14 de junho de 2026

O RIS(c)O. Diz se é perigoso a gente ser feliz ?! Por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Julieta Hernandez, a palhacinha Jujuba, depois de atravessar o Brasil em sua bike, morreu a 30 km do colo de sua mãe
Julieta Hernández, durante suas apresentações circenses, se transformava na palhaça Jujuba. A artista venezuelana foi morta no Amazonas. | Foto: Reprodução/Redes sociais

O RIS(c)O. Diz se é perigoso a gente ser feliz ?!

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por Cristiane Corrêa de Souza Hillal*

3… 2…. 1…. o céu explode em cor… fogos… barulhentos?!!  Péra… mas e as pessoas com sensibilidade a estouros, fobias? Os animais? Não mudaram isso ainda?!! Cadê os fogos que não fazem baru… feliz ano novoooo! A lua nascendo linda no céu, as velas, essa taça que não pode quebrar, 2024 chegou e a Bethania nem tinha terminado de cantar, tô ouvindo ainda, quanta gente feliz nesse lugar … e bêbada, bastante bêbada… e essas flores aqui no meu caminho, tudo vai dar certo, você vai ver…bebe mais um pouco, vem dançar comigo,  todo mundo se ama no instagram, os sonhos se realizam, já sou velho, Cris, pra acreditar nessas fatias artificiais de tempo, a conexão não pega, a filha, o filho, a mãe, a conexão não pega, não precisa acreditar, não, vem só dançar comigo até morrer, os sonhos se realizam, sim, agora, sim, aqui, sim, é o tempo todo deles, dos sonhos, das borboletas na mata, na praia, na tatuagem da Luciana, mais leituras, o pandeiro, o acordeon da Lourdes … quem vai tocar o acordeon da Lourdes em 2024…90 anos…terapia, curso de psicanálise de novo, essas músicas… essa sua playlist que nos gruda, Cris… médicos, nutricionista, musculação, dieta? Ai essa grande porcaria que é o patriarcado… não, não, é só saúde mesmo. Saúde! Taças transbordam. Todos bêbados. Escrever, escrever, escreviver… o amor… não…  os encontros, as amigas, elas estão mais vivas do que nunca, viva essas mulheres lindas nas minhas lentes mulherando o mundo, mas o amor… aiii o amor… o amor grande, pequeno, os amores, no plural, o luto e a luta, deixa tudo pra trás, esquece tudo isso, passou, passaram todos, você, passarinha… vem ser poesia, vem, é sempre mais sobre amar, verbo intransitivo, que sobre “o amor”, é vida leve agora, vida leve? Que raios é isso mesmo? Que as deusas todas me protejam das “good vibes” AMÉM… ai… essa coisa que é o amor, não esquece…  o tempo… o tempo escapa, viver tudo que há pra viver, sim, vamos sim…. tô pronta, quer dizer, acho que tô…tô? A Silvia gritou que está. Calligaris… estar à altura dos encontros. Vida interessante, minha gente, não é vida feliz não, olha pra frente seu moço que nem conheço, olha só pra frente, esquece seu passado chorado …let it be e olha pra frente, pra essa lua imensa de filme, filhos fortes e bonitos, todos prontos pra amar, e esse mar, que ano lindo chegando… a salsa, as viagens, a luta incansável pelos lascados desse mundão, caramba… como amo esses lascados… “pessoas pertencidas de abandono me comovem”,  a poesia me persegue, olha pra frente, ele diz, olha vc … eu olho também… este seu sorriso que me dá taquicardia, um avião entre nós, o samba, o tempo que escapa, o samba, olha só pra frente, ali, na frente, ele está ali, o que você enxerga ali na frente, o que tem ali … não sei… olha… ali na frente, ela, ele, ali, bem na frente, o que… a palhacinha morta. 

– Qual o destino da sua viagem?

Essa foi a pergunta feita a Miss Jujuba, a palhacinha que atravessava de bike o nordeste e o norte brasileiro em direção à Venezuela, dias antes de ser brutalmente assassinada na véspera do natal de 2023.

Sob suspeita de ter sido estuprada, queimada viva e asfixiada, Jujuba foi encontrada enterrada, com sua bicicleta, em uma cova rasa no coração da Amazônia, no dia em que os cristãos celebram a devoção dos reis a um bebê Salvador da humanidade.

