Miserês, por Wilson Ramos Filho, Xixo

Trata-se, ainda, de um miserê humano. Desavergonhados, ele e seus pares estão presos à avaliação de conjuntura a partir de seus holerites.

Miserês

por Wilson Ramos Filho, Xixo

Aquele promotor de justiça mineiro que não consegue viver com míseros 24 mil reais por mês é a síntese emblemática da Direita Concursada.

Demonstra um miserê cognitivo, não entende o mundo e o país onde vive. Teve a infelicidade de não nascer pobre, segundo afirmou. Alude à redução em seus níveis de consumo, gasta apenas 8 mil no cartão de crédito, não mais os 20 mil mensais habituais que despendia antes do Golpe. Não relaciona, todavia, uma coisa com a outra.

Padece, também, de um miserê axiológico. Os valores que comparte com outros concursados (juízes, promotores, procuradores, delegados, servidores da justiça, do MP, das polícias), e não apenas no Sistema de Justiça (estão aí os médicos como evidência), fazem com que se sinta superior aos demais brasileiros. Sobrevalorizam-se. O mérito na aprovação em concurso serve como autorização, prévia e eterna, para que ajam com soberba e arrogância.

O miserê deôntico que permitiu a autoindulgente justificação cabotina do recebimento do auxílio-moradia em valores mensais superiores à média salarial de mais de quatro-quintos da população brasileira, mesmo tendo casa própria, se repete. O paradigma dos mandarins que se apropriaram, por mérito atestado em certames públicos, do aparelho repressivo tem a ética torta que caracteriza a Direita Concursada. Confia na “criatividade” da chefia para a criação de novos pinduricalhos (diárias, auxílios-qualquer-coisa) para retirá-lo da inexistente penúria.

Trata-se, ainda, de um miserê humano. Desavergonhados, ele e seus pares estão presos à avaliação de conjuntura a partir de seus holerites. O Estado existe para garantir-lhes condições econômicas superiores não apenas à realidade do mercado de trabalho brasileiro. Daqui a pouco ninguém mais vai querer fazer concurso, vaticinou. Recebem, comparativamente, mais que o dobro do que é pago a promotores, procuradores e juízes em países ricos, na Europa e nos EUA. Não dá para ir toda hora para Miami comprar ternos, disse tempos atrás um dos líderes da magistratura.

São várias e sobrepostas as camadas de miserês que servem de capa e armadura aos mandarins que desdenham a democracia criticando “os políticos”. Não fazem por mal. Sentem-se assim, superiores. Entre eles os mais perigosos são os que, além de tudo, arvoram-se em justiceiros, em reformadores sociais, em arautos da moralidade. Um miserê danado.

Leia também:  O engano de Bolsonaro e seus mentores do exterior: o medo é maior do que o ódio, por Rogério Maestri

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Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em Direito, professor (UFPR/UFRJ), presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora (DECLATRA)

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6 comentários

  1. Acho que a miséria de valores é a que levou o Brasil aos braços do milicianos. Os engomadinhos do serviço publico, principalmente MP e Judiciario, têm muita responsabilidade no atual miserê brasileiro.

  2. 9 décadas de Estado Ditatorial Caudilhista Esquerdopata Fascista. Para que servem Procuradores? Quem controla Procuradores? Quem legisla por seus Vencimentos? Quem precisa desenvolver Tecnologias, Empresas, Empregos? Ditadura de Federações, Corporações, Cartórios,…. Ficaram indignados porque o Procurador falou a verdade? A sua verdade? A verdade brasileira de quase 1 século? Aqueles que nestas décadas todas, defenderam os ‘crápulas’, falsamente se mostram indignados? Procurador igual a Dellagnol? Procurador igual ao Engavetador Geral da República? Quem, agora, está indignado com os parceiros e cúmplices? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

  3. Sou técnico de nível superior com doutorado em universidade federal. Meus vencimentos brutos (a disposição no Portal Transparência) são de R$ 11.000,00. Menos da metade do procurador miserê. Com descontos, levo para casa R$ 7.800,00 por regime de 40 horas e bato ponto todos os dias para cumprir minha carga horária, alías, essa foi uma exigência dos procuradores federais para com minha categoria. Diga-se que esse pessoal é dispensado dessa obrigação.
    Com relação aos meus vencimentos, estão estacionados desde 2017 e, pelo que dizem os representantes do governo, não devem ter alteração durante o primeiro mandato do sr. Jair Bolsonaro.
    Devo ficar compadecido desse procurador? Acho que ele terá seu miserê reajustado ainda esse ano.

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  4. A citação de médicos é totalmente forçada.
    As carreiras públicas de médicos têm remuneração muito inferior às demais, mesmo levando-se em conta uma menor jornada semanal.
    Um bom médico implica, no mínimo, oito anos de formação intensa e em tempo integral.
    Isso sem falar na tensão e responsabilidades inerentes à profissão.
    Não tenho dúvidas de que, comparando-se médicos com mesma formação e experiência, os do setor público ganham muito menos que os da iniciativa privada (incluindo os profissionais liberais).
    Por outro lado, compare a média salarial dos formados em Direito do setor público (juízes, advogados da união, delegados, procuradores, promotores…) com a média salarial dos demais advogados. Os do setor público ganham muito mais.
    O curso de direito é um curso de meio período e de cinco anos. Até pouco tempo, de quatro anos, mas parece que como isso trazia alguma vergonha … Havia, também, muitas faculdades de fim-de-semana.
    E, sejamos francos, muitos optam pela advocacia para fugir dos vestibulares difíceis e, também, para ficar bem longe de matérias como física, química e matemática, às quais, em geral, têm profunda alergia.
    Ainda, para todo concurso público de formados em Direito, há intensa concorrência. Entretanto existem milhares de vagas em concursos médicos que não são preenchidas.
    Percebem porque pessoas “fraquinhas”, como Moro e Dallagnol, conseguem ser super bem-sucedidas em suas carreiras?
    Em síntese, não se justifica colocar médicos no meio dessa turma.
    Nota: não sou médico.

  5. De todas as figurinhas que elegeram o bolsonaro, a que me deixa particularmente revoltado é a do “funcionário público neoliberal”. Eu até tenho um certo respeito pelo liberal autêntico, aquele que ganha a vida na iniciativa privada, apesar de discordar da o fato dele ignorar aspectos macroeconômicos que fazem com que o neoliberalismo seja indiretamente prejudicial também para ele, apesar de não ter renda estatal. Eu até tolero empresários que sâo neoliberais apesar de ter crédito subsidiado, são hipócritas mas pelo menos tentam disfarçar. Agora, o cara que defende salário estatal SÓ PARA ELE, é inaceitável!

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