A quem, de fato, responde o Banco Central?
por Francisco Celso Calmon
O movimento em torno de Gabriel Galípolo não é apenas técnico, é político. Ele revela a consolidação de uma espécie de “quarto poder” da República: um Banco Central cada vez mais autônomo, blindado do controle democrático e operando como um poder paralelo.
Essa direção não surge do nada. Há uma clara similaridade de pensamento entre Galípolo e Roberto Campos Neto. Ambos já se posicionaram contra o pleno emprego sob o argumento de que ele pressionaria a inflação, ou seja, que trabalhadores com mais poder de decisão seriam um problema. No fundo, trata-se de uma escolha política: conter salários e preservar a lógica do mercado como prioridade.
A PEC 65/2023 também não é um detalhe isolado, ela aprofunda a independência do Banco Central ao dificultar ainda mais a influência de governos eleitos sobre suas decisões, especialmente na definição da taxa de juros. E aqui entra um ponto central: a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia, o principal instrumento do Banco Central.
A taxa Selic funciona como referência para todas as outras taxas do país: quando a Selic sobe, o crédito fica mais caro, o consumo tende a cair e o investimento diminui; quando cai, o crédito se torna mais acessível, incentivando a atividade econômica. Ou seja, não se trata de um tema técnico distante, é uma decisão que impacta diretamente o emprego, o crescimento e o custo de vida.
Ao tornar o Banco Central mais autônomo sem ampliar os mecanismos de controle democrático, a PEC 65 desloca esse poder para uma esfera cada vez menos acessível à sociedade.
Ela é fruto dessa mesma visão, construída ao longo das gestões de Campos Neto e seu antecessor, e agora aprofundada. Ao ampliar a autonomia do Banco Central, institucionaliza-se um modelo onde decisões cruciais, como a taxa de juros, escapam da mediação democrática.
Mesmo com a recente redução da taxa Selic, o país segue entre aqueles com os maiores juros reais do mundo. Isso significa, na prática, que o dinheiro aqui é caro, muito caro. E quando o dinheiro é caro, investir se torna mais difícil, produzir se torna mais arriscado e o crescimento perde fôlego.
Ao mesmo tempo, juros elevados beneficiam diretamente quem vive de renda financeira. Não se trata apenas de controlar a inflação, trata-se também de como a riqueza é distribuída na economia. Mais concentração, menos distribuição.
É nesse ponto que a ideia de ampliar a autonomia do Banco Central precisa ser enfrentada com clareza.
Autonomia em relação a quem ou a quê?
Se for autonomia em relação a pressões políticas de curto prazo, há um argumento possível. Mas, no modelo que vem sendo desenhado, o que se observa é uma autonomia que afasta o Banco Central da soberania popular, e força os laços com o mercado.
E é nesse ponto que a engrenagem política se revela. Essas nomeações, no Banco Central, no Ministério da Fazenda e em espaços estratégicos da política econômica, têm em Fernando Haddad uma referência central. O que está em jogo não é apenas uma escolha técnica, mas a formação de um projeto de poder que combina discurso progressista com conciliação estrutural com o mercado.
A preocupação não é trivial. Haddad se consolida como um quadro político de projeção nacional, com horizonte de governo estadual e até de presidência. Mas que projeto é esse que se desenha? Se a conciliação com o mercado é inevitável, que ela ocorra à luz da democracia e não por meio do fortalecimento de instituições blindadas, que retiram da sociedade o direito de decidir os rumos da própria economia através de seus representantes.
Essa dinâmica, no entanto, não é nova. Desde seus primeiros mandatos, Lula optou por indicar para o Banco Central nomes profundamente vinculados ao sistema financeiro.
Em 2003, a escolha de Henrique Meirelles, então presidente mundial do BankBoston, já sinalizava uma estratégia de conciliação (ou subordinação?) com o mercado. Sua longa permanência no cargo consolidou um modelo de autonomia de fato da autoridade monetária. Na sequência, Alexandre Tombini, embora de perfil mais técnico, deu continuidade à mesma lógica.
Já no atual governo, a ascensão de Gabriel Galípolo com trajetória no mercado financeiro, e passagem pelo setor privado, reafirma esse padrão.
