13 de junho de 2026

O outro lado do doisladismo, por Paulo Roberto Pires

Ao vender leniência como pluralismo, a imprensa alimenta a extrema direita que busca silenciá-la
'The Yellow Press', cartum de L. M. Glackens (1910) (L.M. Glackens/Library of Congress)

1. Eleições de 2018: Maioria elege truculência. Imprensa simplifica polarização e responsabiliza esquerdas.

2. Jornalismo sob ataque: Repórteres expõem extrema direita, enquanto editoriais minimizam descalabros.

3. Livros de Saconi e Scolese: Documentam truculência da extrema direita. Imprensa propicia bolsonarismo por pragmatismo.

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O outro lado do doisladismo

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por Paulo Roberto Pires

Quatro Cinco Um, dezembro 2025

Desde 2018, quem ainda não capitulou ao cinismo segue tentando entender por que, nas eleições presidenciais daquele ano, a maioria dos cidadãos escolheu a truculência como princípio, o ódio por base e a barbárie como fim. A chamada imprensa profissional, que deveria ajudar a sociedade a ser mais inteligível para si mesma, se mantém, com poucas exceções, fiel à versão simplista que responsabiliza as malversações das esquerdas: o extremismo de direita teria germinado numa espécie de vácuo de ideias, militância e políticas públicas. A tese-espantalho conhecida como “polarização” divide a conta do autoritarismo com o campo progressista. Estamos quites — e morremos todos no final.

Enquanto bravas e bravos repórteres vêm se arriscando para expor a delinquência da extrema direita, parte expressiva de seus colegas dedicados à análise — e, é claro, aos editoriais — trabalham em direção diversa, quando não contrária. Como pudemos ver sob o governo bolsonarista, um mesmo veículo podia desvendar descalabros, noticiar perseguição a suas equipes e, nas seções de opinião, poupar os perpetradores. Nas manchetes, autoridades denunciadas por disseminar notícias falsas raramente foram sujeito de verbos como “mentir” e “enganar”.

No ano em que o comando golpista do 8 de Janeiro está mais perto da cadeia, Vocês da imprensa: violência contra a mídia brasileira pela ótica de um jornalista sob ataque, de João Paulo Saconi, e 1461 dias na trincheira: o dia a dia sob Bolsonaro no relato do editor de Política da Folha de S.Paulo, de Eduardo Scolese, expõem a truculência da extrema direita do ponto de vista nada privilegiado de quem a sofreu na pele. Saconi, massacrado pelo gabinete do ódio depois de uma reportagem da falecida revista Época em que contratou anonimamente os serviços de coach da esposa de Bananinha, estende seu relato a outras vítimas de perseguição. Scolese narra o cotidiano de uma redação acossada entre a autocracia e a pandemia.

Ambos são valiosos pelo que documentam e, também, pelo que preferem não discutir. A dificuldade de autocrítica faz crer que a psicanálise, e não a ciência política, seja o instrumento para destrinchar a relação da imprensa com Jair Bolsonaro e tudo o que ele e os seus representam. Mas é antes o pragmatismo, avaro em nuances, que melhor explica a condescendência que, por vontade ou omissão, cevou o bolsonarismo e propiciou suas metástases.

Contudos e todavias

“Vocês da imprensa” é, conforme mapeia Saconi, frase que esteve na boca de João Batista Figueiredo, o último ditador, e de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Bolsonaro. Se em todas as ocorrências ela traduz algum tipo de irritação com o trabalho livre dos jornalistas, os contextos históricos, o tom e a biografia dos personagens tornam o paralelo entre direita e esquerda mais retórico do que contundente.

Ao narrar os enfrentamentos de outros sete jornalistas com o poder, o autor aposta mais nos efeitos do que nas causas: a truculência de militantes petistas contra um repórter, episódio que mereceu pedido de desculpas do partido, ganha, no livro, importância tão digna de registro quanto os gravíssimos ataques à imprensa como política de Estado do bolsonarismo. O que justifica o raciocínio é, como em outros contextos, a preocupação em mostrar o “outro lado” — apesar de, na extrema direita, a violência política ser método e não contingência.

Os livros de Saconi e Scolese são valiosos pelo que documentam — e pelo que preferem não discutir

Na Folha, conforme relata Scolese, o procedimento ganha ares técnicos e é referido, na rotina, como “OL”. A sigla para “outro lado” indica que, sobretudo em momentos agudos, o processo de edição deve redobrar a atenção para a busca do equilíbrio, em particular no que diz respeito às manchetes e chamadas que, espalhadas por redes sociais, são hoje a principal porta de entrada dos leitores. O princípio, correto em teoria, na prática tem funcionado para atenuar posicionamentos contundentes e minimizar aspectos cruciais de acordo com interesses editoriais mais ou menos imediatos ou óbvios. Não raro resulta em eufemismos extravagantes e abre atalhos para equivalências discutíveis.

Tão importante quanto denunciar os desmandos da extrema direita, como o fazem os autores, seria reconhecer o papel da grande imprensa, por orientação empresarial ou moto próprio de profissionais, na criação coletiva chamada Jair Bolsonaro. Sem a atuação de seus repórteres, repito, talvez fosse impossível dimensionar a extensão dos danos impingidos ao país pelo governo mais perverso de todos os tempos. Governo que também se beneficiou da gentileza de veículos que, a exemplo de contrapartes norte­-americanas e de outras latitudes, vendem doisladismo por pluralismo.

