Sobre como detectar bons e maus filmes
por Solange Peirão
Em tempo de premiação, fica-se exposto, mais do que em outros momentos, a uma avalanche considerável de oferta de filmes, alguns excelentes, a grande maioria apenas bons, e alguns que passam sob pequeníssimo impacto.
Uma medida simples, ou um termômetro eficaz, que sinaliza se um filme me agrada, em outras palavras, se de alguma forma toca corações e mentes. É quando sinto, por alguma razão boba, vontade de parar de assisti-lo ou, se no cinema, brota uma inquietação para que acabe logo.
Encarei alguns dos filmes do momento.
Frankenstein, vi a primeira parte, a da sua criação; levei alguns dias para retomar a fase de descoberta das coisas caras aos humanos: sentimentos e a linguagem da comunicação corriqueira.
O filho de mil homens, se tem por primícia encarnar certas dores da humanidade, como pode sugerir a relação do título com Cristo, “o Filho do Homem”, veio expô-las em fragmentos narrativos desprovidos de um fio condutor que transcende e dá sentido ao conjunto. Daí que um solitário, uma criança órfã, uma mulher e um homem à procura de vida livre de preconceitos podem se tornar apenas um baita cliché de uma nova formação de família nuclear. Nem as bonitas paisagens brasileiras, e nem as escolhas exóticas dos figurinos e da ambientação, à la Almodóvar, seguraram a onda.
Foi apenas um acidente, o iraniano que confronta ex-prisioneiros políticos com seu “possível” torturador, e seus dilemas: reconhecem, ou não, tratar-se de seu perverso algoz? E que destino dar a ele: vingança fatal e aniquiladora ou perdão? Confesso que só fui capaz de uma leitura superficial, marcada por pequeníssimo impacto. Até que li uma das mais bonitas críticas sobre um filme, escrita por um dos editores do site português À Pala de Walsh, Ricardo Vieira Lisboa, https://apaladewalsh.com/2025/11/foi-so-um-acidente-inversoes-e-contrapontos/. Vou rever o filme, sem pressa, e vou correndo rever o contraponto citado que, de primeira, já havia amado sem restrições, Gosto de cereja, de Abbas Kiarostami. Amar de primeira, sem necessidade de muitas considerações (dos críticos, digo), já não é um bom parâmetro de que o filme cumpriu seu papel, da narrativa aos ingredientes próprios dos audiovisuais? Então, qual seria o papel da crítica?
Três amigas, filme francês que acabei assistindo, alertada por indicação do mesmo site português, naquelas listas dos mais votados no ano que termina. Impressiona a capacidade intrincada, racional e discursiva, da narrativa, meio própria do cinema francês. Apesar de francófila assumida, confesso que estava um pouco cansada, no meio do filme. Interrompi, mas voltei algumas horas depois, curiosa para saber que destino os roteiristas dariam àquele emaranhado das relações afetivas que tem nas amigas, sua centralidade. Apesar de louvável a questão abordada, amor/paixão ou amor/companheirismo, achei duvidoso precisar recorrer a um narrador fantasminha (não teria o cinema recursos imagéticos, sonoros mais interessantes?) para tratar do dilema, e sem necessidade de um recurso verbal explícito.
Filmes aos quais assisti de supetão, ou quase.
Misericórdia, fui sem respirar, e dando voltas à cabeça; na linha do discurso prolixo, aproveitem para comparar os franceses, e a evidente superioridade desse. Esteve por pouco tempo em cartaz nos cinemas brasileiros, mas é um dos primeiros filmes, nas listas dos cinéfilos.
Uma batalha após a outra, parei um pouquinho, para jantar; mas reitero duas coisas: a sensação inacreditável de que não se trata de distopia, é o mundo real, atual, americano; Leonardo DiCaprio é mesmo um grande ator; me impressiona, desde jovem no papel do autista em Aprendiz de sonhador, como ele sabe se adequar, à perfeição, ao mundo interno de seu personagem.
Sonhos de trem, passei por ele sem pausa e misturando um sentimento de paz, beleza e leve angústia; temas simples que tocam direto o coração, e uma aulinha de como costurar uma narrativa em harmonia com os recursos próprios do cinema; não é à toa que o fotógrafo brasileiro Adolpho Veloso foi agraciado com premiação recente.
Já viram o filme zambiano Sobre tornar-se uma galinha d´Angola? Filmaço.
Solange Peirão – Historiadora e diretora da Solar Pesquisas de História
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