
Resumo por IA — “O bolsonarismo como fenômeno de opinião pública” (João Feres Jr., Opinião Pública, 2025)
1. Objetivo do estudo
O artigo de João Feres Jr. investiga o bolsonarismo como fenômeno de opinião pública, buscando compreender quem são os eleitores de Jair Bolsonaro com base em dados empíricos. O autor pretende superar tanto as análises puramente discursivas (focadas nos discursos do ex-presidente) quanto as interpretações sociológicas impressionistas, oferecendo uma leitura quantitativa e sistemática dos padrões de comportamento político e valores dos bolsonaristas nas eleições de 2022.
2. Revisão da literatura e crítica teórica
Feres Jr. mapeia três abordagens principais nos estudos sobre o bolsonarismo:
- Bolsonarismo como discurso: vê o fenômeno como uma construção linguística ou ideológica (ex: populismo, fascismo, retórica moralista). Autores como Rodrigo Nunes, Esther Solano e Cyril Lynch tratam o bolsonarismo como uma ideologia coerente.
→ Crítica: reduz o fenômeno à “emissão” do discurso, sem explicar a “recepção” — ou seja, por que milhões aderem a Bolsonaro. - Bolsonarismo como fenômeno sociológico: aborda o movimento por identidades sociais (classe, gênero, religião). Autoras como Isabela Kalil e Solano identificam múltiplos tipos de apoiadores, mas não distinguem os grupos majoritários.
- Bolsonarismo como fenômeno de opinião pública: utiliza surveys e regressões para explicar o voto. Feres Jr. se insere nesta vertente, mas com uma inovação: usa análise de clusters para identificar tipos de bolsonaristas com base em valores e políticas.
3. Metodologia
- Base de dados: Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB 2022), com 2.001 entrevistas.
- Variáveis: posições sobre temas morais e econômicos (casamento gay, pena de morte, privatizações, Bolsa Família, militarização, golpe militar, etc.).
- Técnica: Partitioning Around Medoids (PAM) com distância de Gower.
- Critério de amostra: eleitores que votaram em Bolsonaro no primeiro turno de 2022.
- Resultado: três clusters principais, numericamente equilibrados.
4. Resultados — os três perfis de bolsonaristas
| Cluster | Características principais | Interpretação |
| 1. Liberal antipetista | Progressista nos costumes e nas políticas sociais; baixo apoio a militarismo; pouco religioso (15% evangélicos). | Eleitores que não compartilham valores conservadores, mas rejeitam o PT — antipetismo puro. |
| 2. Militarista/punitivista | Conservador em segurança e moral, favorável à pena de morte e golpe militar, mas progressista em políticas sociais. | “Lei e ordem” pragmático, mais próximo do discurso de segurança bolsonarista. |
| 3. Evangélico ultraconservador | Muito conservador em temas morais (casamento e adoção gay, aborto), favorável a militarização e autoritarismo, mas apoia políticas sociais (Bolsa Família). | Base ideológica do bolsonarismo, fortemente evangélica e moralista. |
→ Todos os grupos apoiam programas sociais como Bolsa Família e Auxílio Brasil, desmentindo a tese de um bolsonarismo essencialmente neoliberal.
5. Conclusões
- O bolsonarismo não é um bloco ideológico homogêneo, mas uma coalizão de perfis distintos.
- Há antipetistas liberais, autoritários militaristas e moralistas religiosos, unidos mais por rejeição à esquerda do que por um projeto comum.
- A pesquisa refuta a ideia de que o bolsonarismo possa ser reduzido a “discurso populista” ou “ideologia reacionária coerente”.
- O voto bolsonarista combina valores conservadores e políticas sociais, revelando a complexa intersecção entre religião, segurança e antipetismo na formação da direita brasileira contemporânea.
6. Contribuição
Feres Jr. propõe uma nova metodologia de análise do comportamento político — baseada em clusters — e oferece uma visão mais precisa do eleitorado de Bolsonaro. Mostra que o bolsonarismo, enquanto fenômeno de opinião pública, é plural, fragmentado e multifacetado, mais movido por afetos e identidades do que por coerência ideológica.
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