Ou seja, mais do que decisões isoladas, trata-se de uma orientação persistente: a condução da política monetária sob forte influência de quadros alinhados ao sistema financeiro, o que tensiona os limites entre autonomia técnica e compromisso democrático.
No fim, a pergunta permanece: a quem, de fato, responde o Banco Central?
Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.
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Rui Ribeiro
17 de abril de 2026 10:03 am“Eu sou contra o Trump mas também sou contra a independência do Banco Central. Porque a política monetária não pode ser uma política de governo, mas dos bancos? O Bano Central deve existir para beneficiar toda a nação e não apenas a meia dúzia de magnatas”.
https://jornalggn.com.br/economia/trump-powell-disputa-fed/
Rui Ribeiro
17 de abril de 2026 10:05 amFrancisco Calmon, você poderia disponibilizar a fonte segundo a qual Campos Netto e Galípolo se posicionaram contra o pleno emprego?
Canal Pororoca
24 de abril de 2026 8:54 amDe acordo com entrevistas, abaixo é possível analisar a posição de ambos contra o pleno emprego.
“Campos Neto diz que emprego pleno no Brasil é ‘grande surpresa” e alerta sobre pressão inflacionária” e “Galípolo diz que país está perto do pleno emprego e defende postura anticíclica do BC”.
Abaixo as fontes utilizadas:
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/campos-neto-diz-que-emprego-pleno-no-brasil-e-grande-surpresa-e-alerta-sobre-pressao-inflacionaria/
https://www.infomoney.com.br/politica/galipolo-diz-que-pais-esta-perto-do-pleno-emprego-e-defende-postura-anticiclica-do-bc/
Leticia Mendonca
24 de abril de 2026 10:53 amAbaixo as duas citações:
“Galípolo diz que país está perto do pleno emprego e defende postura anticíclica do BC.”
“Campos Neto diz que emprego pleno no Brasil é ‘grande surpresa’ e alerta sobre pressão inflacionária.”
Leticia Mendonca
24 de abril de 2026 10:54 amAbaixo ambas as citações:
“Galípolo diz que país está perto do pleno emprego e defende postura anticíclica do BC.”
“Campos Neto diz que emprego pleno no Brasil é ‘grande surpresa’ e alerta sobre pressão inflacionária.”
Leticia Mendonca
24 de abril de 2026 11:04 am“Campos Neto diz que emprego pleno no Brasil é ‘grande surpresa’ e alerta sobre pressão inflacionária.”
“Galípolo diz que país está perto do pleno emprego e defende postura anticíclica do BC.”
Rui Ribeiro
17 de abril de 2026 10:12 amAlém da taxa Selic alta encarecer o crédito, tendo como consequência a redução do consumo, dos investimentos e a elevação do desemprego, ela eleva o endividamento da Nação.
Trecho de entrevista de Eduardo Campos à Globo, em 2014:
Patrícia Poeta: Então o tempo começa a ser contado a partir de agora. Candidato, vamos começar a entrevista com a lista de alguma promessas que o senhor já fez, eu anotei algumas delas: escola em tempo integral, passe livre para estudantes do ensino público, aumento dos investimentos em saúde para 10% das receitas da União, manutenção do poder de compra do salário mínimo e multiplicar por 10 o orçamento da segurança. Tudo isso significa aumento dos gastos públicos. Mas o senhor também promete baixar a inflação atual para 4% em 2016, chegando até 3% até 2019. E isso, segundo economistas, exige cortar pesadamente gastos públicos. Ou seja, essas promessas se chocam, se batem. Qual delas o senhor não vai cumprir?
