15 de julho de 2026

O nome exato é xenofobia, por Alceu Castilho

Nós que já tínhamos nos datenizado tanto estamos nos tornando o Galvão Bueno, o mentor intelectual do ódio aos argentinos.
Reprodução

O Brasil vive um movimento de xenofobia contra a Argentina, envolvendo políticos e torcedores de diferentes espectros.
Jornalistas e cidadãos propagam discursos falsos e comparações infundadas contra jogadores argentinos, ampliando o ódio.
O autor destaca a ignorância histórica e o preconceito, lamentando a deterioração ética e o desprezo pelo povo argentino.

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O nome exato é xenofobia, por Alceu Castilho

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O que está acontecendo no Brasil em relação à Argentina leva o nome exato de xenofobia.

Esse movimento fascista de demonização do país vizinho, não somente da seleção argentina, de um jogador específico ou um grupo de torcedores.

Movimento só de “patriotas”, daqueles do campo político oposto? Não. Sinto muitíssimo, a rigor ando desolado mesmo, com a participação efetiva de parte da esquerda brasileira nessa vergonha.

*

E não estou falando do post de Fulano ou da teoria conspiratória propagada por Beltrana. Estou falando de centenas de posts e milhares de comentários que tenho visto nos últimos dias.

A desfaçatez é tamanha que jornalistas formados, bípedes que deveriam prezar por um mínimo de seriedade, chegam a proclamar que o jogador tal da Argentina, vítima de uma entrada para cartão amarelo no jogo contra a Suíça, é “desleal”. E que o jogador expulso simulou “porque ia apanhar”.

Ou comparação de Messi com aquele primeiro-ministro genocida.

É uma sucessão cada vez maior de absurdos, de desafios estridentes à lógica, ao bom senso e à necessidade de não embarcarmos em certos linchamentos coletivos.

Melhor seria se fosse só dor de cotovelo, mas vejo alguns resquícios de ética naufragando neste país, neste triste mês de julho. Nós que já tínhamos nos datenizado tanto estamos nos tornando o Galvão Bueno, o mentor intelectual do ódio aos argentinos.

*

Sempre que vou para a Argentina, e vou bastante e sou bem recebido, converso com as pessoas do povo. E vejo os olhos deles brilharem quando dizem que sonham conhecer o Brasil, conhecer nossas praias, viver nossa cultura.

E é claro que não estou falando dos fascistas argentinos, fascistas que existem em qualquer canto. Mas do povo argentino, em boa parte mestiço, dos trabalhadores, colocados de forma hedionda por parte de nossa intelligentsia no mesmo balaio de canalhas — canalhas de qualquer nacionalidade.

O ator argentino Ricardo Darín cunhou em 2020 a expressão “pandemia de pelotudos”. Adoro. Que agora ganha a companhia desse choque de xenofobia, desse desprezo por nossos vizinhos abastecido por profundas ignorâncias históricas.

Não entendem nada de Argentina. Necas. Lhufas. Mas esses boludos fundamentais saem repetindo por aí barbaridades que bem poderiam ser ditas (e estão sendo ditas) por pelotudos do nosso campo político oposto. E com raiva ou desprezo.

Desprezo indefensável, mas com aquele curioso orgulho de pertencimento à manada de linchadores.

*

No momento, o que sinto é proporcional ao meu amor pela América Latina: um profundo e terrível sentimento de vergonha alheia.

Aviso: não vou debater aqui com xenofóbicos. E nem com torturadores de informações.

E se você é um idiota que está xingando brasileiros que torcem para a Argentina, recolha-se à sua insignificância.
E pode se retirar.

Aqui permaneço com os que tenham um mínimo de bom senso.

Alceu Castilho é jornalista e diretor do De Olho Nos Ruralistas.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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