Nem bem saíamos da euforia das praias, sol, fogos e esperanças renovadas quando o corpo colorido de Julieta Hernandez, sem pedir licença, atravessou as planilhas de sonhos, promessas e projetos que ainda estávamos organizando para o ano novo. Chegou junto com o incenso, a mirra e o ouro, nos presenteando com uma vida que, tragicamente, precisou desaparecer pra se revelar.

Uma chuva de palhaças invadiu minhas telas. Elas vinham de todas as partes, montadas em bicicletas, peregrinando pelo Brasil com seus narizes vermelhos de tanto chorar. Vinham sérias, determinadas e feridas. Miss Juju era uma delas e estava há dias desaparecida. Foi encontrada graças a uma rede de contatos de coletivos de mulheres e povos das florestas, para ser imediatamente lançada nas estatísticas vergonhosas que faz do Brasil o quinto país que mais mata mulheres no mundo, onde um estupro é registrado a cada 08 minutos.

Mas número não é gente, como diz @expandindomundos. As palhaças, com seu @circodisóladies, as @mulherescicloviajantes e mais um mundo de coletivos e agrupamentos de gente colorida, de coragem e desejo decidido, que ousam subverter a ordem econômica e o patriarcado para viver por um triz fazendo deste mundo desigual o grande circo místico de Chico Buarque e Edu Lobo, apareciam na minha tela trazendo o contraste extremo da vida em sua potência máxima com o absurdo da violação e violência contra o corpo feminino.

E não era qualquer corpo feminino.

Era o corpo feminino livre. O corpo mais subversivo de todos: o corpo de mulher desejante autorizado ao riso, ao risco e ao movimento.

Em nenhum boletim de ocorrência, em nenhum tipo penal (nem juntando todos os caputs e qualificadoras do Código) será possível traduzir, em linguagem jurídica, o simbolismo de queimar, asfixiar e enterrar o corpo de uma mulher como Julieta Hernandez. Uma mulher imigrante, que renunciou ao casamento e à maternidade, ao papel de “dona” de uma casa com teto e paredes, ao emprego registrado e ao imobilismo de uma vida em que a mulher está sempre no papel da espera: do grande amor, do filho que vai nascer, de um país melhor, de um gozo e da morte.

Sem medos, culpas ou prisões, Julieta Hernandez migrou da Venezuela, atravessou todos os países que existem dentro do nosso Brasil e fez casa da rua, este lugar encantado sobre o qual o historiador Simas se debruça há tempos, de encontros e cruzos, em frestas e festas. Com uma bicicleta e um nariz de palhaça, abrigada nas gentes que conhecia pelos caminhos, Julieta fazia, com seu corpo, sua voz e seu violão, a revolução, levando histórias, alegria, saberes e sonhos para lugares onde, muitas vezes, nem a água chegava. 

“O que espanta a miséria é festa, dizia Beto Sem Braço”, lembra o historiador Simas, cujo trabalho, como ele diz, “dialoga com culturas de fresta que, pelas síncopes da festa, inventam o mundo e subvertem, com a alegria, a miséria, inclusive existencial”.

Julieta Hernandez, de fato, nada tinha de miserável. Sem bolsa Chanel, casa em condomínio fechado ou plano de saúde particular, Julieta tinha as histórias que acumulava dos muitos encontros e afetos que fazia pelos caminhos por onde passava com sua subversiva alegria.  

Mesmo dentre os palhaços que já são, na definição da professora Cristiane Paoli Quito, a “fragilidade partilhada”, Julieta era disruptiva e revolucionária. Enfrentando o machismo que também circunda as artes, Julieta, com sua existência, afirmava que o corpo feminino podia ser cômico, desafiando séculos de arte em que os papéis femininos do teatro, quando permitidos, ficavam reservados aos lugares românticos da espera e contemplação da vida.

Da Julieta punida pelo amor proibido por Romeu à Julieta punida pelo amor proibido pela humanidade deveria haver um abismo, mas há apenas um “não” fazendo um grande elo. O “não” ainda une as Julietas todas que somos, nos fazendo tão Julietas como Beatriz que está, sempre, por um triz.

