O fim do meio: O mundo enquanto espelho e a guerra
por Fábio C. Zuccolotto
Ao falar dos bombardeios, mortes e destruição que o seu país, junto ao governo neonazista de Israel, está promovendo no Irã, o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse esperar que o povo iraniano aproveite o que classificou como uma “oportunidade incrível”.
Reconhecer a morte, a destruição e a aniquilação (do outro, evidentemente) como uma “oportunidade incrível” é a síntese do arranjo psíquico erigido do terror interno no qual vivem os habitantes do deserto fundamentalista. É aquilo que tenta se apresentar sem mediação, se expressar a partir da falta. Da ausência, tanto do pensamento crítico, quanto da capacidade de transitar simbolicamente no mundo exterior, na cultura, campo da infinita expressão da espécie humana.
Evidentemente, da pluralidade ocasionam-se os choques entre as diferenças, os conflitos entre os tantos desejos. Por isso, o que difere um bebê recém-nascido de um adulto é que o primeiro vive o terror da não simbolização, experimentado pela ausência do corpo da mãe, que ele sente ser uma extensão do seu próprio corpo, enquanto o segundo já foi introduzido no mundo exterior, físico e simbólico, e compreende (ao menos deveria) que ele e sua mãe são pessoas distintas, assim como ele o é em relação a tudo o mais que não seja ele próprio.
A expressão “oportunidade incrível” não é, portanto, um ato falho, que, contornando as barreiras da civilização e da cultura internas ao indivíduo, revelaria o desejo oculto dos governos Trump e Netanyahu. A saber, respectivamente, de construírem uma rota alternativa à nova rota da seda chinesa e fazerem frente ao BRICS na nova geopolítica e, para tanto, forjarem o delírio da Eretz Israel, avançando sobre quase todos os países da região. Estes seriam os fins, o desejo, e não os meios.
Contudo, é precisamente neste ponto que reside a questão: ao pensamento fundamentalista totalitário não há meio, palavra ou mediação. Apenas fim, meta pulsional.
Com um núcleo semântico focado na posição central, a palavra “meio” origina-se do latim medius, que significa aquilo “que está no meio”, “central”, ou “metade”, enquanto “mediar” deriva do latim mediare, que significa “dividir ao meio”, “estar no meio”, “servir de mediador” ou “intervir”.
Na cartografia do ódio, o fundamentalista parte, desta forma, do seu vazio, da sua ausência e do seu terror interno para intervir no mundo externo; porém, não enquanto um mediador, senão somente como aquele que impõe, impera.
Notem, o fascista e o neonazista não se sentem <no> mundo, ou enquanto parte dele e da espécie humana. Eles se sentem cercados <pelo> mundo. De tal forma, que, tentando abolir o meio, a mediação, o que buscam é abolir a ameaça que reconhecem neste próprio mundo, em um delírio de potência e de uma impossível identificação total entre o seu desejo e tudo o que é externo aos seus frágeis e rudimentares psiquismos.
Neste sentido, muito além da pobre retórica inflamada que tenta preencher o vazio das suas ideologias, a amarração do totalitarismo é a representação da identificação do mundo interior do déspota com o mundo exterior. A representação desconexa, posto que sua simbolização é precária, de como ele se reconhece quando tudo parte dele e volta pra ele, como em uma psicose. A totalização do seu inferno particular.
Repito: ao falar dos bombardeios, mortes e destruição que o seu país, junto ao governo neonazista de Israel, está promovendo no Irã, o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse esperar que o povo iraniano aproveite o que classificou como uma “oportunidade incrível”. Isto não é um ato falho, mas a própria passagem ao ato de quem só se reconhece na morte e na destruição.
Assim, com o ataque ao Irã, o fósforo, aceso pelo avanço da OTAN sobre a Rússia e pelo ataque do Hamas, facilitado pelo governo Netanyahu para pretensamente legitimar o projeto sionista ortodoxo supremacista, foi jogado pelo império decadente no barril de petróleo e pólvora do Oriente Médio, ou Ásia Ocidental (importante nomenclatura para compreendermos o deslocamento da força gravitacional no novo arranjo da geopolítica).
A espécie humana foi deliberadamente lançada no abismo por aqueles que não sustentam a própria condição existencial. Provisoriamente, eles já venceram, ao rasgarem a fantasia civilizatória ocidental diante do espelho, implodindo a ONU. Na desordem global, a partir de agora, não haverá mais meio ou mediação possíveis que possam enfrentar a violência e o terror sem as próprias violência e terror.
Entre ditadores, neofascistas e neonazistas, este estado das coisas não nos chega por falta de alertas, no mais, abundantes desde o início da nova ascensão destas nefastas ideologias totalitárias, catapultadas pelo capital após a crise mundial de 2008.
Que reste nítido a um possível futuro indexado pelas Big Tech: os agentes provocadores da terceira guerra mundial que desponta no horizonte dos próximos anos são os representantes de todo o aparato cultural ocidental das ditas “democracias liberais”, da sua plutocracia e do antigo neoliberalismo, desmascarado em sua explícita violência ultraliberal contemporânea.
Todos aqueles que não suportam ver nascer e prosperar um novo mundo multipolar e plural que não lhes sirva como espelho.
Um adendo evidente, porém necessário, a propósito de Trumps, Bolsonaros e Netanyahus: toda essa dinâmica cabe também ao ditador da esquina mais próxima. Afinal, a propaganda do medo é a alma do negócio.
Quanto a isto, ainda nos resta o voto e a presença física nos espaços públicos. Por isso, é essencial que tenhamos a precisa dimensão de que ambos não são uma condição natural dada, mas uma sustentação sociopolítica que sempre pode se romper.
Sobretudo, quando corações, olhos e mentes estão distraídos, por exemplo, com Big Brothers, Copas do Mundo, memes e trends de redes sociais virtuais.
Fábio C. Zuccolotto é psicanalista clínico, cientista social e escreve no Café com Pepino.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário