21 de maio de 2026

Israel e Palestina: a paz distante, por Luciano Fazio

Israelenses e palestinos têm se mostrado incapazes de dar passos decisivos para reduzir as tensões e construir a confiança para diálogo.
Reprodução

O plano da ONU de 1947 para dividir a Palestina gerou conflitos e a criação do Estado de Israel em 1948, com oposição árabe.
Após a Guerra dos Seis Dias em 1967, Israel ocupou territórios palestinos, intensificando a crise e o êxodo de civis.
O conflito de 2023 em Gaza causou grave crise humanitária, com cerca de 70 mil vítimas civis e destruição de infraestrutura.

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Israel e Palestina: a paz distante

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por Luciano Fazio

A possibilidade de paz entre israelenses e palestinos é uma das questões mais complexas da política internacional contemporânea.

Os conflitos que se repetem há quase oito décadas têm sido gerados a partir de um “pecado original” situado em 1947. Naquele ano, a Organização das Nações Unidas aprovou a partilha da Palestina — então sob mandato britânico — prevendo a criação de um Estado judeu (Israel) e de um Estado árabe (palestino). É provável que uma decisão desse tipo, hoje, fosse formulada de maneira diferente, à luz de algumas de suas limitações:

• Foi ignorada a manifesta oposição das lideranças árabes da região;

• Não houve consulta direta à população local por meio de voto, em contraste com o princípio de autodeterminação dos povos;

• A maior parte do território foi atribuída ao futuro Estado judeu, apesar de os judeus serem uma minoria demográfica na região à época.

A reação dos países árabes e das forças palestinas foi a guerra contra o recém-criado Estado judeu, em 1948, vencida por Israel. O conflito provocou o êxodo de cerca de 700 mil palestinos — episódio conhecido como Nakba — devido tanto a expulsões diretas quanto ao temor gerado pela guerra. Após o conflito, Israel não permitiu o retorno da maioria desses refugiados.

Um agravamento ocorreu após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel passou a ocupar a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza, provocando a saída de mais de 300 mil palestinos e a imposição de um regime de apartheid para aqueles que permaneceram na Cisjordânia.

Embora o plano da ONU de 1947 previsse um Estado palestino, sua criação nunca se concretizou. Desde então, diversos fatores contribuíram para esse resultado; nos últimos anos, no entanto, as políticas israelenses — como a expansão dos assentamentos e o controle territorial — têm sido amplamente apontadas como o principal obstáculo à realização de um Estado palestino.

Na guerra em Gaza iniciada em 2023, após o ataque do Hamas em 7 de outubro, a resposta militar israelense demonstrou crescente radicalização, acompanhada de acusações sobre a intencionalidade de ataques contra a população. Segundo diversas estimativas, o saldo foi a destruição em larga escala de infraestruturas essenciais (habitações, hospitais, escolas…) e cerca de 70 mil vítimas civis: uma gravíssima crise humanitária na Faixa.

Em síntese, a paz permanece distante.

Para os palestinos, pesa não apenas a memória da perda de suas terras, mas também as atuais condições de vida: expansão dos assentamentos judeus nos territórios ocupados (estima-se cerca de 800 mil colonos); fragmentação territorial; severas restrições à mobilidade e forte controle militar e policial. A isso se soma um tratamento jurídico e político desigual.

Para os israelenses, o trauma histórico das perseguições — em particular o Holocausto — alimenta uma percepção duradoura de ameaça existencial. Essa sensação, reforçada por atentados frequentes, contribui para consolidar uma doutrina de segurança baseada no uso da força. Em especial, o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 agravou esse quadro, ampliando o apoio interno a políticas que sugerem a intenção de controle dos territórios palestinos e de deslocamento definitivo da população árabe, projeto mencionado pelo presidente dos EUA, principal aliado de Tel Aviv, em referência à Faixa de Gaza.

Apesar de uma consciência difundida sobre a insustentabilidade de uma guerra permanente, as tentativas de paz não obtiveram apoio político suficiente. Em 1995, os Acordos de Oslo, firmados entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), previam o reconhecimento mútuo e um caminho gradual rumo à solução de dois Estados, mas foram enfraquecidos por fatores como o assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin por um extremista judeu e a perda de apoio interno entre os palestinos.

Israelenses e palestinos têm se mostrado, até agora, incapazes de dar passos decisivos para reduzir as tensões e construir a confiança necessária ao diálogo. Portanto, no curto e médio prazo, a paz dificilmente surgirá de forma espontânea. Serão fundamentais pressões internacionais mais incisivas por parte de diversos países — tanto sobre Israel, que detém superioridade militar, quanto sobre as lideranças palestinas — para tornar possível uma solução baseada nas resoluções da ONU.

Essa solução pressupõe o reconhecimento mútuo e a garantia de direitos para ambos os povos. Embora hoje a ONU não esteja em condições de aprovar resoluções nesse sentido (sobretudo pelo voto contrário dos Estados Unidos), a comunidade internacional não pode ignorar sua responsabilidade histórica na origem do conflito, nem seu potencial contributo para uma solução.

Nesse contexto, considerando o histórico descumprimento das resoluções das Nações Unidas, medidas de pressão, articuladas no âmbito multilateral, deveriam incluir embargo à venda de armamentos, iniciativas diplomáticas, bem como sanções econômicas e comerciais.

Luciano Fazio – Matemático pela Università degli Studi de Milão e pós-graduado em Previdência Social e Gestão de Fundos de Pensão pela FGV. Trabalha com consultoria e formação nas áreas de economia e previdência e é consultor externo do Dieese para assuntos previdenciários. Autor dos livros “O que é Previdência Social”, Loyola, 2016, e “O que é Previdência do Servidor Público”, Loyola 2020.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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