2010 fossem idênticos aos de 2023-2026, ou como se ambos operassem sob as mesmas constrições institucionais e econômicas.

Eles não operaram. Os cenários são incomensuráveis.

Quando você compara Lula em seu primeiro mandato, herdando uma economia reconstruída pós-1999, com câmbio estabilizado mas estruturalmente vulnerável, com mercado financeiro temeroso mas operacional, com um Estado burocrático intacto, com esse Lula de 2023 que retorna depois de Temer (destruição sistemática das instituições) e Bolsonaro (caos ativo mais boicote deliberado), você está comparando posições que não são simétricas. A margem para escolhas difíceis é diferente. Os custos políticos de cada movimento são diferentes. O que era factível em um contexto não é necessariamente factível em outro.

Nassif escreve que Lula em 2003-2010 não tocou “nas vulnerabilidades estruturais que Fernando Henrique Cardoso instalou no metabolismo da economia brasileira”, mantendo “metas de inflação”, “âncora cambial” e deixando que “o processo de concentração de renda seguisse seu curso”. É precisamente essa afirmação que requer historicização rigorosa.

Em 2003, as metas de inflação não eram grilhões impostos da qual Lula se recusava a se livrar. Eram conquistas do período 1999-2002, eram o consenso técnico pós-real, eram o que permitiu qualquer previsibilidade econômica. Desmantelá-las significaria ruptura institucional de tal magnitude que o governo não teria sobrevivido aos seis meses. Não porque Lula fosse fraco, mas porque a moldura de possibilidades era essa.

É justamente aqui que Nassif parece não ver: o “colchão de commodities que suavizou as escolhas difíceis”, aquilo que Nassif trata como perda de oportunidade, era também a condição material sem a qual nenhuma escolha redistributiva era possível. Não é desculpa. É contexto.

Os cenários que Nassif não periodiza

Se você quer julgar adequadamente, é preciso comparar com as alternativas que o próprio tempo histórico ofereceu.

2003-2010 foi Lula em ciclo de expansão. 2016-2022 foi a prova do que acontecia sem Lula: Temer implementando destruição institucional sistemática, Bolsonaro implementando caos ativo. Que diz isso sobre Lula 1 e 2? Que mesmo operando dentro de constrições estruturais que herdou, ele instalou proteções sociais, expandiu universidades federais, criou instituições que resistiram. Quando você compara não com um ideal fantasmagórico, mas com o que objetivamente aconteceu quando ele saiu, a perspectiva muda.

2023-2026 é outro cenário ainda. Lula retorna não a uma economia reconstruída, mas a uma economia rachada. Não a instituições intactas, mas a um Estado que foi saqueado, que teve suas estruturas de comando desmanteladas, que foi boicotado ativamente. O mercado financeiro não está contente, está atemorizado. A dinâmica política não é de expansão, é de contenção de danos. Você pode criticar Lula 3 por não ter ousado mais, por ter se casado com o mercado financeiro, por ter abandonado ambições transformadoras. Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas é uma crítica que precisa reconhecer: as margens eram outras.

Como a história realmente amplia

Aqui está o que Nassif talvez não considerou suficientemente: a historiografia subsequente frequentemente não encolhe o que parecia modesto, mas o amplia, porque vê com distância o que as análises inseridas no contexto não conseguem ver.

Franklin Roosevelt pareceu tímido aos intelectuais de esquerda dos anos 1930. “Por que não nacionalizou a banca? Por que manteve propriedade privada? Por que o CCC é um paliativo?” A história de setenta anos depois viu outra coisa: aquele “paliativo” plantou três bilhões de árvores, treinou três milhões de homens, instalou infraestrutura estatal que permitiu o que viria depois. O New Deal não foi revolução, mas foi redesenho da relação entre Estado e economia, factível apenas naquele contexto específico.

Getúlio em 1930-1945 recebeu crítica simétrica. Corporativismo, populismo, sem revolução. Historiadores posteriores viram que aquelas leis trabalhistas, aqueles direitos modestos, instalaram base institucional para que a industrialização brasileira de 1950-1980 pudesse acontecer, para que Lula existisse como força política massiva, para que a história subsequente fosse possível.

Trata-se de um padrão recorrente: o julgamento contemporâneo e o julgamento histórico não trabalham com o mesmo material.

O que a história pode fazer com Lula 3

A pergunta real não é: por que Lula não foi radical? É: dada a margem que tinha em 2023-2026, cenário específico e irrepetível, o que ele instalou que permite que a próxima geração política ouse mais?

A reforma tributária não é monumental agora, não resolve nada isoladamente. Mas pode ser o ponto de apoio sobre o qual transformações posteriores se constroem. O Brasil 2050, o Nova Indústria Brasil, a transição energética (mesmo confinada, mesmo sem protagonismo visível), deixam rastro institucional que, em contexto posterior, pode ser acionado.

Talvez a história veja que Lula em 2023-2026 escolheu estabilidade quando a alternativa era caos. Tal escolha é menos heroica que transformação radical. Mas não é desprezível. Em cenários de ruptura e ameaça, estabilidade é frequentemente a escolha mais radical possível, porque permite que o próximo ciclo político respire.

Nassif está correto em seu diagnóstico do presente: falta um sonho. Mas para historicizar adequadamente esse presente, para julgá-lo com a frieza que a história exige, é preciso ser mais preciso metodologicamente. Precisamos reconhecer que os graus de liberdade reais são diferentes em cada contexto, que comparar Lula 1-2 com Lula 3 usando o mesmo medidor é anacronismo, que o ideal contra o qual medimos precisa levar em conta o factível naquele momento específico.

Não é que Nassif esteja errado. É que sua questão merecia maior complexidade historiográfica. É justamente daqui que emerge o desafio para a esquerda: aprender a julgar seus próprios líderes com rigor metodológico, reconhecendo limites reais sem abandonar exigência de transformação. Essa dupla lealdade, a rigor crítico e à possibilidade, é mais difícil do que simples condenação.

É também mais necessária.

Edgar Silva dos Anjos é professor de filosofia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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