
Lula na ONU: Democracia e Soberania Global
por José Manoel Ferreira Gonçalves
Um chamado pela ordem democrática
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou ontem, 23 de setembro de 2025, na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, reafirmando sua posição como um dos mais influentes líderes globais da atualidade. Em um momento em que o mundo enfrenta desafios múltiplos — guerras, desigualdade, crise climática e instabilidade institucional —, Lula ocupou o púlpito da diplomacia internacional com firmeza, clareza e uma contundente defesa da democracia e da soberania dos povos.
Sem cair em polarizações, e de maneira direta, é preciso reconhecer: Lula hoje se destaca como uma voz equilibrada e respeitada no cenário mundial. Não se trata de aderência ideológica, mas de admitir o que é evidente. E o evidente é que seu discurso teve peso, conteúdo e propósito.
Democracia e soberania global
Lula iniciou sua fala defendendo o multilateralismo e criticando o enfraquecimento das instituições democráticas em várias partes do mundo. “A democracia está sob ataque, e o mundo precisa agir para defendê-la”, afirmou, categórico. Sem mencionar nomes de países, denunciou a ascensão do autoritarismo e o uso da mentira como ferramenta política — em clara alusão à proliferação de desinformação que contamina eleições e enfraquece a legitimidade das instituições.
Ao tratar de soberania, Lula foi direto: “Nenhum país tem o direito de interferir na autodeterminação de outros”. A frase ecoou forte na sala, especialmente diante dos conflitos armados ainda ativos, como o da Ucrânia e o mais recente embate
no Sahel africano. Reivindicou a necessidade de uma ordem internacional baseada no respeito mútuo e na paz, não na imposição de interesses geopolíticos.
O genocídio em Gaza: uma denúncia histórica
Em um momento especialmente marcante, o presidente Lula se referiu ao genocídio em Gaza, uma questão que tem mobilizado a opinião pública mundial. Sua declaração foi clara e contundente: “O que estamos vendo em Gaza é um genocídio, uma atrocidade inaceitável que deve ser reconhecida pelo mundo como tal.” Essa fala foi aplaudida de forma calorosa pela plateia, refletindo o peso da denúncia. Lula fez um apelo pelo cessar-fogo imediato e pela abertura de corredores humanitários para o povo palestino, destacando a importância de
responsabilizar os violadores dos direitos humanos, independentemente de sua posição política ou geopolítica.
Esse ponto foi, sem dúvida, um dos mais significativos do discurso, dada a gravidade da situação e o contexto global da Assembleia. Ao se posicionar firmemente contra a violência e pela defesa da vida, Lula se afirmou como uma voz de justiça e solidariedade internacional, demonstrando que, além da política interna, sua liderança está fortemente comprometida com os direitos humanos e a paz mundial.
Frente comum contra a desigualdade
O presidente brasileiro ressaltou que o combate à desigualdade social deve ser prioridade global. Apontou o paradoxo de um mundo que produz riquezas em escala nunca antes vista, mas que continua deixando bilhões de pessoas na miséria. Denunciou, com veemência, a concentração de renda e criticou o sistema financeiro internacional por perpetuar esse ciclo.
Lula ainda fez um apelo por uma “nova governança econômica mundial”, com voz ativa para os países do sul global. Defendeu o fortalecimento do G20 e reiterou a urgência de reformar o Conselho de Segurança da ONU, para que seja mais representativo e democrático.
Clima, Amazônia e protagonismo brasileiro
Em outro ponto crucial de sua fala, Lula tratou da emergência climática. Garantiu que o Brasil está fazendo sua parte para proteger a Amazônia e que não aceitará sermões daqueles que historicamente destruíram seus próprios ecossistemas. Afirmou que o país reduziu drasticamente o desmatamento nos últimos dois anos e voltou a ser um exemplo de compromisso ambiental.
Enfatizou que “a luta contra as mudanças climáticas não pode ser tratada como retórica”, cobrando ações concretas dos países ricos e exigindo financiamento climático justo para as nações em desenvolvimento.
O retorno da diplomacia como força civilizatória
Num dos momentos mais marcantes do discurso, Lula disse que “a diplomacia precisa voltar a ser um instrumento de construção da paz, e não de guerra”. Com essa frase, resgatou o papel do Brasil como mediador internacional e defensor do diálogo, não do confronto.
A clareza de sua mensagem não se escondeu atrás de eufemismos: o mundo está em risco, mas há caminhos possíveis — desde que se ouçam as vozes que pedem equilíbrio, justiça e solidariedade.
Um líder além das fronteiras
Pode-se discordar de Lula em muitos aspectos, mas sua atuação recente na arena global evidencia algo inegável: ele fala com autoridade, escuta com empatia e propõe com coerência. Seu discurso na ONU não foi apenas mais um entre tantos. Foi uma reafirmação da necessidade de lideranças que compreendam a gravidade do momento e estejam dispostas a defender a democracia e a soberania com convicção.
Em um mundo que ainda busca referências sólidas, Lula tem se mostrado, goste se ou não, uma dessas referências.
José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
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