Eduardo Campos: Patrícia, na verdade, só há uma promessa, que é melhorar a vida do povo brasileiro. A sociedade brasileira tem apresentado na internet, nas ruas, uma nova pauta, que é a pauta da educação, da melhoria da assistência da saúde, que está um horror no país, a violência que cresce nos quatro cantos do país. Nós temos que dar conta de melhorar a qualidade de vida nas cidades onde a mobilidade também é um grave problema. E tudo isso em quatro anos. Nós estamos fazendo um programa de governo, ouvindo técnicos, a universidade, gente que já participou de governo. E é possível, sim. Nós estamos fazendo conta, tem orçamento. Eu imagino que muitas vezes as pessoas dizem assim: ‘Houve uma reunião do Copom hoje e aumentou 0,5% os juros’. E ninguém pergunta da onde vem esse dinheiro. E 0,5% DE ELEVAÇÃO DA TAXA SELIC SIGNIFICA 14 BI. O passe livre, que é um compromisso nosso com os estudantes, custa menos do que isso. Então, nós estamos fazendo contas para, com planejamento, em quatro anos trazer inflação para o centro da meta, fazer o Brasil voltar a crescer, que esse é outro grave problema, o Brasil parou. E o crescimento também vai abrir espaço fiscal. Tudo isso com responsabilidade na condução macroeconômica. Banco Central com independência, Conselho Nacional de Responsabilidade Fiscal, gente séria e competente governando. Fazendo a união dos competentes, dos bons, o Brasil pode ir muito mais longe”.
Antonio Uchoa Neto
17 de abril de 2026 10:17 amBom, na minha modesta visão de leigo, o BC responde apenas a si mesmo, e aos interesses de seus controladores, os bancos privados, e estes, por sua vez, são dependentes, e, em bom português, controlados de e por bancos estrangeiros e do sistema financeiro internacional. Desde 1694, ano da fundação do Banco da Inglaterra, na minha visão o marco inicial da Idade Contemporânea, do qual a Revolução Francesa foi a face mais visível.
Desde os tempos bíblicos (e os menciono apenas para ser inteligível), a propriedade de terras e o produto da terra, foi a pedra fundamental do Poder, econômico, político, militar, etc.; ao largo deste poder, foram tomando corpo seus subprodutos, especialmente o comércio. Crescendo este exponencialmente, um de seus subprodutos, o meio de troca, foi assumindo importância cada vez maior – e, hoje, é o próprio Poder: o Poder financeiro. Tanto que já se basta a si mesmo, e gera-se a si mesmo.
Ainda assim, defende-se a ideia de que, apenas e tão somente, quando esse dinheiro cai na mão do trabalhador, é que surge a Inflação. Os bancos vivem de quantitative easing, reserva fracionária, e demais denominações que são dadas à essa depravação pornográfica de criar dinheiro do nada; mas somente quando essa excrescência chega nas mãos do trabalhador, é que surge a inflação. Que, segundo consta, é nociva a todos. Permitam-me, com minha ignorância em matéria de economia, duvidar disso. Se é assim, por que recorrer a esses artifícios, supostamente destinados a movimentar e aquecer a economia real? Por que tolerar uma semana sequer de inflação, mesmo baixíssima? Aí aumentam-se os juros, o dinheiro na mão do trabalhador escasseia, e o dinheiro criado é mantido circulando apenas entre os bancos, que assim adquirem seus bens, seus ativos, e seu luxo, e seus balanços com lucros estratosféricos. É isso?
Hoje acredito que a grande desgraça do mundo foi a atitude dos líderes da Comuna de Paris, diante do Banco da França. De lá para cá, o sistema financeiro consagrou sua característica de esfinge, de enigma indecifrável. Os trabalhadores franceses simplesmente não sabiam do que se tratava. Esperavam, talvez, encontrar cofres cheios de dinheiro, e encontraram apenas títulos de dívida, pública e privada. O dinheiro verdadeiro, os juros, já eram virtuais, naquela ocasião, e hoje o são ainda mais – meros sinais eletrônicos. Que, no entanto, seguem comprando tudo que existe, sólido ou desmanchado no ar.
Não há fraude no sistema financeiro; o sistema financeiro é, em si, uma fraude.
JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
21 de abril de 2026 8:27 amDesde o plano Real, o BACEN responde ao sistema financeiro. Não existe banco central independente em lugar nenhum do do mundo, eles são controlados pelo capital fianceiro ou pelo estado.
Leticia Mendonca
24 de abril de 2026 11:03 am“Galípolo diz que país está perto do pleno emprego e defende postura anticíclica do BC.”
“Campos Neto diz que emprego pleno no Brasil é ‘grande surpresa’ e alerta sobre pressão inflacionária.”