17 de outubro de 2026

O antagonismo entre as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro, por Júlia Leal

Existe um antagonismo entre as agendas propostas por Lula e Flávio, com diferentes visões sobre economia, políticas públicas, questões ambientais e coexistência social.
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No 1º turno, Flávio Bolsonaro liderou com 47,03%, Lula teve 45,16%, refletindo polarização política no Brasil.
Governos Lula priorizaram crescimento econômico e políticas sociais, como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida.
Gestão Bolsonaro enfrentou crise econômica e pandemia com medidas controversas e aumento do desmatamento na Amazônia.

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O antagonismo entre as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro

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por Júlia Leal

No dia 25 de outubro de 2026, o Brasil decidirá qual projeto de desenvolvimento econômico e social pretende construir nos próximos quatro anos. De um lado, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva busca emplacar o quarto mandato e dar continuidade às políticas desenvolvimentistas. Em oposição, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, se empenha para assumir a presidência pela primeira vez e resgatar a agenda conservadora do pai. Existe um antagonismo incontestável entre as agendas propostas por Lula e Flávio, com diferentes visões sobre economia, políticas públicas, questões ambientais e coexistência social. Enquanto Lula defende uma maior participação do Estado na economia, com políticas públicas voltadas para o bem-estar coletivo e financiamento climático, Flávio representa todo o retrocesso do “bolsonarismo”, expressão brasileira da extrema direita.

O resultado do primeiro turno foi inesperado para grande parte do movimento da esquerda, mostrando Flávio na frente com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%. O grande questionamento é como a maior parte da população brasileira ainda se identifica com o bolsonarismo, apesar do legado de destruição econômica e social deixado pelos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro. Dias após o primeiro turno, essa reflexão permanece não apenas entre os eleitores de esquerda, mas também naqueles politicamente de direita e que não compactuam com o ódio disseminado pelo bolsonarismo. Boa parte da base eleitoral da direita não se identifica com o programa de governo proposto por Flávio Bolsonaro que, cumpre mencionar, é desarticulado e inconsistente. Nesse sentido, veem-se quase que obrigados a votar no candidato da esquerda.

Pode-se dizer que um dos principais argumentos utilizados por aqueles que votaram em Flávio Bolsonaro é a alegação de que o Partido dos Trabalhadores (PT), legenda de Lula, seria responsável pela corrupção na política brasileira e que, mais quatro anos de PT no poder, podem “quebrar” o país. No entanto, o candidato apoiado por esses eleitores está envolvido em diversas controvérsias relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras irregulares, além de acumular mais de duas décadas de carreira parlamentar cuja atuação pode ser considerada irrelevante.

A comparação entre os dois primeiros governos de Lula e o único de Jair Bolsonaro também aponta para um aspecto controverso nessa aversão ao candidato petista. Durante o primeiro mandato de Lula (2003- 2006), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro teve crescimento médio de 3,5% a.a., enquanto no segundo mandato (2007- 2010), à despeito da eclosão da crise financeira de 2008, a economia brasileira apresentou um crescimento médio de 4,6% a.a. Essa atuação bem-sucedida foi possível devido a uma combinação de fatores internos e externos, como o boom das commodities, a valorização do salário mínimo e a expansão do consumo.

Outro marco foi a criação do Bolsa Família, no final de 2003, programa de transferência de renda voltado para famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica e que possibilitou a redução da pobreza, ampliando o consumo de milhares de famílias. No início do segundo mandato, em 2007, foi lançado o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com o objetivo de ampliar os investimentos públicos para impulsionar setores como infraestrutura, transportes, mobilidade urbana, energia e saneamento. O programa buscou utilizar o investimento público como instrumento de estímulo à atividade econômica, de forma articulada com o setor privado, através das PPPs (Parcerias Público-Privadas). Outro programa importante foi o Minha Casa, Minha Vida, lançado em 2009, cujo intuito foi ampliar o acesso à moradia própria através de subsídios e condições facilitadas de financiamento habitacional. Além de estimular o setor de construção civil, o programa contribuiu para a redução do déficit habitacional e a geração de empregos. Em síntese, a melhora no mercado de trabalho, a valorização do salário mínimo, a expansão do consumo e a redução da pobreza constituíram as bases para o crescimento econômico dos primeiros governos de Lula.

No âmbito social, a era Lula foi responsável por diversas políticas afirmativas com foco na inclusão de grupos historicamente discriminados. Para enfrentar a violência contra as mulheres, em 2006, foi criada a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), com o objetivo de proteger mulheres vítimas de violência doméstica. Para as pessoas negras, foram estabelecidas diretrizes para combater o racismo e políticas de ações afirmativas, garantindo cotas raciais. Em relação à população LGBT+, o governo promoveu ações para combater a violência e a discriminação, ampliando o debate sobre diversidade. Os povos indígenas e quilombolas também foram reconhecidos e receberam maior assistência social.

