Militares no governo revelam fracasso em reeditar ditadura, por Marco Piva

Discursos duros, fantasma do comunismo e intimidações veladas às instituições não são suficientes para colocar a democracia em risco, mas conjuntura política exige atenção

Marcos Correa/PR

Militares no governo revelam fracasso em reeditar ditadura

por Marco Piva

Em 2018, Jair Bolsonaro foi um candidato antissistema e, sobretudo, antipetista. Surfou na crise política, agravada pelo impeachment de Dilma Roussef quando forças de direita tomaram a dianteira da conjuntura. Uma facada lhe garantiu a solidariedade humana necessária que o retirou dos debates, evitando que explicitasse suas ideias. Assim, conquistou uma vitória sem precisar abrir a boca. Bastaram o instrumento das “fakenews”, o antipetismo reforçado pela operação Lava Jato com a prisão de Lula e a omissão de boa parte da imprensa.

Sua forma de ver o Brasil e a sua população sequer foi objeto de questionamento. Seus valores, que misturam preconceitos, senso comum e completo desconhecimento da gestão pública, não apareceram como impeditivos para que Jair Bolsonaro assumisse o maior cargo da República. Deu no que deu. Um país em completa deterioração institucional e em total desordem social e econômica, com um ministro da Economia que sabe apenas repetir os velhos e surrados mantras do Consenso de Washington.

Diante de uma conjuntura como essa, com inflação, desemprego e fome crescentes, muitos opositores perguntam como é possível que Bolsonaro ainda detenha pouco mais de 30% das preferências eleitorais. A resposta não é fácil porque envolve muitas variáveis, desde o famoso PC, o “Partido da Caneta”, até o envolvimento emocional provocado pelo apoio que o presidente recebe de alguns setores organizados da sociedade, especialmente das forças de segurança, de parte da mídia e de cristãos evangélicos.

O perigo de um golpe de Estado também é levantado pela oposição. Essa sensação de caos gera medo, às vezes um medo exagerado. Estariam os opositores – pelo menos parte deles – enxergando um cenário de ruptura institucional? Uma análise mais imediata pode sugerir que sim. A declaração do presidente do Clube Militar sobre a decisão do STF que condenou o deputado Daniel Silveira à prisão e a resposta ácida do ministro da Defesa rebatendo afirmação do ministro Luis Barroso em relação às Forças Armadas acendem um sinal amarelo de conflito, mas ainda assim não são suficientemente fortes para decretar que entraremos em um estado de exceção. Explico.

Um dos objetivos de Jair Bolsonaro ao ser eleito foi o de devolver aos brasileiros o que ele chama de “pátria amada”. Um conceito amplo porque pressupõe que, em tese, todos os cidadãos do país amam ou devam amar a sua pátria. Isto é uma obviedade. Mas, no pente fino, sempre esteve claro que a intenção do presidente era associar a primazia do “amor à pátria” a determinados setores da sociedade que comungam dos seus valores retrógrados e conservadores. Liberação do acesso às armas para combater uma violência social difusa, restringir as atividades artísticas e culturais, cercear a autonomia das universidades, passar a ideia de que as instituições não permitem que o trabalho presidencial seja feito, promover a misoginia, a homofobia e o racismo etc. São inúmeros os atos e discursos que demonstram um profundo desprezo pela vida civilizada em sociedade.

Mas, para conquistar esses objetivos para além de vitórias pontuais, Bolsonaro precisa de mais. Ele precisa estar amparado nas forças de segurança para viabilizar a consolidação de seu discurso e de seu poder. Todas as pautas que ele defende atraem a atenção de muitos agentes públicos encarregados da segurança do Estado e da sociedade. O sonho desses policiais é exercer seu poder a partir de convicções pessoais e não com base nos estatutos das corporações, que devem seguir a legislação. Porém, entre a ação pessoal e a obediência a um regimento interno que coíbe que cada agente aja por si próprio, existe uma distância que não foi rompida.

