11 de junho de 2026

O SUS, seus problemas e o caso Faustão, por Romyna Lanza

E lutemos muito para que os problemas sejam cada vez menores e o acesso à saúde cada vez maior e igualitário.

O SUS, seus problemas e o caso Faustão

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por Romyna Lanza

Já trabalhei no SUS do Estado de Minas como assessora de Comunicação, onde conheci o sistema e me apaixonei por ele. Então, tenho que falar sobre o caso. Mas vou dividir meu texto em três partes: 1) vou falar sobre o SUS, 2) sobre os problemas do SUS, incluindo, a corrupção, 3) sobre o caso Faustão.

O SUS é o maior sistema de saúde pública do mundo. Enquanto estive lá, recebemos profissionais até da Inglaterra, que também possui um baita sistema de saúde pública, para conhecer nossa experiência. Ele é um modelo para o mundo.

Num país tão pobre quanto o Brasil, ai de nós se não tivéssemos o SUS. A gente quebra a perna no meio da rua e chama o SAMU para nos levar a um hospital que é modelo em traumatologia na América Latina, tudo isso de graça. E nem nos preocupamos, quando nossos filhos nascem, com o preço das vacinas, pois temos acesso gratuito a todas elas. Imaginem pagar por isso. Imaginem fazer um pré-natal durante a gravidez ou pagar por um parto. Imaginem fazer cirurgia e tratamento de câncer num hospital como o Hospital das Clínicas, em São Paulo. Tudo impensável devido aos valores exorbitantes da saúde. Então, nos somos privilegiadíssimos em termos o SUS.

Nos EUA, por exemplo, onde a saúde pública inexiste, tem um caso famoso, que aprendi nas minhas aulas de Direitos Humanos: um homem sofreu um acidente com uma máquina com a qual trabalhava. Nisso, perdeu dois dedos. Colocou os dedos no freezer até a ambulância (pela qual ele pagou) chegar para socorrê-lo. Assim, os dedos foram preservados. Ele recebeu os primeiros socorros no hospital (tudo isso pago, viu, gente?). Os médicos, então, o avisaram: “pra implantar esse dedo, você paga X e pra implantar esse outro, Y”. Ele respondeu: “mas eu não tenho tanto dinheiro”. E assim ouviu dos médicos: “então, escolha um dos dedos para implantar”. Isso jamais aconteceria no nosso SUS.

Agora, vamos aos problemas do nosso SUS. Sim, o SUS tem problemas. É um sistema gigantesco, que existe na esfera federal, estadual e municipal. As vacinas, por exemplo, são compradas pelo governo federal e encaminhadas aos governos estaduais, que as distribuem pelos municípios. É preciso logística, meios de conservá-las, atentar-se para o número de habitantes de cada município, atentar-se ainda para as necessidades e urgências de cada municípios. Nós tivemos um surto de febre amarela, em Minas, em 2017, e as primeiras vacinas foram encaminhadas para os municípios em que a situação era emergencial. Inclusive, havia técnicos do SUS que iam nas áreas mais afastadas do centro, nas áreas rurais, para vacinar a população e deixar todo mundo imune ao vírus. Vejam a complexidade do SUS.

Então, complexo e imenso, é um sistema que apresenta problemas sim. E precisamos ficar atentos a isso, porque, em 2018, uma das pautas que elegeu Bolsonaro foi justamente a distância imensa de acesso à Saúde entre as camadas mais pobres e a classe média. O SUS tem longas filas de cirurgias eletivas, que faz com que uma pessoa fique anos esperando por aquilo. Tem uma Vigilância Sanitária, em muitos estados, corrupta, que tira comerciantes do sério. Tem prefeitos que desviam a verba e deixam a Saúde do município sem atendimento básico. Tem hospitais em que é o porteiro que decide quem vai para os quartos e quem vai para o corredor, dependendo da grana que receber do paciente. Tudo isso, ouvi de pessoas que trabalharam no SUS em diversos municípios brasileiros.

E tem ainda as mulheres pretas grávidas que sofrem todo tipo de violência durante o parto, porque partem do princípio de que mulheres pretas são mais fortes, aguentam mais dor e, por isso, sequer precisam de anestesia na hora do parto. E isso ouvi das minhas colegas pretas dos Direitos Humanos. Então, quando parte da população fica indignada com o SUS, isso não pode ser desprezado.

A indignação ontem foi: “perdi parente na fila do transplante”. Eu, por exemplo, já perdi um amigo na fila do transplante. Perdemos MC Marcinho, no sábado, que entrou na fila e não recebeu o coração a tempo. Então, todos os questionamentos e toda a indignação são normais, e precisam ser levados a sério. Não dá pra berrar nas redes sociais: “vocês são burr0s, não conhecem o SUS”.

As críticas vieram, principalmente, de quem usa e conhece o SUS.

No meu perfil, esta semana, uma pessoa me falou “na favela, nem fazemos transplante, porque não temos condições de nos recuperarmos dele”. É o que falei antes. A distância de acesso à saúde entre as classes pobre e média, média alta, é imensa, um abismo.

Então, vamos ouvir e respeitar essas pessoas. A indignação e as dúvidas delas são legítimas. Lógico que sempre tem o chato que fala por falar. Mas nos concentrar nas pessoas com preocupações legítimas.

Sobre o transplante do Faustão: o termo “fila de transplante” é algo meio complicado. O melhor seria “lista”. Isso porque, quando falamos em “fila”, a gente imagina que a pessoa vai lá pro final da fila para esperar que todos que estão na frente dela passem por um transplante até chegar sua vez. Mas não é bem assim.

Para receber um coração, são levadas em considerações algumas características como tipo sanguíneo, peso, altura, cidade em que a pessoa está (isso porque o transporte em distâncias muito longas e complicadas por fazer o órgão se perder), entre outras.

Analisadas as características do Faustão – inclusive o tipo sanguíneo B, que é raro, e a cidade em que ele passaria pela cirurgia, além de peso, altura, urgência etc. -, ele era o segundo da lista. SEGUNDO, não o último.

Além disso, e foi uma informação que meus amigos que trabalham em hospitais me passaram ontem, a quantidade de doação de órgãos na última semana, justamente devido à repercussão do caso Faustão, aumentou consideravelmente e muitos transplantes puderam ser realizados nesses dias. Segundo o Ministério da Saúde, só de coração foram realizados 11 transplantes na última semana em todo o Brasil. Outro dado do MS: 1/3 dos transplantes do coração acontecem em menos de 30 dias. Então, todo o procedimento do Faustão foi feito com muita seriedade e da maneira correta.

Por fim, VIVA O SUS! DEFENDAM O SUS! VALORIZEM O SUS! E lutemos para que os problemas sejam cada vez menores e o acesso à saúde cada vez maior e igualitário.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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