“Doisladismo”, diz o Merriam-Webster na definição de bothsidesism, “refere­-se à prática de a mídia ou figuras públicas darem credibilidade ao ‘outro lado’ de uma causa, ação ou ideia para parecerem imparciais ou apenas por questão de argumentação, mesmo quando a credibilidade desse lado pode não ser merecida.” O dicionário lembra que a expressão é usada “quando figuras públicas relativizam uma ação condenável, dizendo que as pessoas de ambos os lados são igualmente responsáveis por ela”.

O termo se aplica, ainda segundo o Merriam-Webster, quando “um repórter ou comentarista parece dar credibilidade especial a uma causa, ação ou ideia que, à primeira vista, parece questionável ou condenável — estabelecendo, assim, uma espécie de equivalência moral que permite que essa causa, ação ou ideia seja considerada seriamente”. Nada estranho a quem se dedica à leitura do noticiário.

O doisladismo já fez estragos consideráveis. Pelas vias burocráticas do jornalismo declaratório, parte estridente da imprensa estabeleceu, a partir da consulta a especialistas escolhidos a dedo, que não era possível tratar um fascista como fascista. Mais recentemente, um veículo proibiu que determinado político de extrema direita assim fosse qualificado em suas páginas. Neste raciocínio, o fato de ambos terem sido eleitos dentro das regras da democracia impediria que fossem definidos como contrários a ela — lógica irretorquível que desconsidera momentos nada gloriosos da vida democrática como, por exemplo, o pleito alemão de 1932.

No horizonte do doisladismo, é ostensiva a preocupação com as suscetibilidades de simpatizantes do extremismo. Enquanto se acumulavam os cadáveres da pandemia, TVs expunham cientistas sérios a simulacros de debate com defensores de “outra perspectiva”, mais conhecidos como negacionistas. Neopentecostais orientados por gângsteres autodenominados pastores também vêm merecendo atenção sob a justificativa de combater a intolerância religiosa. Amplificando os esgares de operadores políticos cuja concepção do sagrado é, para dizer o mínimo, heterodoxa, a cobertura não mostra o mesmo empenho na investigação dos constantes ataques a terreiros de cultos afrobrasileiros e tampouco ouve seus líderes.

No miúdo, o doisladismo é a apoteose da adversativa. Notícias tidas como positivas para determinados setores são temperadas com um “mas” providencial, diluindo na zona cinzenta da manipulação um princípio essencial: a relativização de pontos de vista. Adversativa também é mato no anúncio de resultados de pesquisas de opinião, sobretudo quando estas não confirmam a expectativa de quem as encomenda. Nos momentos mais desenvoltos do Führer de chanchada, os poréns, contudos e todavias ajudaram a borrar suas digitais nas delinquências a que se dedicou com o afinco dos que se sabem impunes.

Estranhamento

Essas filigranas, minimizadas no debate público, não passam despercebidas   uma leitora como Jana Viscardi. A linguista dedica Como nos comunicamos importa: um manual para repensar nossa leitura do mundo a plantar o estranhamento numa atividade muitas vezes irrefletida: a leitura do noticiário. A ela interessa menos a grandiloquência das grandes questões do que a escolha das palavras, a construção de frases que, naturalizadas pelo tom casual próprio do noticiário, reforçam preconceitos, legitimam ódio. Extremismo, racismo e misoginia impregnam construções verbais que, a princípio, soam burocráticas.

Na véspera das eleições de 2024 para a Prefeitura de São Paulo, o infalível Pablo Marçal divulgou um laudo falso atribuindo a Guilherme Boulos a condição de dependente de drogas. Desmontada com rapidez por amadores usuários de redes sociais, lembra Viscardi, a farsa só foi assim chamada pela imprensa depois de consumir um tempo precioso em véspera de votação. O rigor de apuração desandou numa barafunda verbal de atribuições. E tome “suposto laudo”, fulano “acusa”, sicrano “diz que”. No final das contas, a sentença em ordem direta — “Marçal posta laudo falso para atacar Boulos” — só chegaria às redes quando o estrago estava feito.

“Os jornais são um dos importantes espaços em que, ainda hoje, se constroem e negociam sentidos do mundo”, observa Viscardi, demarcando um ponto de vista em que o respeito ao papel da imprensa não pode negociar a crítica às suas distorções. Uma crítica relacionada com a atuação sistemática da extrema direita, que na definição da linguista atua “a partir da lógica da perturbação das dinâmicas de produção de conhecimento em regimes democráticos (ainda que possamos, sempre, nos perguntar de que democracia estamos falando)”.

A republicação de artigo de Bolsonaro em coletânea é desrespeitosa, inclusive com os outros presidentes

É o espírito deste tempo melancólico que explica em parte a publicação, em 2025, de um artigo atribuído a Bolsonaro na coletânea A palavra e o poder: uma travessia crítica por 40 anos de democracia brasileira. Concebido como um panorama do debate público em quatro décadas de democracia na Folha de S.Paulo, o livro alia textos históricos a comentários contemporâneos que os contextualizam. “Aceitem a democracia”, o título da lereia assinada pelo capitão, poderia ser uma piada de mau gosto, não fosse um escárnio numa celebração das ideias e práticas por ele atacadas com método e consistência. A republicação do artigo é desrespeitosa, inclusive com os sete outros presidentes incluídos. Entre eles, três passaram pela prisão, um sofreu impeachment, outra um golpe maroto e nenhum deles se insurgiu contra as regras do jogo.

Do ponto de vista documental, A palavra e o poder também tem grande valor. Como qualquer antologia, é um flagrante do tempo em que é editada e registra de forma cristalina o momento em que o doisladismo passou a integrar o léxico e o conjunto de valores do jornalismo. O momento em que a busca do equilíbrio de posições — desde sempre almejado, muitas vezes alcançado — tangencia perigosamente a omissão.

Paulo Roberto Pires – É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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