21 de maio de 2026

O Agente Secreto – a obra-prima do anticlímax, por Solange Peirão

Emociona o cuidado do roteirista com o papel que a Memória Oral desempenha no trabalho de investigação e registro da História.
Reprodução

O filme “O Agente Secreto” destaca o papel da Memória Oral na investigação histórica, com cenas que emocionam pesquisadores.
A narrativa expõe a morte de Marcelo/Armando via notícia de jornal, ressaltando a importância das fontes documentais tradicionais.
O encontro entre Flavinha e Fernando revela a transmissão de histórias pessoais e a fragmentação da memória histórica.

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O Agente Secreto – a obra-prima do anticlímax

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por Solange Peirão

Desta vez quem falará é a historiadora. Tenho dado, publicamente, algumas palavrinhas, alguns palpites, sobre cinema, longe da desenvoltura própria de um crítico. Para tanto, sei que é preciso uma extensa formação, como em qualquer outra área do conhecimento. No meu caso, são apenas impressões de quem é amante da sétima arte, simplesmente.

E desta feita, me alegra justamente fazer algumas considerações sobre O Agente Secreto, em facetas do filme desacreditadas por vários críticos, mas que fazem parte dos meus atributos profissionais. Trata-se da inserção das pesquisadoras que para mim, e para muitos companheiros de trabalho, levou-nos às lágrimas. Explico o porquê.

Emociona o cuidado e o detalhe atencioso com os quais o roteirista Kleber Mendonça Filho e seus assessores cuidaram do papel que a Memória Oral desempenha no trabalho de investigação e registro da História. Foi primoroso, e exemplifico.

A primeira introdução se deu, mais no início do filme, logo após a cena bem sacada da “feirinha dos refugiados”, situação que configura o prédio, quase pensão, de D. Sebastiana, e a condição de exposição pública limitada de seus moradores. Aqui, duas pesquisadoras aparecem debruçadas sobre fitas cassete. Sim, quantos de nós, historiadores, não nos engalfinhamos com as teclas de um gravador, ouvindo repetidamente depoimentos diversos? Isso me jogou, de cara, para o passado, lembrando-me de uma querida pesquisadora, Marly Rodrigues, que costumava enfatizar: “não se trata de depoimento, mas de entrevista, depoimento a gente dava no DOPS”. Que seja, então, entrevistas. E nesses suportes documentais frágeis, as fitas cassete, sempre se colocava para nós a questão do registro temporal. Assunto que Flavinha e Dani estão apontando: sim, tratava-se ali de um Brasil de 1977 e 1978, “uma época cheia de pirraça”.

As demais intervenções ficaram todas concentradas na meia hora final, e é essa sequência que muitos consideram como desnecessária: a tal quebra do clímax que expõe a morte de Marcelo/Armando.

Flavinha, inquerindo Dani, pergunta-lhe se deu continuidade ao trabalho e foi pesquisar “o que aconteceu com essas pessoas”. A resposta vem rápida e pode até estremecer levemente os pesquisadores mais velhos: “tentei dar um google, mas não achei nada lá”. Ao que Flavinha responde: “essa galera é pré-google, tem que ir nos jornais, só que é bem mais trabalhoso”. Sim, senhoras e senhores, é preciso sujar as mãos e a roupa, se encher de pó, e se debruçar sobre as fontes escritas que complementam a pesquisa que as fontes orais disponibilizam. É certo que em muitos lugares, os arquivos estão mais limpos, são bem-organizados, e até oferecem cópias digitais. Mas daí chegar à nossa casa, via internet, já é bem difícil; e considerar esta possibilidade, quase sempre arrisca o rigor que se espera de um profissional do ramo.  

O curioso é que mesmo assim, Kleber Mendonça Filho optou por colocar a morte de Marcelo/Armando nas mãos de Flavinha, por meio de uma notícia de jornal e, pasmem, contra todas as expectativas, pinçada “dando um google”. Ou seja, o clímax do filme não se deu por meio da ação filmada. Será que se tratou de uma jogada para enfatizar os quão imensamente especiais, fortes e representativos, foram os fatos nessa fase catastrófica da nossa história, por isso ele acabou por reverenciar esse tipo de fonte documental, tão cara aos historiadores? Afinal, lembremos dos inúmeros momentos em que as páginas dos jornais marcaram presença no filme: o destaque para as peripécias da “perna cabeluda” que acabaram por render a bela cena em que a angolana Teresa Vitória lê, para seus amigos, sobre suas investidas no Parque 13 de Maio; as folhas dos jornais também aparecem cobrindo o cadáver de um dos abatidos na perseguição, entre os matadores, enquanto as manchetes apontam para a quantidade de mortos nos festejos de carnaval.