Entre as reações de justa revolta e solidariedade que invadiram as redes nos últimos dias, reverbera a súplica para salvar o que resta do corpo de mulher que não foi totalmente queimado e asfixiado.

Há uma parte de Julieta, contada nas fotos lindas de sua vida potente, bonita e feliz entre as crianças da Amazônia, que ainda respira.

Esse corpo vivo, intacto e livre, suplica para seguir livre. Grita para que ninguém, ainda que sob uma bem intencionada ideia de proteção, tenha a ousadia de dizer quais são os limites de uma mulher. Onde as mulheres devem estar, andar, como devem ser, ou o que devem fazer.

Não há limites para mulheres amarem homens, mulheres e humanidades. Podem atravessar fronteiras, viajar sozinhas, andar de bicicleta pelas estradas desse país, podem acreditar na bondade humana e se alimentar de ruas e mundo sem serem estupradas e mortas.  Não deixaremos que nenhuma Julieta siga sendo assassinada pelo medo e pela culpa que sempre nos matou em vida.

Qual o destino de sua viagem?

Julieta respira. Ela ainda respira. E responde.

“Meu destino está prestes a me alcançar, está por ir, por vir, por me achar, por se perder. Meus destinos são vários, inomináveis, invisíveis, pequenos, grandes, surpreendentes.  Paisagens, bichos, mata, gentes, cheiro de manga rosa, cheiro de mar no pé descalço, uma música, uma nuvem, uma ideia, o frio da chuva abençoando o ano que começa, gargalhadas a três pelas ruas desertas, barro na mão, corrida de pegar ladeira, sorriso de quem recebe serenata, sombra fina de uma árvore à beira da estrada, beiju com coco, pamonha, passarinho. (…) Meu destino é também aqui e agora, o impossível, em espanhol, em português, em portunhol (…). O insólito, o vertiginoso, o fascinante, único, tímido, preenchido de incertezas, paixões, afagos, choros, afetos, solidões, dúvidas.”

O destino? Ela prossegue.

“O colo de minha mãe, outros colos, quem sabe ser colo de alguém também seja meu destino?!!”

Julieta Hernandez, a palhacinha Jujuba, depois de atravessar o Brasil em sua bike, morreu a 30 km do colo de sua mãe. Estava a um triz da fronteira da Venezuela.

Somos todas, todos e todes, agora, colos de Julietas e umas das outras. Precisamos falar no cuidado como ética e política pública.

Acalentemos as partes de nós, de palhaças a Promotoras de Justiças, mulheres, meninas, moças e senhoras que ainda são queimadas e asfixiadas, todos os dias, pela violência da sede de controle dos nossos corpos e da desautorização de nosso riso, essa arma tão poderosa quanto assustadora porque, como diz Jorge Larrossa, “o riso destrói as certezas. E especialmente aquela certeza que constitui a certeza enclausurada: a certeza de si. Mas só na perda da certeza, no permanente questionamento da certeza, na distância irônica da certeza, está a possibilidade do devir. O riso permite que o espírito alce voo sobre si mesmo. O chapéu de guizos tem asas… E não venham vocês me dizer que o riso pode ser perigoso. O riso é, certamente, ambíguo e perigoso. Como os livros, como as viagens, como os jogos, como o vinho, como o amor, como tudo que tem valor”. 

Sigamos olhado pra frente. Sendo a própria viagem e o destino. Ali, bem ali na frente, o pôr do sol de filme, Bethânia ainda canta, esse sorriso que me dá taquicardia, “na rachadura do muro, a insistente flor. Diante da montanha, pedra miúda que faísca. Façamos festa, não porque a vida é boa, mas pela razão inversa.”

– Qual o destino da sua viagem?

*Cristiane Corrêa de Souza Hillal é Promotora de Justiça do MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP.

Referências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Coletivo Transforma MP

O Coletivo reúne promotores e procuradores de todas as esferas do Ministério Público brasileiro, além de apoiar diversos movimentos sociais. O Coletivo Transforma MP é uma associação de membros de todas as esferas do Ministério Público, sendo os MPs estaduais, MPF e MPT, inclinados ao campo progressista, que visa proteger os direitos humanos e as garantias constitucionais do povo brasileiro.

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