O que restou da intelectualidade?, por Camila Koenigstein

Ao resgatarem Maria da Conceição, vimos que nada substitui a consistência do pensamento, que likes e textos curtos não conseguem soterrar a coerência de quem dedicou uma vida a ensinar e aprender.

O que restou da intelectualidade?

por Camila Koenigstein 

Há algumas décadas estamos observando o declínio da figura do intelectual no sentido estrito do termo. Se por um lado a ascensão das redes sociais trouxe uma espécie de democratização do conhecimento e debates sociais mais horizontalizados, por outro é notória a decadência de análises mais elaboradas, e livres das demandas do mercado, que dita com cada vez mais frequência os rumos das análises daqueles que se autoproclamam formadores de opinião.

É inegável que o avanço do neoliberalismo adentrou todas as esferas da vida humana, e não é incomum vermos escritores, jornalistas, filósofos e uma gama de profissionais atrelar sua imagem a marcas, são garotas e garotos-propaganda e como tal necessitam seguir as regras impostas pelo capital. Nesse sentido, não importa mais ser conservador ou progressista, as regras são ditadas pelo mesmo chefe.

Diante da complexidade do assunto, nos colocamos a pensar: há todavia intelectualidade?

Sem dúvida o assunto é amplo e merece uma reflexão em perspectiva de larga duração, que remete à formação dessa classe de mulheres e homens que tinham na liberdade do pensamento o mote para refletir de maneira crítica e gerar um campo de tensão que permitia ao leitor questionar os problemas sociais de forma mais apurada, não tão imediatista como ocorre atualmente.

A rapidez da informação, confundida com reflexão, gera uma preocupação real e certa inquietação quando pensamos se sobrou alguma possibilidade de mudanças estruturais diante de discursos cada vez mais fragmentados, um verdadeiro mosaico de opiniões em pequenos textos elaborados para o Facebook e o Instagram.

Argumentos como “facilitar a linguagem” e “liberdade de opinião” ocultam muitas vezes a falta de massa que antes sustentava o tema dentro do texto ou da fala. Nesse emaranhado, o peso dos estudos sociais, políticos e históricos perdeu terreno e muitas vezes não há conexão entre o fato e o processo. Sem essa correlação perdemos o nexo, são só fragmentos de pensamento cada vez mais miúdos, poderíamos pensar em certa intencionalidade na fragmentação da totalidade.

A origem 

O termo intelectual nasceu no século XIX, precisamente quando Emilie Zola, junto com outros escritores, escreveu para o periódico L’Aurore o manifesto denominado J’accuse.

O artigo era uma denúncia sobre as arbitrariedades do governo da França contra Alfred Dreyfus, capitão de origem judia que foi acusado injustamente de espionagem pelo Exército francês. Tal manifestação foi uma demonstração pulsante de apoio ao general encarcerado e expôs o caráter antissemita da corporação. Zola e seus companheiros, a maioria escritores, utilizaram sua voz e prestígio para iluminar a situação de injustiça social. Por meio de uma escritura crítica e de um sistema argumentativo racional, mas repleto de emocionalidade, nasceu o que hoje denominamos intelectual, esse indivíduo que opina sobre fatos relevantes com uma voz autorizada, respeitada e legitimada socialmente.

Como atribuir sentido de combate àquilo que não lhe diz respeito diretamente? Como poderia o proletariado, em si mesmo, determinar uma interpretação de Zola, Poussin, Pop, Sport-Dimanche ou dos últimos acontecimentos? Para “interpretar” todas essas questões precisam de representantes: aqueles que Brecht chama de “artistas” ou “trabalhadores do intelecto” … todos aqueles que têm à sua disposição a linguagem do indireto, o indireto como linguagem; em uma palavra, oblatos que se dedicam à interpretação proletária dos fatos culturais. (Barthes, 1974, p. 83).

O caso Dreyfus inaugurou uma etapa no âmbito do saber, e a intelectualidade será classificada como a classe que atua como “farol” em tempos escuros, expondo a opressão, as desigualdades sociais, as violações dos direitos humanos e posteriormente adentrando o campo político, atuando conjuntamente com os mais oprimidos. 

