
Mobilidade urbana gratuita
por Augusto Cesar Barreto Rocha
Há pouco de discussão no Brasil sobre como fazer um país melhor para todos. No debate público há de tudo, com baixa densidade de discussão, com superficialidade ou obscurantismo na informação e com pouco contraste de opiniões. Há muito da visão do “mercado”, há um pouco da visão de “empresários” e há um quase nada do interesse da maioria da população.
Assim, é compreensível que, na maior parte do país, estejamos ancorados nos paradigmas de mobilidade urbana dos anos 1970-1980. Fala-se apenas em automóveis e o transporte público fica “de lado”. As bicicletas e ciclovias, depois de um tímido avanço, voltam a ser colocadas “de lado”. Assim, o volume de motocicletas cresce expressivamente e as plataformas de aplicativos toma o espaço do trânsito para quem não tem poder aquisitivo para comprar um automóvel para ficar a maior parte do tempo parado.
Assim, chama a atenção o debate público de uma mobilidade urbana gratuita. Quem sabe voltaremos com isso a ter grandes missões que interessem para a sociedade como um todo. Afinal, mesmo com o SUS, a saúde não é gratuita para todos, com uma parcela da sociedade pagando planos de saúde e a mesma coisa acontece na educação, onde as escolas públicas não estão sozinhas para resolver o problema de ensino nas cidades.
Se aumentarmos o transporte por ônibus nas cidades, o trânsito melhorará. Um projeto com esta característica terá o condão de ser positivo para todos. Afinal, os municípios, com uma estranha opção de ter poucas ou nenhuma equipe própria de Engenharia de Transportes tem ficado com um pesado e crescente fardo de subsídios, por conta da falta de mudança e modernização dos paradigmas de serviço, mesmo com todos os benefícios da Internet e dos sistemas de controle de tráfego.
As empresas e os trabalhadores que já arcam com os custos do Vale Transporte ou da passagem possuem um custo nada desprezível de seu cotidiano associado com o transporte urbano, podendo representar até 6% das remunerações, segundo a legislação atual. Montar um mecanismo de alto nível para a estruturação das cidades para o transporte público poderá ser uma revolução social e econômica. As cidades que estão congestionadas poderão repensar toda a dinâmica de uso do solo. Há aqui uma oportunidade social, econômica e ambiental. Afinal, cerca de 8 milhões de pessoas pararam de usar ônibus depois da pandemia.
Não faltarão argumentos contrários e rasos. O grande desafio que se apresenta é como acreditar que os Governos conseguirão resolver um problema nunca enfrentado com vigor no país. Depois das iniciativas de corredores exclusivos, no modelo desenvolvido pelo Arquiteto e político Jaime Lerner ou as ciclovias criadas em alguns Estados, pouco há de revolucionário ou verdadeiramente inovador neste setor. Este tipo de missão tem a capacidade de mudar as paisagens urbanas para melhor. Tomara que enfrentemos os problemas reais, que iniciarão pelas barreiras técnicas e políticas.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM
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