Hold the door!, por Wilson Gomes

Enviado por Josias Pires

Texto de Wilson Gomes:

“Ontem à noite fui patrono de uma turma de formandos da Faculdade de Comunicação da UFBA. Como me acontece raramente e como ontem [1 setembro] foi, politicamente, uma data muito especial para o Brasil, compartilho aqui o discurso que fiz. 

Queridos formandos,

Desejaria muito fazer um daqueles discursos motivadores-lacradores de filme americano, meio Sociedade dos Poetas Mortos meio filmes de invasão alienígena do tipo A Batalha de Los Angeles ou The Avengers. Mas hoje é 1º de setembro de 2018. Que é oficialmente o primeiro dia da disputa eleitoral em que o primeiro lugar na corrida presidencial é ocupado por um sujeito que condensa na sua imagem e no seu discurso público a quintessência do desprezo a valores e convicções fundamentais da democracia liberal e do humanismo. E que foi conduzido a esta posição por 32% dos que pretende votar em outubro de 2018. Por 39% dos que ganham acima de 5 salários mínimos, por 40% das pessoas de gênero masculino, por 34% das pessoas com ensino superior. Alguns dos que o apoiam têm convicções sobre mulheres, direitos e garantias individuais, homossexualidade, raça, ditadura militar, direitos humanos e igualdade ainda mais radicais e mais radicalmente antidemocráticas do que aquelas sustentadas pelo líder da corrida eleitoral, aquele cujo nome não merece ser pronunciado e cuja posição política certamente não merece a nossa isenção. 

Tenho 55 anos. E acompanhei já com suficiente maturidade as setes disputas presidenciais precedentes a esta, desde a restauração da democracia brasileira. Em nenhuma delas os líderes da corrida eleitoral chegaram sequer perto de enunciar os desatinos antidemocráticos a que assistimos, estarrecidos, nas eleições deste ano. Mesmo o hoje criticado Fernando Collor, candidato vencedor em 1989, situava-se confortavelmente acima da linha da decência das ideias que se podem defender legitimamente em uma democracia liberal. E até o famigerado Dr. Enéas Carneiro, 3º lugar no pleito de 1994, situava-se acima da linha que separa civilização e brutalidade – linha que em 2018 a sociedade brasileira parece estar perdendo de vista.

Sim, queridos, vocês estão se formando em tempos realmente sombrios. Como disse alguém esta semana, o Brasil, estranhamente, está dançando um tango à beira do abismo, está bailando um sapateado sobre gelo fino. O intelectual português Agostinho Silva disse certa vez (eu não estava lá, mas confio em Caetano Veloso que o repete sempre): “O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo que o caiba”. Sempre pensei comigo: este moço precisaria ter aprendido a fazer elogios; por que para dizer de um futuro grandioso é preciso lembrar, paradoxalmente, do abismo e nos assegurar que há um abismo que aparentemente nos engole. Mas nesses momentos de crise (e vivemos uma dessas em 1963, que custou à minha geração duas décadas de trevas e brutalidade institucionalizada do estado), em suma, nesses momentos de crise, como esta em que estamos mergulhados há quatro anos, eu entendo que é preciso de fato lembrar do abismo, mesmo quando queremos difundir esperança com relação ao futuro. De tempos em tempos, em ciclos irregulares, o Brasil dança um tango às cegas à beira do abismo.

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Queridos jornalistas e produtores culturais, lamento ser eu a dizer-lhes – e a dizer-lhes bem no dia da sua formatura – que não há como não os implicar no torvelinho do espírito do tempo. Eu cheguei à Universidade em 1981, tinha 17 anos, de sonho e de sangue e de América do Sul, mas por força deste meu destino, não tinha vivido um só dia da minha vida consciente que não fosse sob uma ditadura. (Nota mental: agora vivo em um mundo em que ¼ dos meninos entre 16-24 anos preferem um candidato que diz que não houve ditadura militar, em que os meninos desta idade formam 60% dos votos desta criatura). 

Mas lembro com clareza que em tempos de autocracia, ausência de garantias e direitos individuais, lei de segurança nacional, suspensão de habeas corpus e de direitos, impossibilidade de expressão de qualquer divergência política com a autoridade constituída, brutalidade autorizada de militares contra certos cidadãos civis considerados inimigos do regime ou simplesmente divergentes, controle de livros, jornais e ensino, foram pouco os setores sociais que resistiram e seguiram resistindo à barbárie, mantendo e sustentando espaços de liberdade onde cultivar sonhos democráticos e esperar pela volta do estado de Direito.

Não, não foi do Poder Judiciário que veio a resistência contra o fim do estado de Direito nem contra a implantação de uma autocracia despótica. Continuamos a ter juízes e cortes durante os Anos de Chumbo, inclusive usando como marco legal os Atos Institucionais da ditadura e a excrescência que foi a Lei de Segurança Nacional. Não, inicialmente nem sequer foi do Jornalismo que veio a resistência ao Inverno que chegava. Ao contrário, empresas de jornalismo se apressaram a criar o ambiente de opinião pública necessário para que a ditadura confortavelmente se instalasse no país. Sim, houve advogados e juízes contra a ditadura, que defenderam presos políticos e lutaram por liberdade e justiça, mas a instituição Justiça falhou com a democracia. Sim, houve jornalistas mortos e torturados porque não arredaram o pé das suas convicções democráticas, mas a instituição Jornalismo falhou miseravelmente com a defesa dos valores da democracia. E só não se saiu pior porque pouco a pouco foi se afastando do regime militar, de forma que acabou por se constituir em um desses importantes espaços de liberdade que mencionei há pouco. 

