10 de junho de 2026

O Parlamento em Polvorosa, por Maitê Ferreira

Bolsonaristas lutam pelo impossível para fazer as pazes com possível, e inflamam o Centrão em suas cruzadas pela impunidade
Apoiadores de Jair Bolsonaro durante ato na Avenida Paulista, em São Paulo (Reprodução/Maira Erlich/Bloomberg/Getty Images Embed)

O Parlamento em Polvorosa

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por Maitê Ferreira

Não há mais, em Brasília, qualquer parlamentar que acredite ser possível Jair Bolsonaro escapar da prisão iminente imposta pelo Supremo Tribunal Federal.

As instituições foram categóricas: nas penas referentes aos crimes contra a democracia — como a tentativa de abolição violenta do Estado de Direito (art. 359-M do Código Penal) — não há espaço para negociação política. O ministro Alexandre de Moraes já declarou que “não haverá anistia para crimes contra a ordem constitucional” (Fonte: STF, 2023).

Na história constitucional brasileira, raramente se presenciou interferência judicial tão incisiva sobre o Legislativo. Parlamentares sempre gozaram de foro privilegiado e imunidade formal. Mas os tempos mudaram: o STF passou a agir diante da omissão crônica do Congresso e do avanço de grupos que desafiam abertamente a ordem democrática.

O Partido Liberal (PL), por sua vez, tem se empenhado em enquadrar a atuação do Judiciário como uma ofensiva autoritária contra o Legislativo. Inflamaram o Centrão com uma proposta tentadora: anistia para eles, blindagem para todos. Nas últimas semanas, aliados do ex-presidente pressionaram pela aprovação de um projeto que, na prática, inviabiliza investigações e punições contra parlamentares — a já infame PEC da Blindagem. E

nquanto o Governo Federal reagia com artilharia política — inclusive ameaçando cortar cargos de partidos que apoiassem a pauta — o Centrão seguiu em sua própria direção, mirando a proposta que realmente lhes interessava. Chantagearam parlamentares governistas com o bloqueio de pautas estratégicas e conseguiram, assim, arrancar dissidências decisivas.

O resultado dessa barganha foi a aprovação do regime de urgência da proposta, mesmo sem um texto definitivo apresentado (Fonte: Congresso em Foco, 2025). Um movimento tão cínico quanto calculado: em uma manobra típica da política brasiliense, o Centrão não apenas flertou com a impunidade — institucionalizou o flerte.

Enquanto isso, pautas sociais importantes, como a tarifa social zero de energia elétrica, foram ofuscadas pelo tumulto institucional. A aberração jurídica se consolidou quando o relator da PEC, deputado Rodolfo Nogueira (PL-MS), admitiu que o substitutivo da proposta “ainda será construído com a base” (Fonte: UOL, 2025). Ou seja: o Congresso aprovou, em regime de urgência, um projeto cujo conteúdo que sequer existe.

O texto é o de menos. O que une o Centrao e os bolsonaristas, afinal, é a vontade de suspirar os ares de um novo tempo, e por essa esperança mais de 300 deputados encontraram uma razão para trabalhar em conjunto. Pelo futuro de poucos escândalos e muitas glórias, poucas investigações e muita prosperidade (e corrupção) – as cartas estão lançadas.

Essa cruzada pela impunidade, ainda que destinada ao fracasso, revela com precisão o estado atual do nosso sistema político: em nome de salvar Bolsonaro, o Centrão aposta em salvar a si mesmo das numerosas investigações em andamento em inqueritos sigilosos no STF.

Mas é uma aposta ruim.

O “programa máximo” de Bolsonaro para 2026 já está comprometido pelos fatos: investigações robustas, inelegibilidade consolidada e condenação criminal. Ainda que seus seguidores mantenham a fidelidade incondicional, o sistema político já se movimenta em busca de um novo nome para liderar a direita. E, sem dúvida, aqueles que lutaram até o fim por ele se considerarão merecedores de um sucessor para chamar de líder. Afinal, a forma mais melancólica de provar a lealdade é lutar até o fim pelas causas perdidas.

Maitê Ferreira – Advogada, jornalista, fotógrafa, militante, pensadora, transfeminista, irrequieta, ansiosa, utópica e construtora de um mundo novo.

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