7 de junho de 2026

A guerra ao PIX é também contra o BRICS Pay, por Gustavo Tapioca

A pergunta verdadeira é esta: por que o líder da maior potência militar do mundo teme uma invenção brasileira que deu certo? 
Reprodução

Donald Trump investe contra o Pix, sistema brasileiro que movimentou R$ 90 tri e desafia interesses internacionais.
BRICS Pay, sistema de pagamentos do grupo BRICS, busca integrar Pix e reduzir dependência do dólar e bandeiras tradicionais.
Jornalista Breno Altman alerta para nova doutrina dos EUA que justifica sanções e intervenções militares na América Latina.

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A guerra ao PIX é também contra o BRICS Pay 

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Ao atacar o PIX, Trump reage igualmente ao surgimento de alternativas ao sistema dominado pelo dólar. Breno Altman alerta para a criação de uma base jurídica capaz de justificar sanções, bloqueios e até intervenções militares 

por Gustavo Tapioca 

A guerra de Donald Trump contra o Pix não é uma excentricidade comercial. É um sinal dos tempos. 

O presidente da maior potência militar do planeta decidiu mirar uma criação brasileira concebida por técnicos do Banco Central porque o Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento. Tornou-se uma das mais bem-sucedidas experiências de soberania tecnológica do Sul Global. 

Desde seu lançamento, em novembro de 2020, o sistema revolucionou a forma como os brasileiros movimentam dinheiro. Transferências instantâneas, gratuitas para pessoas físicas, disponíveis 24 horas por dia, transformaram o Pix em um fenômeno econômico e social. 

Com exceção dos Bolsonaro, que serviram de instrumento para Trump iniciar a ofensiva, o presidente dos Estados Unidos declarou guerra a uma das mais recentes unanimidades nacionais. 

É claro que não foi para atender ao pedido bolsonarista que Trump atacou o Pix. O sucesso impressionante da plataforma produziu um efeito colateral inesperado: passou a incomodar interesses poderosos dentro e fora do país. 

A pergunta, portanto, não é apenas por que Trump resolveu atacar o Pix. 

A pergunta verdadeira é outra: por que o líder da maior potência militar do mundo teme uma invenção brasileira que deu certo? 

Os números que assustam 

Os números ajudam a explicar. 

Em 2021, primeiro ano completo de funcionamento, o Pix movimentou cerca de R$ 5,2 trilhões. Em 2022, o valor saltou para R$ 10,9 trilhões. Em 2023, atingiu R$ 17,2 trilhões. Em 2024, chegou a impressionantes R$ 26,4 trilhões. 

Somados, os quatro primeiros anos representam quase R$ 60 trilhões movimentados pela plataforma. 

Com a expansão observada em 2025 e nos primeiros meses de 2026, estimativas do setor indicam que o volume acumulado já ultrapassou R$ 90 trilhões e pode se aproximar rapidamente da marca de R$ 100 trilhões. 

Não existe nada semelhante na história recente da infraestrutura financeira brasileira. 

O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta bancária. Tornou-se uma peça central da economia nacional. 

O dinheiro que deixou de passar pelos cartões 

É aqui que a história começa a ficar interessante. 

O Pix não substituiu apenas TEDs, DOCs e boletos. Também retirou bilhões de reais do circuito tradicional dos cartões de débito e crédito. 

Uma operação por Pix custa ao lojista, em média, cerca de 0,22%. Já as taxas dos cartões costumam variar entre 1% e 2,2%. 

A diferença parece pequena. Mas, aplicada sobre trilhões de reais, transforma-se numa montanha de dinheiro. 

Não existe cálculo oficial sobre quanto Visa, Mastercard e bancos emissores deixaram de arrecadar desde a criação do Pix. Mas uma estimativa conservadora ajuda a compreender a dimensão do fenômeno. 

Se apenas 10% dos quase R$ 60 trilhões movimentados até o final de 2024 tivessem passado pelas redes tradicionais de cartões, estaríamos falando de aproximadamente R$ 6 trilhões em operações. 

Aplicando taxas entre 1% e 2,2%, isso significaria algo entre R$ 60 bilhões e R$ 132 bilhões em receitas potenciais. 

Considerando o crescimento posterior do Pix, o valor acumulado até 2026 poderia alcançar uma faixa entre R$ 90 bilhões e R$ 220 bilhões. 

Não é possível afirmar que todo esse dinheiro seria capturado por empresas americanas. Mas é possível afirmar que o Pix reduziu drasticamente o espaço econômico ocupado pelas grandes bandeiras internacionais. 

E isso ajuda a entender por que o sistema passou a ser visto como problema estratégico por determinados setores. 

O ataque de Washington 

Foi nesse contexto que a administração Trump decidiu abrir uma investigação comercial contra o Brasil. 

Entre as alegações apresentadas por Washington está a acusação de que o Pix funcionaria como uma espécie de “campeão nacional” favorecido pelo Estado brasileiro. 

A crítica chama atenção por um motivo simples. 

O Pix não é empresa. Não é banco. Não é plataforma privada. 

É uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central e disponibilizada para todo o sistema financeiro. 

Na prática, o argumento norte-americano equivale a criticar uma rodovia porque ela permite que empresas brasileiras transportem mercadorias de forma mais barata. 

O problema, portanto, não parece ser o Pix em si. 

