
O povo nas ruas, vitória das Big Techs nas instituições
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Todas as manifestações de rua que ocorreram nos últimos anos estavam de alguma maneira relacionadas àquelas que começaram em junho/2013 com a esquerda, foram rapidamente infiltradas e apropriadas na sequencia pela direita. Esse processo de revitalização do poder popular (com pauta populista à direita e reação à esquerda) desaguaram tanto nas manifestações contra o Impeachment de Dilma Rousseff quanto nas que foram realizadas em defesa da candidatura de Lula interrompida pela prisão dele antes do trânsito em julgado da sentença do Triplex.
As aglomerações em frente do STF organizadas pelo então presidente Jair Bolsonaro e pela esquerda nas ruas contra o governo dele também eram desenvolvimentos relacionados à junho/2013, marco inicial da desdemocratização que deu início ao esvaziamento autoritário da Constituição Cidadã. O ataque às instituições que culminou com os acampamentos nas frentes dos quartéis preparando o 08/01/2023 e a própria intentona bolsonarista são, por assim, dizer o encerramento do ciclo que começou em junho/2013.
Tudo o que ocorreu depois tem origem diversa. De junho/2013 a janeiro/2023 a extrema direita estava na ofensiva para conquistar e preservar o poder e para provocar uma ruptura total com o sistema democrático. Agora, a extrema-direita está na defensiva. Ela já não consegue mais colocar tanta gente na rua em vários lugares ao mesmo tempo, ao passo que em 21/09/2025 a esquerda provou que voltou a ter hegemonia nas ruas.
Essa hegemonia, entretanto, não se traduz em poder institucional. De um lado, o Congresso é dominado pela direita, que em defesa de seus próprios interesses eventualmente pode se unir à extrema direita ou ao governo Lula dependendo da ocasião. O STF defende a democracia com um porrete, mas com outros dois a Suprema Corte está rapidamente destruindo o conteúdo trabalhista da Constituição Cidadã e revogando a CLT para garantir os lucros de costume das Big Techs.
O conflito que sacode o país há 10 anos é tanto entre a extrema direita e a democracia, quanto entre o escravismo tradicional rural e o neoescravismo algorítmico. A vitória da democracia custa aos brasileiros uma derrota no plano trabalhista, porque o STF legitima o neoescravismo algorítmico e não existe possibilidade real de conter esse fenômeno nem no Parlamento nem nas ruas.
As prioridades da esquerda (defesa democracia e garantia do identitarismo) limitam as possibilidades de a classe operária ser realmente representada pelo PT. O próprio PT passou por transformações grandes em virtude de sua institucionalização e do esvaziamento do movimento sindical. Por outro lado, os conflitos internacionais (digo isso pensando especialmente em Donald Trump), empurram o PT para ocupar o centro do espectro político. A bandeira da soberania parece boa, mas ela resultará inevitavelmente na captura de grandes fatias do orçamento pelas Forças Armadas.
O cenário que se desenha é politicamente ambíguo. A democracia tende a ser preservada, mas com evidente reconquista do Estado por forças mais à direita. Expulsos da agenda política e com seus direitos sendo revogados pelo STF, os trabalhadores não encontram nem representação partidária adequada nem um canal de mobilização capaz de conter o avanço do neoescravismo algorítmico.
Em algum momento futuro, em caso de guerra, o espaço limitado de manobra de Lula irá diminuir. Quando isso ocorrer os operários poderão ser organizados em torno da defesa de uma democracia que sacrificou os direitos deles no altar dos lucros como de costume das Big Techs? Essa é a pergunta sem resposta.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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