Para o historiador Enzo Traverso, a imagem do intelectual pode ser descrita na imagem de George Orwell com um fuzil no ombro durante a Guerra Civil Espanhola, Marc Bloch durante a resistência francesa, Edward Said, eminente professor de literatura pela Universidade de Columbia, lançando pedras contra os postos de controle israelenses na fronteira com o Líbano. Em suas palavras: “Na história do século XX, a noção de intelectual não pode estar dissociada do compromisso político”.

O intelectual e a formação política

Sem dúvida Gramsci foi o intelectual que mais se debruçou a entender a importância tanto desses indivíduos que entregavam sua vida a causas que podiam buscar a construção de uma sociedade mais justa como daqueles que dedicaram sua escrita como forma de manutenção do status quo.

Segundo o autor, os intelectuais são parte de grupos que representam classes sociais distintas, ou seja, cada grupo social produz sua capa de intelectuais, criando uma área de tensão que buscava a hegemonia do saber e poder:

Cada grupo social, por nascer tem uma função essencial no mundo da produção econômica, cria organicamente e conjuntamente uma ou mais fileiras de intelectuais que lhe conferem homogeneidade e consciência de sua função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político. (Gramsci, 2018, p. 8).

Ou seja, o intelectual atua muitas vezes como agente de determinados interesses, formulando um discurso que busca manter a supremacia, ratificando um contrato ideológico, político e econômico com sua classe. Pelo olhar de Gramsci fica evidente que o intelectual exerce um papel fundamental na manutenção das estruturas de poder ou na formulação de estratégias de resistência.[1]

O grande desafio seria a formação de uma intelectualidade contra-hegemônica, perfeitamente possível segundo Antonio Gramsci, nascida em grupos subalternos, uma intelectualidade orgânica, forjada por um saber que saiu da práxis. Seria por meio desses homens das camadas marginalizadas que surgiriam novas formas de pensar a sociedade, configurando um campo de debates onde os grupos excluídos ganhariam voz, ou seja, haveria a possibilidade de uma efetiva mudança ética e moral. O que seria o intelectual orgânico? Gramsci responde: “[…] o que busca a relação entre a organização e as massas como uma relação entre educadores e educados, que inverte dinamicamente o papel dos intelectuais – no seio do intelectual orgânico, a conquista e transformação dos aparatos de Estado – para criar as condições dessa nova hegemonia e transformação da sociedade civil ”.

Gramsci

No entanto, com o passar dos anos, o desencantamento com a polis e o “fim das ideologias” gerou a era da informação em vez da reflexão e o desenvolvimento cada vez maior  do senso comum.

Ser um intelectual até então era um compromisso ético e social que exigia posicionamento, mas, mais que isso, liberdade para escrever, questionar sistemas, desestruturar o pensamento constantemente, incomodar.

Se Gramsci estava preocupado com o fascismo e inserido num cenário que exigia dos pensadores uma postura política marcada pela divisão entre esquerda e direita, fascismo e nazismo versus comunismo como única saída para a barbárie, no pós-guerra Sartre surge para mostrar que o compromisso do intelectual vai além da ideologia partidária. Os “pensadores” necessitam da liberdade para analisar a complexidade da existência, mas sem perder a dimensão das estruturas que oprimem os indivíduos. Sartre surge assim como o maitre à penser[2]de toda uma época.

Para o filósofo o intelectual seria alguém que “se mete no que importa”, rechaça o conformismo, transgride os tabus e toma o espaço público. Foi na escrita, mas também nas ruas, que a figura de Sartre ficou imortalizada.

É importante ressaltar que nada disso tem relação com perfeição ideológica, coerência plena ou ausência de equívocos, não! O compromisso está precisamente no movimento, na esfera da refutação, no eterno construir e destruir, no rompimento de paradigmas.

Contra o moralismo mercadológico

No último mês foram resgatados por jovens de todo o país vídeos com entrevistas, aulas e conferências da economista portuguesa Maria da Conceição Tavares. Seu forte acento, sua postura marcante em sala de aula e, principalmente, a indignação que resultava em frases de efeito, mas sempre acompanhada por uma profunda consistência, causou um fenômeno social bastante interessante.

