5 de junho de 2026

O fantástico mundo das joias sauditas, por Saulo Barbosa

Perguntar não é crime: Por que trazer presentes escondidos? Não era mais fácil ter declarado e resolvido tudo?

O fantástico mundo das joias sauditas

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por Saulo Barbosa Santiago dos Santos

Tudo começou no dia 26 de outubro de 2021, um mês antes de Bolsonaro vender, sem licitação, a refinaria baiana Landulpho Alves por R$ 10 bilhões, metade do preço que valia. Voltando de viagem, Marcos Soeiro, assessor do ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque, tem sua bagagem revistada e nela encontraram dois itens valiosos. Primeiro, um colar de R$ 16 milhões, mais caro do que a coroa da rainha da Inglaterra, e o outro um cavalo com patas quebradas que custa R$ 400 mil. O agente da receita federal questionou o assessor sobre os itens e ele logo apontou para o ministro que viera atrás. O ministro e almirante Bento Albuquerque, informara que desconhecia os itens porque estavam dentro da bolsa e que ele recebera a bolsa por agentes sauditas como um presente para Michelle Bolsonaro. Depois disso, por meses, inicia-se uma fantástica história de joias sauditas.

O delegado alfandegário, Mario de Marco Rodrigues, que já monitorava as viagens de Albuquerque, desconfiou de tudo e barrou a entrada das joias. Deixou claro que dali elas só passavam respeitando as leis: 1 – Pagar 75% do valor delas, ou, 2 – Declarar que eram bens do Estado Brasileiro, portanto, não poderiam ser de Michelle Bolsonaro. A questão é que um conjunto de joias para uso pessoal é descabido como um presente para o Estado brasileiro, onde colocariam estas joias? Numa das estátuas ou bustos nos corredores do planalto? No pescoço das avestruzes palacianas? No final, nenhuma coisa, nem outra, tentaram por oito vezes, inclusive através de militares de alta patente, retirar os objetos, todas sem êxito.

O casal Bolsonaro não demorou muito a se defender, Michelle fez chacota nas redes sociais dizendo que não tinha joia alguma, por sinal, também não eram dela os cheques de Queiroz e a cirurgia para implante de silicone nos seios paga pelo próprio cirurgião, a mulher é um fenômeno, não paga contas vultuosas, sempre há alguém que faça isso para ela. Jair foi mais enfático afirmando que não sabia de nada disso, como sempre, não sabe de nada. A dupla da lava jato, Sérgio Moro e Dallagnol, sequer comenta o absurdo, Damares muito menos. Deixaram o cargo de passar pano para os jornalistas da Jovem Pan e CNN.

Toda esta celeuma gera dúvidas, afinal, perguntar não é crime: Por que trazer presentes escondidos? Não era mais fácil ter declarado e resolvido tudo? Como Bolsonaro não sabia da situação quando a oitava tentativa de retirar os produtos, sem pagar nada, ocorreu no dia 28 de dezembro de 2022? Por que a refinaria foi vendida tão barata e sem licitação? Houve outra maleta, um segundo “presente” dado pelos sauditas, também milionário, que estava nas mãos do ex-presidente e devolvido sob ordens do TCU porque não foi declarado o caráter dos objetos e ainda entrou ilegalmente no país em 2021. Pelo jeito, o velho hábito de confundir o público do privado desde a época que o capitão era um vereador “expulso” das forças armadas não acabou.

A ação do delegado Mario de Marcos torna as coisas mais didáticas quando buscamos entender a fala de Paulo Guedes em pôr uma granada no bolso do inimigo enquanto lhe abraça. A direita odeia funcionário público estável, se o delegado fosse um agente terceirizado, facilmente cederia aos assédios dos militares que tentaram retirar as joias, por sorte, tínhamos um profissional corajoso fazendo seu trabalho alfandegário no aeroporto. Há ilícitos para serem investigados e só a autoridade competente pode dizer se houve ou não violação, poucas vezes na história do Brasil um item milionário foi dado de tal forma, como se fosse muamba.

Se o casal Bolsonaro estivesse na razão, tudo estaria resolvido, as joias estariam no lugar devido e explicaria normalmente o ocorrido, porém, as coisas estão acontecendo de forma obscura por cinco fatos: 1 – Uma joia foi dada a uma mulher que não sabia da existência do presente; 2 – o ex-ministro entra em contradição quanto ao endereço das joias afirmando à polícia federal que o destino era para Michele Bolsonaro; 3 – a necessidade de Bolsonaro em contratar uma defesa e negar o conhecimento dos fatos; 4 – tentou-se retirar oito vezes as joias; 5 – uma importantíssima refinaria foi vendida pela metade do preço.

Acha que esta é a primeira vez que o ex-presidente tenta trazer ilegalmente ao Brasil objetos de valor da Arábia Saudita? Não. Bolsonaro foi multado pela Receita Federal em 2019 por tentar entrar no Brasil com 10 relógios e 2 braceletes de ouro, avaliados em mais de R$ 600 mil, sem declará-los às autoridades alfandegárias. Segundo as informações divulgadas pela mídia, as joias foram compradas por Bolsonaro durante uma viagem que fez à Arábia Saudita. A entrada no país de bens acima de um determinado valor deve ser declarada e, se for o caso, pagos os impostos devidos. Caso contrário, configura-se uma infração administrativa passível de multa, que foi o que aconteceu com o ex-presidente. A multa foi de 50% do valor das joias, ou seja, cerca de R$ 300 mil.

Tudo é muito fantástico e irônico, tivemos um presidente “imbrochável” que no passado gritava para todos os lados que sonegaria o Estado tanto quanto fosse possível, que não negociava com ditaduras a ponto de não aceitar cinco caminhões com 130 mil litros de oxigênio para ajudar Manaus na crise pandêmica, no entanto aceitou joias milionárias da ditadura árabe e chora constantemente acuado no exterior. Quando uma história contém contradições, ilegalidades e insensatez, uma coisa é certa, a família Bolsonaro está envolvida.

Saulo Barbosa Santiago dos Santos – Guarda Civil, Professor de filosofia e Autista

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

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  1. GERALDO GALVAO FILHO

    27 de março de 2023 10:41 am

    A minha percepção sobre esses acontecimentos, a partir da apreensão das joias no desembarque do Bento Albuquerque até o seu depoimento na PF, é de que o fato de ser uma joia feminina não tem nada a ver com a Michelle: Uma joia é a maneira menos volumosa de introduzir no país 3 milhões de Euros, do que cédulas. As investigações devem continuar inclusive admitindo a possibilidade de relacionamento com a venda da refinaria Landulpho Alves para os Emirados Árabes pela metade do preço de mercado.

  2. Rui

    27 de março de 2023 12:45 pm

    Por que trazer presentes escondidos? Não era mais fácil ter declarado e resolvido tudo? Bolsonaro responde: “Ora, eu teria que pagar 50%, ou teria que pagar R$ 8 milhões. Da onde arranjar R$ 8 milhões, meu Deus do céu? Eu sou um cara, sou uma pessoa que não tenho bens para bancar tudo isso aí. Ponto final”. – Bolsonaro

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