no Substack: Amanhã não existe ainda
O texto acadêmico deve andar no fio da navalha, não afastando leitores com complicações desnecessárias, nem simplificando em demasia na esperança de alcançar o público leigo.
Volta e meia vejo gente reclamando da linguagem acadêmica empolada. Eu concordo.
Há muitos textos tortuosos e torturantes, em que a obscuridade da prosa parece ter como objetivo esconder um vazio de ideias. Sempre lembro da frase de James Scott, um cientista político falecido há poucos anos: “Sou acusado com frequência de estar errado, mas raras vezes de ser incompreensível”. Esse é o norte de quem deseja de fato se colocar no debate.
Infelizmente, em muitos ambientes acadêmicos ainda vigora a ideia de que um texto impenetrável é sinal de sofisticação intelectual. Mas em geral é só confusão mental mesmo.
E isso vale mesmo para “grandes nomes”, reverenciados pelo mundo afora, tanto mais aplaudidos quanto mais incompreensíveis. A revista Philosophy and Literature manteve por apenas quatro anos um concurso de pior escrita de acadêmicos na língua inglesa. Entre seus premiados estavam Judith Butler, Homi Bhabha e Fredric Jameson. (Uma listagem com trechos das obras galardoadas é encontrada aqui.)
Russell Jacoby certa vez os chamou de “pensadores pós-coerentes”.
Fico com pena do rapaz que foi reprovado na redação da Fuvest porque escrevia enrolado demais. Ele só errou o momento. Devia ter deixado para exibir seu talento quando tivesse iniciado sua carreira de autor pós-estruturalista.
Cabe a quem escreve garantir a comunicação de suas ideias para o público. É preciso garantir que possam ser entendidas.
Se não há esse esforço, o autor peca por incompetência, preguiça ou, muitas vezes, narcisismo. O romancista mexicano Guillermo Fadanelli sintetizou: “Como um escritor pode ser tão vaidoso que pense que outros dedicarão não sei quantos anos de sua vida para compreender sua obra?”

Mas é bom lembrar também que ideias complexas – que são as ideias necessárias para entender um mundo complexo – exigem, de quem as lê, um esforço ativo de compreensão.
Marx, por exemplo, era um escritor de mão cheia e buscava ser o mais didático possível. Mas quem quiser enfrentar O capital com a mesma leitura displicente que concede a um gibi do Cebolinha certamente vai quebrar a cara.

Infelizmente, num mundo que favorece a gratificação imediata, esse trabalho parece cada vez menos atraente. Então proliferam aqueles que Bourdieu chamava de fast thinkers, que brindam seu público com simplificações e maniqueísmos.
Há muito exemplos de sucesso, nas redes sociais mesmo e também na academia.
Por fim, é sempre bom lembrar que ciência e divulgação científica são diferentes. Divulgação científica é fundamental (o que o obscurantismo hoje reinante só comprova). Sou enormemente grato a cientistas e jornalistas que fazem o esforço de traduzir, para gente como eu, descobertas e debates da biologia ou da astronomia.
Mas não espero ser capaz de alcançar a conversa entre os próprios cientistas destas áreas. Nela, o mesmo jargão que afasta os leigos é instrumento de precisão e agilidade no discurso.
As ciências humanas são diferentes, decerto, e nelas o compromisso público do cientista, que exige que fale para além de seu círculo de pares, é ainda mais premente. Mas elas também lidam com a complexidade, também têm seu acúmulo de debates, também exigem treinamento.
Creio que, por suas características próprias, muito do que é produzido nas ciências humanas pode atingir um público mais amplo. Por isso evitar a linguagem desnecessariamente técnica, rebuscada ou mesmo abstrusa é ainda mais imperativo. Mas o preço a pagar não pode ser o simplismo.
O aprendizado deste caminho – obter o máximo de clareza sem jogar fora a complexidade – não é fácil. Mas é imprescindível.
Tenho a triste impressão de que o recurso, cada vez mais disseminado, às ferramentas de produção automatizada de pastiches baseado em plágio, conhecidas pelo nome-fantasia de “IA generativa”, piora ainda mais a situação.
Escrevendo do ponto de vista de editor de periódicos, o cientista político Adriano Codato perguntou: “Quantos artigos já rejeitamos por má redação?”. A pergunta, claro, é retórica. Com várias ponderações pertinentes, ele defende que a revisão de texto por IA é boa para a produção científica.
Será? Lembremos que IA não é corretor ortográfico (uma ferramenta, aliás, que anda cada vez pior nos processadores de texto). Sua revisão é uma reestruturação do texto, mexendo com vocabulário, sintaxe e encadeamento de ideias.
Falo por experiência própria. Como eu ditava parte dos textos que publicava no Facebook no Instagram, para me poupar do esforço de digitar, durante certo tempo segui a recomendação de colegas e passei a pedir para o ChatGPT corrigir os erros de transcrição. Desisti disso porque logo ficou claro que, apesar das instruções claras, muitas vezes a IA mudava palavras ou invertia frases.