O cenário, contudo, foi distinto durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Seu plano de governo priorizava a liberalização econômica, defendendo privatizações e a redução da participação do Estado na economia, além de valorizar pautas conservadoras, como a flexibilização do acesso a armas de fogo. Entretanto, um dos maiores desafios de seu mandato foi a pandemia de Covid-19. Bolsonaro atuou fortemente para promover fake news e dificultar o acesso à tão esperada vacina. Também não incentivou o uso de máscara e o isolamento, tão necessários para conter a propagação do coronavírus. No dia 09 de maio de 2020, quando o Brasil atingiu a marca de mais de 10 mil mortes por Covid-19, Bolsonaro passeou de jet ski próximo à residência oficial.

No plano econômico, a postura negacionista de Jair Bolsonaro causou sérios impactos na economia, aprofundando os efeitos adversos provocados pela pandemia. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, a economia brasileira já apresentava um crescimento modesto de 1,2%, seguindo uma forte retração de -3,3% em 2020. Paralelamente, a crise provocou o aumento do desemprego e da informalidade. Em 2021, a alta dos preços dos combustíveis, combinado com a desvalorização do real, pressionaram a inflação oficial, que encerrou o ano em 10,06%, superando o limite superior de 5,25%, estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A elevação do custo de vida atingiu especialmente as famílias de baixa renda e muitas voltaram para a linha da pobreza. A gravidade desse cenário ficou simbolizada pelas imagens de pessoas fazendo fila para recolher restos de carne e até ossos de um caminhão, que ganharam repercussão nacional em 2021. Ainda sob a gestão de Bolsonaro, registrou-se um aumento significativo no desmatamento da Amazônia, acompanhado do enfraquecimento da fiscalização ambiental.

Em 2023, Lula retornou à presidência do Brasil com o desafio de superar os problemas econômicos e sociais agravados pela gestão de Jair Bolsonaro, assim como defender a soberania nacional diante dos tarifaços arbitrários promovidos por Donald Trump. Dentre os avanços alcançados, destacam-se a redução do desemprego, a retomada da valorização real do salário mínimo e o resgate do Bolsa Família (que havia sido substituído por Jair Bolsonaro pelo programa Auxílio Brasil). Adicionalmente, Lula sancionou a isenção do Imposto de Renda para contribuintes que ganham atém R$ 5 mil, consolidando uma das promessas de sua campanha. Em contrapartida, foi instituído um incremento na tributação de altas rendas (a partir de R$ 600 mil anuais). Para os próximos quatro anos, o programa de Lula se compromete a manter as políticas sociais para reduzir as desigualdades, estimular a indústria nacional, avançar na transição energética sustentável, defender a autonomia nacional e, além disso, ampliar os investimentos em saúde e educação. A poucos dias do segundo turno, o atual presidente concretizou uma importantíssima pauta de seu programa: a aprovação no Senado Federal da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala de trabalho 6×1, garantindo dois dias de repouso semanal remunerado para milhares de trabalhadores.

Por sua vez, a campanha de Flávio Bolsonaro aposta na continuidade do receituário neoliberal aprofundado por seu pai, com promessas de cortes de gastos, privatizações, redução do papel do Estado na economia, controle da trajetória da dívida pública, entre outros. Essas medidas são definidas pelo candidato como “tesouraço” e apresentadas como parte de uma estratégia de busca pelo equilíbrio fiscal, mas o programa carece de propostas concretas para sua implementação. Tampouco detalha os possíveis impactos econômicos e sociais que podem ser desencadeados. No âmbito externo, há a preocupação sobre possíveis interferências norte-americanas nas decisões políticas e econômicas do Brasil, visto que existe uma estreita aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump. Essa relação ganhou relevância em meio às tensões comerciais entre os dois países e às articulações de Flávio Bolsonaro junto ao governo norte-americano.

Portanto, Lula e Flávio Bolsonaro possuem visões antagônicas sobre questões fundamentais para o país, como políticas macroeconômicas, direitos das minorias, segurança pública e transição energética. No próximo dia 25 de outubro, os brasileiros decidirão qual rumo desejam seguir: a continuidade de um projeto voltado à reconstrução socioeconômica ou o retorno de uma agenda marcada por retrocessos. Que o medo dê lugar à esperança.

Júlia Leal – Doutora em Economia (PPGE-UFRJ) e Pesquisadora de Pós-Doutorado Bolsista CAPES (PEPI-UFRJ)

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