Por outro lado, houve instituições que se mantiveram firmes e irresolutas, garantindo o fogo aceso e um lugar à mesa para as liberdades individuais (inclusive as liberdades de expressão e reunião), para a crença na igualdade política, para os valores liberais ou progressistas, para a racionalidade, quando tudo ao redor parecia desolação e irracionalidade, enfim, que guardaram um lugar à mesa para a democracia, no caso de “se um dia ela puder voltar”. A Universidade foi um desses espaços de liberdade – e é bom que estejamos aqui hoje, no coração da Universidade da Bahia, como já foi chamada, quando o inverno parece querer voltar. Onde as pessoas se atrevem a pensar, se autorizam a divergir e se concedem a ousadia de conhecer a brutalidade antidemocrática não faz morada nem visita. Não é à toa que a onda neoconservadora mundial, esta do trumpismo e do bolsonarismo, são de um anti-intelectualismo feroz, de um horror à universidade pública e à educação a toda prova. Não é à toa que todo homofóbico, todo misógino e machista, todo reacionário e racista, todo bruto revisionista histórico, todos, sem exceção, são também radicalmente anti-intelectuais.

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Mas houve também um outro setor social no Brasil que nunca se rendeu às trevas, à irracionalidade e à desumanidade: a cultura e as artes. A criação é o espaço por excelência da liberdade e a liberdade criativa jamais combinou com tiranos e autocracias. Mesmo que para isso se pagasse um alto preço. A mão pesada da censura se abateu sobre as artes e a cultura brasileira desde a promulgação do AI-5 (em 13 de dezembro de 1968) até 1988 (em 3 de agosto, como vocês sabem, celebra-se o fim da censura no Brasil, pois foi nesse dia que foi votado o texto da nova Constituição que trata desse tema). Isso não obstante, a cultura e as artes no Brasil conseguiram se manter, por mais de vinte anos de duração das últimas trevas, como o osso duro de roer em que os hidrófobos reacionários e os liberticidas inexoravelmente quebravam os dentes. 

Não é à toa, que agora quando o inverno ameaça voltar (e votar) pela mão dos mortos-vivos, dos caminhantes brancos homofóbicos, racistas, machistas, liberticidas, dogmáticos e obscurantistas (peço desculpa por gastar tanta vela para defunto tão ruim), o ódio à liberdade artística e cultural agora inunde os ambientes sociais de direita, o clamor por censura a exposições, performances e shows tenha ressuscitado dos seus sarcófagos para ocupar a esfera pública.  Que a Lei Rouanet se tenha tornado um insulto, que a associação entre arte e pedofilia seja um produto diário da oficina diabólica dos neoconservadores, que termos como “indução à pedofilia”, “indução à homossexualidade”, “indução – pasmem! – à zoofilia” se tenha tornado parte do arsenal de guerra com que se munem os conservadores de direita para sua própria afirmação política e para conduzir a sua guerra cultural.  A cultura e as artes resistiram aos coturnos, hão de resistir também ao assalto dos idiotas motivados da reacionaria, esperamos. 

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Como veem meus amigos, este longo discurso (que já está na hora de acabar) era para dizer que o jornalismo e a cultura estão no olho do furacão. Vocês estão no olho do furacão. Sim, são tempos sombrios e há muita, mas muita coisa mesmo, em jogo neste momento no país. Não sabemos como vai terminar esta valsa à beira do precipício, nem sequer temos realmente certeza, quando a escarpa está a um tropeço de distância, de que não há abismo que nos caiba.  O que eu queria que vocês, meus queridos, soubessem, é que iremos resistir. Não temos a escolha de não resistir. Na Universidade, na Cultura e em um Jornalismo feito para pessoas que se atrevem a pensar e que têm a ousadia de divergir, manteremos sempre um lugar à mesa para a razoabilidade e o entendimento, para as liberdades, todas e tantas, para a igualdade, para direitos e garantias, para a democracia, enfim. 

Eu tenho um amigo com veleidades artísticas que um dia me confessou que o sonho dele era encaixar a palavra paralelepípedo em uma canção. Nunca conseguiu e já estava quase desistindo do capricho quando o velho Chico Buarque, um resistente da liberdade, meteu o verso “Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar…” em Vai Passar. É um bom augúrio terminar esse textão com Chico, mas eu também sempre tive um sonho, que esta noite confesso a vocês e nunca confessei a ninguém. Há uma frase que sempre sonhei encaixar em um discurso. Vou realizar o meu sonho esta noite, ao mesmo em que tento vender a vocês as ideias de que precisamos resistir pela liberdade, de que este não é um discurso sobre os que oprimem, mas sobre os que resistem. HOLD THE DOOR!  Isso mesmo, hold the door. Aguentem firmes, que não há noite que dure para sempre.

Sejam muito felizes.”

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