Além do que, a morte noticiada de Marcelo/Armando permitiu dar vazão às práticas criminosas de adulteração dos fatos que podem estar a serviço dos poderosos: nosso protagonista, na verdade, acabou se transformando em um pesquisador, acusado de corrupção. E perguntamos se a velha imprensa escrita já não prenunciava o trabalho poderosíssimo das fake news, pelos meios contemporâneos de divulgação.

O encontro da pesquisadora Flavinha com Fernando de Melo Solimões, o filho de Marcelo/Armando, só fez coroar essas considerações que fizemos a respeito das fontes documentais; e mais, vêm elucidar a transmissão das histórias pessoais entre gerações e a importância dessas histórias quando elas têm um alcance social mais amplo.

A introdução da conversa entre ambos aconteceu com a informação passada por Flavinha de que Marcelo/Armando buscou conhecer, insistentemente, a identidade da mãe nos arquivos de registro civil, na instituição onde trabalhava. Embora desconhecendo esse fato, Fernando mostrou conhecer dados básicos sobre a avó: o apelido era Índia, enquanto seu avô era conhecido como o “homem bonito” que a engravidou. Para além das referências raciais com ares de preconceito, o “homem bonito” era filho de brancos endinheirados; Índia era a serviçal da casa, “quase uma escrava”. A criança nascida, Marcelo/Armando no caso, acabou sendo criado pela família rica do pai.

E aqui, não posso deixar de relembrar a história narrada por Lenira Maria de Carvalho, uma importante liderança pernambucana do movimento nacional de organização sindical das empregadas domésticas no Brasil, que tem história similar e, como ela, a de tantas e tantos nesse País afora. Relatei essa trajetória de Lenira em comentário ao filme Que horas ela volta? de Anna Mulayert. *

Os diálogos que se seguiram são marcantes para confrontar uma dualidade. De um lado, Fernando que conhece pouco sobre sua própria história, que pode até ter esquecido muita coisa, que teme relembrar ou vir a conhecê-la; de outro, Flavinha que, através da investigação, “conhece mais sobre meu pai, do que eu memo”, como afirma Fernando.

É interessante como Wagner Moura soube se transmutar para incorporar a figura, por vezes relutante, por vezes temerosa, por vezes leve e até indiferente, de Fernando. Flavinha, encarna a pesquisadora apaixonada por seu objeto de pesquisa. Nessa sequência, há uma primorosa observação sua, quando ela confessa que copiou todos os arquivos, ao ser pressionada a devolver o acervo. Flavinha entrega o pen drive a Fernando, e a câmera foca nessa pecinha frágil que já teve um status de meio interessante de guarda e transmissão de arquivos: “aqui você tem a voz do seu pai, o que seus amigos diziam sobre ele”. De certo, os roteiristas não deixaram de registrar o caráter fragmentário da memória, e que o significado da entrevista, enquanto fonte documental, reside justamente nas lembranças imprecisas e emocionadas: “escutar a voz do seu pai…”

Na despedida de ambos, alguns consideram que houve excessos no roteiro, por ser a hemoclínica justamente o local onde outrora era o cinema Boa Vista, (um Kleber ainda contaminado por seu belo Retratos Fantasmas, talvez), e onde Fernando assistiu, na infância, ao filme Tubarão. Mas perdoa-se esse excesso, seguido do acerto seguinte, quando ambos recordam a Praça Chora Menino com a beleza desse toponímico. Ali, é o local próximo de onde moram os parentes de Flavinha. E ao tocar na parentela pernambucana dessa viajante sulista, lembrei da cena que abre o segmento intitulado Transfusão de Sangue: Flavinha olhando a bolsa com seu próprio sangue. Transfusão de sangue? Ou será de identidade e memória?

* https://jornalggn.com.br/cidadania/dia-nacional-da-empregada-domestica-por-solange-peirao/

Solange Peirão – Historiadora e Diretora da Solar Pesquisas de História

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