Se por um lado a postura de Maria da Conceição causa admiração, por outro, no atual momento, pode ser vista com maus olhos. A economista não cansa de marcar sua postura e defender sistematicamente uma esquerda dura já bastante esquecida, uma esquerda dos pobres e oprimidos pela maquinaria capitalista, a esquerda das estruturas. Então questionamos: não estaríamos carentes de consistência? A formação sólida para refletir não é uma necessidade urgente dentro de uma sociedade que entende as mazelas sociais somente por partes?

Nos últimos tempos o que mais vemos é uma mistura de misticismo, pseudociência, história e sociologia. Brincam de criticar as estruturas, mas defendem os aparelhos que secularmente oprimem os indivíduos, por exemplo as religiões.

Então, a quem convém menosprezar o conhecimento e a figura do intelectual? Aos fascistas ou aos oportunistas ditos progressistas que se aproveitam de suas características individuais para gerar vínculos sociais frouxos e performar um falso interesse pela classe trabalhadora oprimida, quando na verdade recebem dinheiro do opressor. A quem convém menosprezar a academia? Os professores?

Ao resgatarem Maria da Conceição, vimos que nada substitui a consistência do pensamento, que likes e textos curtos não conseguem soterrar a coerência de quem dedicou uma vida a ensinar e aprender.

Precisamos readquirir a liberdade do pensar, do errar e lembrar que a pseudoperfeição moral e ideológica muitas vezes é somente uma maneira acomodada que alguns encontraram para sobreviver em tempos de guerra.


[1] A ligação orgânica entre a estrutura social e o ideológico-político é assegurada pelos intelectuais, “funcionários da superestrutura”. São eles que asseguram a hegemonia da classe dirigente, elaboram e difundem sua concepção do mundo em todas as classes, por intermédio da filosofia da religião, do folclore, ou simplesmente do senso comum. (Chatelet, 2009, p.196).

[2] Espécie de guru do pensamento.

Camila Koenigstein – Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA). Colaboradora da Agência latino América de información e do Jornal Resumen latinoamericano. Colunista do Jornal GGN, portal de notícias Pragmatismo Político e Jornalistasonline

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Redação

5 Comentários

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  1. Não há que se colocar viseiras para se olhar Conceição. A ela não se aplicam narrativas ou pós verdades. Conceição é autêntica, visceral e dispensa análises de qualquer natureza.

  2. O que restou da Intelectualidade?
    Pouca coisa, quase nada, lampejos.
    E, no que depender d’O Algoritmo e seus apóstolos, as redes sociais, nada. Uma vala comum no cemitério.
    “Tudo que morre fica vivo na lembrança/Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça”, diria o Bruno, do Biquini Cavadão. Mas hoje nada se enterra, tudo é deletado como num crematório, estamos sendo poupados desse peso na cabeça. Até as coisas que lá deveriam estar vivas estão sendo deletadas.
    Freud já notava a esquisitice do judaísmo, em que um Deus escolhia um povo, e não o contrário. Nós, nessa nova e maravilhosa Era Algoritmica, estamos tendo a liberdade de escolher, embora estejamos fazendo essa escolha sem o saber. Estamos preenchendo formulários e pesquisas com nossos gostos, nossas preferências de consumo, estamos desnudando nossos recalques, nossos vícios e preconceitos – tudo isso, quase sempre, sem perceber que o estamos fazendo ao nosso novo Deus, que tudo vê, tudo ouve e tudo recomenda. Onipresente, onipotente, onisciente, exatamente como o Antecessor. Com a vantagem de não ter filho para sacrificar. O Antecessor exigia sacrifícios – ovelhas, pombos, até um ser humano, ainda que tenha sido apenas para teste, e, ao fim e ao cabo, terminar dispensando-o. O novo Deus exige como sacrifício algo bem mais modesto, e, aparentemente, desconhecido ou não utilizado pela maioria: o raciocínio crítico.
    É mais ou menos como o Livre Arbítrio – expressão que o cientista maluco Kurt Vonnegut, Jr., não podia ouvir sem sentir urticárias – , em que você tem a liberdade de escolher, mas não tem escolha, como Deus teve: ou você escolhe Ele, ou você cai direto na mão do capeta.
    E o capeta, que, verdade seja dita, nunca foi tão feio como se pinta, hoje, na verdade, é a própria beleza, personificada ou objetificada: basta ver a estética das propagandas, antes nas televisões, hoje na internet. Quem resiste ao poder de sedução de um meio de massa que transforma você no antigo galã de novelas ou do cinema, repaginado como um consumidor irresistível?
    O antigo telespectador, hoje transformado em protagonista em sua própria telinha, é o alvo e o veículo da internet. Quem teve essa sacada pode não ser um gênio, mas foi muito esperto. Esse processo começou ainda na televisão, com os reality shows, e assumiu sua feição atual, e avassaladora, nas redes sociais, onde todos são seu próprio Brad Pitt, sua própria…Anitta? Nada da aura de inalcançabilidade dos ídolos do passado, da idealização de heróis, isso hoje é cafona, demodê, até a falta de caráter se tornou um ativo valioso e rentável.
    Não sei o que restou da intelectualidade. Antes o grosso dos leitores do GGN estava aqui, nos comentários; ainda que as dificuldades técnicas evidentes por que o site passou tenham desempenhado, certamente, um papel ativo no afastamento deles. Mas a TV GGN – que só não tem mais seguidores porque o Nassif, certamente, não se utilizará de artifícios como o clickbait para atraí-los, como já fazem alguns sites e canais de esquerda cujo jornalismo segue sendo de qualidade – já movimenta bem mais os seus seguidores. Talvez porque se refira a uma circunstância citada pela autora desse post, ou seja, “Ao resgatarem Maria da Conceição, vimos que nada substitui a consistência do pensamento, que likes e textos curtos não conseguem soterrar a coerência de quem dedicou uma vida a ensinar e aprender.”
    Como competir com a tentação da frase de efeito, sintética, da comunicação rápida do texto curto? Acompanho as lives do Nassif, e já enviei essas comunicações sintéticas. Mas quando vejo o limitador de caracteres diminuindo, diminuindo, até chegar próximo ao zero, desanimo. É como se o limitador de caracteres me dissesse: você não pertence a esse mundo.
    O texto “J’Accuse”, de Zola, tem cerca de 13 páginas. Quantas pessoas tem disposição – à falta de palavra melhor – para ler 13 páginas, hoje?