O problema é o sucesso do Pix. 

O que é o BRICS Pay 

Existe uma dimensão ainda maior. 

Nos últimos anos, os países do BRICS começaram a discutir a criação de um sistema internacional de pagamentos conhecido como BRICS Pay. 

A proposta surgiu inicialmente dentro do Conselho Empresarial do BRICS e ganhou força após as sanções impostas à Rússia. 

A ideia é simples: criar mecanismos que permitam transações internacionais usando moedas nacionais e sistemas próprios de pagamento, reduzindo a dependência do dólar e das estruturas financeiras controladas pelo Ocidente. 

O BRICS Pay ainda não é uma plataforma plenamente operacional. 

Mas deixou de ser apenas uma ideia. 

Já existem pilotos, testes, aplicativos e grupos de trabalho dedicados à sua implementação. E o mais importante: o projeto prevê a interoperabilidade entre sistemas nacionais de pagamento. 

Entre eles está justamente o Pix brasileiro. 

Quando o Pix encontra o BRICS 

É nesse ponto que as duas histórias se cruzam. 

O Pix nasceu como uma solução doméstica, mas começa a dar seus primeiros passos internacionais. Já existem operações para brasileiros na Argentina. Há experiências semelhantes em outros países visitados por turistas brasileiros. 

Ainda não se trata de uma rede global. Trata-se de uma tecnologia que começa a ultrapassar as fronteiras nacionais. 

Agora imagine o cenário futuro. 

Um brasileiro utiliza Pix. Um indiano utiliza UPI. Um russo utiliza seu sistema nacional. Um chinês utiliza uma carteira digital integrada. 

Todos conectados por uma infraestrutura comum. 

Esse é o horizonte estratégico discutido dentro do BRICS. 

E é exatamente esse horizonte que pode explicar parte da inquietação observada em Washington. 

A lição da história 

Existe ainda uma perspectiva histórica que ajuda a compreender a reação norte-americana. 

Os Estados Unidos sempre trataram suas infraestruturas estratégicas como assuntos de segurança nacional. 

Foi assim com o petróleo. 

Foi assim com a indústria aeronáutica. 

Foi assim com os semicondutores. 

Foi assim com a internet. 

Foi assim com o dólar. 

Sempre que uma tecnologia, uma rede ou uma infraestrutura ameaçou reduzir a influência econômica americana, Washington reagiu utilizando instrumentos diplomáticos, comerciais, financeiros e, em alguns casos, até militares. 

Não se trata de uma peculiaridade de Trump. Trata-se de uma tradição histórica do poder americano. 

A novidade é que, desta vez, o alvo não é uma potência rival tradicional. 

Não é a China. Não é a Rússia. 

O alvo é uma tecnologia criada por técnicos brasileiros dentro de uma instituição pública brasileira: o Banco Central do Brasil. 

Muito além do Pix 

A controvérsia em torno do Pix talvez seja apenas a face mais visível de uma disputa muito maior. 

Nos últimos meses, a administração Trump abriu investigações comerciais contra o Brasil, ampliou pressões sobre setores estratégicos e passou a tratar temas econômicos, tecnológicos e financeiros como questões de segurança nacional. 

O que está em jogo vai além de tarifas ou meios de pagamento. 

Trata-se da disputa pelo controle das infraestruturas que organizarão a economia mundial nas próximas décadas. 

O Pix é uma dessas infraestruturas. 

O BRICS Pay pretende ser outra. 

Separadamente, podem parecer iniciativas técnicas. Juntas, apontam para uma possibilidade inédita: a construção de mecanismos financeiros menos dependentes do dólar, das grandes bandeiras internacionais de cartão e das estruturas controladas por Washington. 

É precisamente essa possibilidade que parece provocar preocupação nos centros de poder americanos. 

O alerta de Breno Altman 

Em entrevista ao Brasil 247, o jornalista Breno Altman resumiu a dimensão geopolítica dessa disputa em uma frase que merece atenção: 

“Trump quer subjugar a América Latina.” 

Segundo Altman, está em curso a construção de uma nova doutrina de poder para a região. 

“Se cria uma nova base jurídica para que os Estados Unidos possam sancionar, bloquear e intervir militarmente.” 

A afirmação pode parecer distante do debate sobre um sistema de pagamentos instantâneos. 

Mas, ao longo da história, grandes disputas geopolíticas raramente começam pelos tanques. Costumam começar pelo controle das rotas comerciais, dos fluxos financeiros, das moedas e das tecnologias estratégicas. 

Foi assim com o petróleo. 

Foi assim com o dólar. 

Pode estar sendo assim com os sistemas digitais de pagamento. 

Talvez seja cedo para afirmar que o Pix e o BRICS Pay alterarão a arquitetura financeira mundial. Talvez levem anos para amadurecer. 

Mas uma coisa já parece evidente. 

Donald Trump não está travando uma batalha contra um simples aplicativo de pagamentos. Está reagindo ao surgimento de uma tecnologia criada no Brasil que demonstrou ser possível construir alternativas fora dos centros tradicionais de poder. 

E isso ajuda a explicar por que uma ferramenta concebida por técnicos do Banco Central passou a despertar a atenção do homem que ocupa a Casa Branca. 

Às vezes, o que ameaça um império não é uma arma. 

É uma ideia que funciona. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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