Aí reside a principal dificuldade de Bolsonaro para transformar o poder militar institucionalizado em correia de transmissão de suas ambições de poder absoluto. Por mais que queira e sonhe, 2022 não é 1964 e os tanques não sairão às ruas para defender o mandatário. Ora, se não é através das armas que o poder militar é exercido, de que maneira os comandantes das Forças Armadas ajudarão Bolsonaro a construir e manter um governo autocrático? Com palavras recheadas de rancor e revanchismo não será.

Portanto, toda a estratégia do presidente tende a sugerir uma situação ameaçadora que na realidade não passa de ilusão. Embora pareça algumas vezes, as Forças Armadas estão muito longe de qualquer ação organizada que demande o uso da violência. Não existe esse compromisso de ordem unida nos quartéis. O que pensam hoje os comandantes obedece muito mais a um pragmatismo corporativo que lhes traz benefícios concretos de emprego e renda do que uma sustentação ideológica que ressuscite um projeto político derrotado em 1985.

Isto não quer dizer que os democratas de quaisquer tinturas políticas devam baixar a guarda. Devem estar atentos e não se deixar levar por brados de militares que ecoam seus fantasmas numa espécie de trauma corporativo. O Brasil possui centenas de milhares de militares nas três forças. Todos eles, em menor ou maior grau, pertencem a famílias que representam o grosso da população, ou seja, são provenientes de estratos de baixa renda. Para essas pessoas a situação é tão difícil quanto para os seus familiares civis.

Bolsonaro bem que tentou e ainda tenta estabelecer um governo autocrático, principalmente para se defender e defender aos seus familiares de eventuais e prováveis ações jurídicas. Mas, está cada vez mais longe no horizonte a possibilidade de um golpe de estado “manu militari”. A radicalização de seu discurso não é novidade e, quase quatro anos depois, Bolsonaro não é mais candidato. Ele é o presidente da República e será cobrado pelos resultados que apresenta: fome, miséria, desemprego, inflação alta, chacota mundial, incompetência administrativa. Não haverá arma que o salve. O resultado das eleições em outubro dirá.

Marco Piva é jornalista, apresentador do programa Brasil Latino, na Rádio USP e diretor de comunicação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

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2 Comentários

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José de Almeida Bispo

- 2022-04-25 22:23:56

"Diante de uma conjuntura como essa, com inflação, desemprego e fome crescentes, muitos opositores perguntam como é possível que Bolsonaro ainda detenha pouco mais de 30% das preferências eleitorais." PORQUE A OPOSIÇÃO só sabe ciscar no quadradinho que Bolsonaro lhe preparou; e, confortavelmente fica se divertindo com besteiras. A IMPRENSA SÓ FALA DE ESCÂNDALOS de grosserias de Bolsonaro; NINGUÉM FALANDO DA INFLAÇÃO GALOPANTE e da CORROSÃO VIOLENTA DOS SALÁRIOS. A imprensa tá parecendo fazer as "esculhambações" do Casseta e Planeta dos 90 com "viajando Cardoso". Ohhhhhhhh

GalileoGalilei

- 2022-04-25 21:19:41

Se em um país menos habituado a golpes, como os EUA, baderneiros, golpistas e fascistas invadiram o Capitólio, o que está sendo ensaiado, sem segredo, aqui, é uma reprodução/imitação do exemplo vindo de fora. Nosso Capitólio pode muito bem ser representado pelo STF. Se Bolsonaro perder as eleições de outubro, baderneiros armados se sentirão estimulados pelo mau perdedor a tentar ganhar na marra. Já se Bolsonaro ganhar as eleições, os baderneiros se sentirão "autorizados pelo voto popular" a despejar a sua ira armada sobre o Supremo. Nem seria necessário um cabo e um Jeep. Sem proteção policial ou das Forças Mimimadas, "desmotivadas", o resultado da empreitada produzido pela turba seria imprevisível. Não será prudente descartar o derramamento de sangue. Sustentar o golpe, entretanto, será muito difícil. Mas até serem dominados, os golpistas podem produzir muitos danos.

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