Ao mesmo tempo, o trabalho de quem lê – o parecerista da revista acadêmica, o integrante de uma banca de seleção de projetos, o professor que corrige a produção dos alunos – ficou mais árduo. Antes, a confusão mental e o vazio de ideias eram detectados rapidamente, em uma primeira leitura que nem precisava ser muito atenta. Agora, têm que ser descobertos por trás dos esquemas arrumadinhos, mas ocos, da IA.
Desde o início da minha pós-graduação, ouço a frase “seu texto está muito bem escrito” como uma crítica. Ainda hoje: se mando um artigo para uma revista e o parecer começa com esta observação, já sei que é negativo.
Parece que escrever com clareza é um defeito. Ou mostra que seu raciocínio é muito simplezinho (se não, como seria claro?) ou é um truque para esconder seus defeitos (a boa redação como diversionismo). Mas julgo que é um equívoco separar a qualidade do artigo da qualidade de sua redação.
Um artigo que não está bem escrito não pode ser um bom artigo, já que a escrita é a ferramenta básica do nosso fazer científico. Ao contrário do que, infelizmente, certa abordagem positivista deixa transparecer, ciência social não é tabela nem equação, é interpretação da realidade social – e essa interpretação é discursiva, com tabelas e equações, quando necessárias, servindo de coadjuvantes. Uma boa regressão ou boa coleta de dados podem dar base para um bom artigo, mas não fazem um bom artigo.
A qualidade do texto tem uma relação direta com a qualidade das ideias que se quer exprimir. Por isso, aprender a escrever é essencial para quem quer ser cientista social, tanto quanto não esperamos que alguém vá se aventurar nas ciências exatas sem aprender matemática.
Acreditamos – corretamente – que podemos ensinar matemática para qualquer um. Mas escrever é visto como um talento inato. A escola, no máximo, poderia ensinar gramática. Nas universidades, cursos de escrita acadêmica são muitas vezes pro forma, desvinculados das áreas de destino, superficiais, preguiçosos ou mesmo inexistentes.
Como apontou Robson Cruz, em um pequeno livro destinado a discutir como nosso sistema educacional está mal preparado para ensinar a redigir, presa de ficções mistificantes e elitistas como “dom” (O mal-estar na escrita acadêmica, publicado pela Parábola),
“a escrita não é apenas um meio de expressar o que se sabe, mas de descobrir o que se tem a dizer. Portanto, a escrita é um instrumento essencial à aprendizagem de conteúdos complexos e, por sua vez, fundamental para a geração da autonomia intelectual de todo(a) participante das sociedades letradas”.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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Gaspar Alencar
9 de abril de 2026 8:33 amLuis Felipe Miguel, li alguns textos de vossa pena aqui no GGN e o sobre a morte trágico de RF e AR, me chamaram a atenção. A questão da formação intelectual dos indivíduos. Como essa base é construída – eu digo sem medo de pecar. Que sou socilialista pq minha mãe é socilialista e na nossa convivência, observava que as atitudes delas é de uma genuína socilialista. É Claro que com a leitura esse conceito foi se cristalização. Então, tem como ser comprado por uma outra filosofia – é paixão, é alma! Mas, eu tenho amigo que gostava de usar essa expressão ” nem prolixo. Nem pro lixo” fazendo referência a ser entendido. Como dizer as coisas sem querer parecer o que não se é. É o segredo da escrita e da comunicação. Precisamos sair do estado de subserviência com vemos escancarado na foto do ex-presidente e HN. Uma fidelidade subserviência – não fidelidade dos canideos.
Rui Ribeiro
9 de abril de 2026 8:44 amQue tal em vez do Hermetismo, Paschoalismo?
Acho que facilitar demais prejudica a ciência e ainda mantém a população medíocre, não forçando-a a aprender novos conceitos e definições. Mas tudo, claro, com a Navalha de Occam podando os excessos/supérfluos.
Rui Ribeiro
9 de abril de 2026 8:51 amLuis Felipe Miguel, você disse: “Tenho a triste impressão de que o recurso, cada vez mais disseminado, às ferramentas de produção automatizada de pastiches baseado em plágio, conhecidas pelo nome-fantasia de “IA generativa”, piora ainda mais a situação”.
Essa piora deve ser atribuída à IA Generativa ou ao seu usuário? Ou a ambos?
Antonio Uchoa Neto
9 de abril de 2026 4:44 pmNa minha visão, o problema não é “nem hermetismo, nem simplismo”; é “nem escrita.”
Há anos venho dizendo que essa parafernália infernal (algoritmo, IA, redes sociais, tiktoks e kwais) não veio para ajudar, mas para substituir. O ser humano, naturalmente.
Esse longo braço da mediocridade alcançou agora a mim, também, como escritor.