  3. Atualmente por falta de solidez e firmeza nas suas ideias ultrapassadas, os professores e intelectuais na América Latina e em particular no Brasil, e que há décadas foram adestrados ideologicamente pelo pensamento de Karl Marx e Antônio Gramsci, ante o choque verificado a partir da “Queda do Muro de Berlim” em 1989 e logo após o Fim da União Soviética, elegeram um “novo discurso anticapitalista” produzindo a expressão neoliberalismo para assim, voltarem à luta contra o capitalismo, porém usando as mesmas ideias mofadas pela História e que mesmo diante dos evidentes fracassos da “praxi socialista”, insistem em reafirma-la como solução para os problemas políticos/sociais do século XXI. Na Europa que viveu mais intensamente essa experiência, desde a década de setenta do século passado, muitos dos líderes da chamada esquerda, mesmo antes dos fatos históricos acima mencionados, fizeram o devido revisionismo, a exemplo de Enrico Berlinguer na Itália; George Marchais na França; Santiago Carrilho na Espanha entre tantos outros. E mesmo alguns intelectuais na América Latina, particularmente no Brasil, embora timidamente e constrangidos também o fizeram. Mas resta entre nós outros ou outras personagens do mundo intelectual que ainda insistem em reafirmar o discurso do socialismo. Mas que para nós simples cidadãos que vivemos da realidade e que apenas ainda aprecia os sonhos e até os devaneios destes, tem buscado na psicanálise de Sigmund Freud ou psicologia analítica de Carl Jung, alguma resposta e uma melhor compreensão à tamanha insensatez dos intelectuais brasileiros atuais, revelada através da mídia impressa, na internet ou mesmo nos meios de comunicação televisiva.

    1. Quanta ignorância filosófica em poucas palavras. Você confunde ideias com fatos. Nunca houve verdadeiro socialismo e muito menos comunismo. O que houve na Ex- União Soviética e na Alemanha Orientação foi um capitalismo de Estado. Marx jamais concordaria com esta experiência histórica, que distorceu e falsificou seu pensamento. Estude Marx para saber o que foi a Revolução bolchevique antes de proferir inverdades… é por conta de pessoas assim que estamos sendo governados por ignorantes de todo tipo. O ódio aos intelectuais é o ódio àqueles que desmascaram a perversidade e a desumanidade do capitalismo.

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