4 de junho de 2026

Mossoró é a nossa Alcatraz, por Marco Piva

A naturalização da morte anestesia análises mais complexas e incensa a tese de que “bandido bom é bandido morto”
Agência Brasil

Mossoró é a nossa Alcatraz

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por Marco Piva

A fuga espetacular de dois detentos do presídio federal de segurança máxima de Mossoró, no Rio Grande do Norte, virou a grande notícia dos últimos dias. A caçada aos fugitivos deve ter seu fim nos próximos dias, quem sabe nas próximas horas, ou até mesmo quando você ler esse texto, tenha terminado.

O que interessa, na verdade, é o fato em si e seus desdobramentos políticos, que pouco tem a ver com a legítima preocupação com o nosso sistema de segurança pública. Por se tratar da primeira fuga de um presídio feder al desde a sua criação em 2006, ainda no primeiro mandato do presidente Lula, a notícia não para de reverberar na imprensa e já virou conversa de botequim.

E aí mora o perigo. Quantas e quantas fugas já não aconteceram no sistema prisional brasileiro, muitas delas com cenas dignas de filmes de ação? Essas fugas sempre viram assunto nacional, mas pouco acrescentam para o verdadeiro debate sobre o estado atual da segurança pública no país.

Uma operação da Polícia Militar de São Paulo que ocorre na Baixada Santista já havia deixado o saldo de 26 mortos até a sexta-feira, 16 de fevereiro. A ação policial é tão novelesca quanto a fuga dos dois prisioneiros de Mossoró, porém muito mais cruel. No entanto, a naturalização da morte anestesia análises mais complexas e incensa a tese de que “bandido bom é bandido morto”, tão ao gosto da extrema-direita.

Lembro do filme “Fuga de Alcatraz”, clássico de 1979 estrelado por Clint Eastwood no papel de um condenado que não vê a hora de cair fora daquele presídio de segurança máxima, onde impera a violência e do qual nunca ninguém havia escapado. E quem havia tentado, foi recapturado ou morreu afogado já que a prisão de Alcatraz, conhecida como “A Rocha”, fora construída numa ilha.

No caso de Mossoró, o presídio fica numa área rural e a fuga teve um grande senso de oportunidade, o que, aliás, é critério para ser criminoso. Talvez naquela madrugada de quarta-feira de cinzas, a dupla nem pensasse que seria tão fácil sair do presídio, como certamente pensaram que seria mais difícil ainda permanecerem livres com a inevitável caçada que se seguiria num território desconhecido para eles que vieram do distante Acre.

Mas, a primeira fuga de um presídio de segurança máxima do país virou assunto nacional sem que ninguém tenha se perguntado até agora o que ocorria antes de se ter esse tipo de sistema prisional. Não haviam fugas ou exatamente por elas ocorrerem é que se pensou na criação de prisões de segurança máxima?

A política de segurança máxima não é coisa para amador e muito menos para quem só trabalha com o fígado. E aqui fica a dica para a nossa imprensa: quantos condenados passaram pelas cinco prisões de segurança máxima de 2006 até hoje? Quantos escaparam? Justifica a fuga? Não. Mas também a situação do sistema prisional brasileiro, especialmente em alguns estados, não é exemplo a ser seguido.

Marco Piva é jornalista e apresentador do programa Brasil Latino na Rádio USP. Pesquisador do Centro Latino-americano de Estudos de Cultura e Comunicação da Universidade de São Paulo.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Marcos

    19 de fevereiro de 2024 12:38 pm

    “Governo prorroga suspensão de banho de sol e visitas em presídios federais”
    Skinner e Beccaria estão se revirando no túmulo: Os caras fogem e quem sofre as consequências são os que não fugiram!?!

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