Há muitos anos, tratando de comunicação e informação, falava-se de horizontalidade e verticalidade da informação. E há alguns anos, escrevi isto:
‘Hoje, apenas subsiste a recém-instalada planalidade da informação. A horizontalidade cumpre uma função estatística, quantitativa, e de convite ou introdução à verticalidade; no caso da planalidade, o enunciado basta-se a si mesmo. A horizontalidade fica a critério do maior ou menor apelo do que é informado (…) a planalidade cumpre uma função indispensável aos tempos atuais, a de resumir e desbastar a informação, reduzindo-a ao que nela é útil para o objetivo prático de quem informa, e eliminando o que, nela, pode servir como estímulo ao raciocínio. A verticalidade é, desde sempre, vítima da aversão, hoje generalizada neste mundo, às complexidades de raciocínio e necessidades de aprofundamento interdisciplinar para melhor entendimento das razões da existência do objeto da informação. Para as duas circunstâncias, a brevidade bidimensional (tempo e espaço) das referidas redes sociais e aplicativos parece ser o bastante. Já a planalidade é autossuficiente, e dispensa as dimensões, quantas quer que sejam estas, ou as que venham a ser descobertas. Em Fenomenologia do Desempregado, faço, em nota de pé de página, uma observação referente à crescente necessidade de sinteticidade nas comunicações humanas, de qualquer natureza, oral, escrita, ou digitada:
“Há não muito tempo, o desempregado constatava, com alguma desolação, que os participantes do grupo de whatsapp da esposa (grupo para o qual não entrara, fora ‘entrado’ por ela) queixavam-se de textos muito compridos – chamados ‘textão’ – cuja leitura tomava muito tempo; ultimamente, ele tem constatado que a queixa é contra a publicação de vídeos, quando estes tem mais de dois minutos de duração. É muito tempo, dizem. E o desempregado, já agora totalmente desolado, questiona-se, junto aos seus botões, qual a próxima atividade cognitiva humana a ser sacrificada diante do altar da Falta de Tempo.”
‘Vê-se, portanto, que tanto a horizontalidade quanto a verticalidade da informação, hoje, são indiferentes às necessidades de comunicação humana; a informação basta-se a si mesma, independentemente de seu conteúdo. A veiculação, e suas consequências, a saber, compartilhamento, likes, etc., são o suficiente para atender o objetivo da monetização, hoje a cavaleiro da informação, e, portanto, da verdade e do significado. Apenas, e em relação às suas antecessoras, o jornal, o rádio, a televisão, em uma palavra, a Mídia Corporativa, não há o objetivo declarado de informar e municiar a iniciativa crítica do leitor. É o bastante tornar pública a informação, que, dessa forma, incompleta e frequentemente enviesada, pariu sua filha dileta: a desinformação. As assim chamadas fake news, hoje, são apenas a nova e comercial roupagem de um hábito milenar do ser humano: falar da vida dos outros, e, na medida do possível, prejudicar ou atacar esses outros, falsificar-lhes a existência, tomar-lhes o lugar, fazer crescer o próprio poder às custas da supressão, paulatina e sub-reptícia, do único poder de quem está na outra ponta: o raciocínio crítico. Quando este existe, evidentemente. O último inimigo, ainda de pé, deste objetivo, está na alça de mira: as palavras. A imagem – e sua tradução mais sintética e eficaz, a manchete, assume essa função. Em medida astronomicamente superior à velha e popular fofoca, com a qual são frequentemente comparadas, as fake news – e os numerosíssimos idiotas que nelas acreditam – sempre estiveram aí, campeando soltas. A diferença é que, antes, em tempos pré-algoritmicos, uma fake news produzida em um subúrbio do Recife (minha cidade natal), ou em Coyoacán, ou ainda em Istanbul, levava semanas, meses, talvez anos, para dar a volta ao mundo, e se fazer conhecida, e produzir seus efeitos. Hoje, qualquer estupidez ou perversidade, que saia, por exemplo, do esgoto mental de quem se dedica a essas farolagens da mente humana, em poucos minutos está na web. E o tempus loquendi da Bíblia Sagrada fica sem seu companheiro, ex-inseparável, o tempus tacendi. O silêncio, propício à reflexão, não dá lucro.
Não só a terra é plana; a informação também é. Ou, melhor dizendo, não só a terra voltou a ser plana, mas a informação também. Ela não aprofunda, apenas expõe; e mesmo que o que seja exposto não seja claro, ou coerente, ou minimamente observável e demonstrado, na natureza e nas relações humanas, não importa; a informação não tem mais o papel de informar, senão de propagar e despertar os sentimentos mais arraigados no inconsciente coletivo dos homens, no que este tem de mais primitivo, destrutivo e cego; e isto é, evidentemente, o ódio. A informação, hoje, assemelha-se muito a uma diminuta quantidade de cocaína que se dá a um cão policial farejador, para que ele encontre a carga escondida; ao encontrá-la, o animal absolutamente se desinteressa pelo achado, cabendo ao seu agente dar prosseguimento à ação; assim é com a informação: a imagem é exposta ao seu público-alvo, que imediatamente se infla de ódio e desprezo, e ataca, persegue, encontra e entrega o objeto da informação – desse momento em diante, aquele que difunde a imagem se encarrega da perseguição, eliminação, ou custódia do que é indesejado.
Uma das coisas que estão sendo farejadas por esses cães são as palavras. Seu destino, seja qual for, ainda é uma incógnita, mas os prognósticos mais plausíveis não são muito animadores. Isso é uma constatação; espero que não venha a se tornar uma advertência.’