Os crimes de Bolsonaro, por Vilma Aguiar

Os danos causados por Bolsonaro a este país são imensos, são profundos e o conjunto de suas consequências só será conhecido a longo prazo.

Os crimes de Bolsonaro

por Vilma Aguiar

Começou com a falta de consideração pela chamada liturgia do cargo, o cidadão se comportando como se fosse um ninguém, que pudesse fazer e dizer o que lhe vem à cabeça, ignorando, inclusive, as boas maneiras e a verdade mais comezinha, aquela que pode ser verificada com três minutos de pesquisa. Como à sua cabeça não vem nada que não seja do repertório da morte e da escatologia, usou e abusou dos cocôs, das arminhas, da mentira deslavada. Mas lhe aplaudem. É um sujeito autêntico. Grosso, mas cansados de políticos engomados, com seus discursos prontos, lhe perdoam.

Depois veio o ataque às instituições. O STF casuístico e corrupto, o Congresso prevaricador e corrupto, a imprensa mentirosa e vendida aos interesses dos comunistas. As hienas da nação, ávidas pelo sangue dos justos que lutam por um Brasil acima de tudo. As instituições reagiram, via de regra, mansamente. É grave, mas veja bem, o presidente tem seus arroubos. Fala da boca pra fora. Não quis dizer bem isso. Convocou a nação contra as instituições, bom, sim, mas não. Não era contra as instituições, era a favor do Brasil. E lhe são complacentes.

Em meio a isso, alguns começamos a contar seus crimes. Crimes de responsabilidade e alguns comuns, enquadrados no Código de Processo Penal. Há listas que contam dez ou doze. Eles vão se amontoando, a cada dia. Mas somos benignos, gostamos de dar uma segunda chance. Uma décima quinta chance talvez. Além disso, não podemos banalizar o instrumento do impedimento. Na última vez que foi usado, vamos dizer que deu ruim. Os resultados não foram bem o que pretendíamos. Sejamos prudentes.

Mas, como se sabe, um criminoso impune segue cometendo crimes. Provavelmente cada vez mais graves. É o caso. Ele passou do patamar de atacar instituições para o de trucidar pessoas. Para ele, alguns brasileiros a menos não faz diferença. Um empresário amigo chegou a chutar um número. Seis ou sete mil, nada de mais. Pior seria um Madero a menos, uma Havan a menos. Afinal aqueles serão, em sua maioria, velhos e estes morrem de qualquer forma (além de já inúteis, diga-se de passagem). Que ele também seja um velho pelo seu próprio critério, é um detalhe. Narciso acha feio o que não é espelho, já disse Caetano.

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O criminoso, logo descobrimos, é um homicida, sua sanha pela morte é profunda. A dos velhos apenas não o satisfaz. Tem gente demais aí nas periferias e nas favelas. Como os velhos, esses também vão morrer mais cedo ou mais tarde. De tiro da polícia, de dengue, de falta de remédio, de qualquer coisa. Inclusive não é raro que se matem entre si por nada. Por uma briga no bar ou uma encarada que fulano não gostou. Morrem. Vivem para morrer. Então, é preciso convocá-los para trabalhar e consumir seu parco dinheiro na roda da economia. Ao fim e ao cabo é sua única serventia no mundo. Que se matem no trabalho e pelo trabalho. De onde saírem os mortos futuros haverá outros prontos a tomar seus postos.

Podia já ser muito, mas não para o presidente, a locomotiva homicida. Precisa ainda vestir o jaleco do charlatão e prescrever remédios como se douto fosse. Tossiu, querida, olha aqui a cloroquina, a exterminadora do Covid-19. Se é ou não a doença, veremos depois. Se no meio do caminho “terapêutico” tiver um infarto e uma falência do fígado, bom, melhor que entre naquela outra estatística lá, na minha só tem cura.

Vestindo o manto do messias, o presidente não cansa de convocar as pessoas para correrem risco de morte com a promessa de que tem o remédio, o milagre, o segredo que italianos, espanhóis, franceses, americanos desconhecem. Afinal, ele ora e jejua.

O pior de tudo é que, se ele fosse louco, haveria um atenuante. Não é. Ele age de acordo de um ignóbil cálculo político, mesmo que isso custe a vida dos que atenderem a seu chamado. Qual cálculo? O mesmo de sempre. Ideologizar tudo. Dividir para conquistar. E também, nunca podemos esquecer, não se responsabilizar por nada. Ele é safo. Quando morrerem milhares, será porque seu remédio não foi usado como deveria. Quando a economia quebrar, a culpa será dos que ficaram contra ele e impuseram a quarentena. Entre ser um genocida e parecer ter razão, ele escolhe a segunda sem um momento de hesitação.

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Os danos causados por Bolsonaro a este país são imensos, são profundos e o conjunto de suas consequências só será conhecido a longo prazo. Mas a herança mais danosa já é possível entrever. É a de tornar a desigualdade algo que não precisa ser combatido, mas antes, reforçado. É tornar a ideia de que a vida de alguns vale menos que a de outros, tão presente mas também tão envergonhada que não era dita, arroz de festa em discursos oficiais. Ele nunca convocou banqueiros, industriais, executivos, advogados e arquitetos de renome para trabalhar. Os ricos façam o que quiserem de seu tempo. Ele convoca o vendedor ambulante, a empregada doméstica, o balconista, o motorista do Uber, o entregador do aplicativo, o operário, o cozinheiro e o garçom. Os substituíveis. Os descartáveis. Os que não serão lembrados porque talvez nem endereço tenham.

Num país divido desde que o primeiro escravizado pôs seus pés aqui, Bolsonaro, na Presidência da República, o lugar simbólico do congraçamento de todos e todas numa igualdade pelo menos imaginária e por isso sempre buscada, destrói esse símbolo e diz em cadeia nacional que a vida de alguns não vale a empresa de outros, que o emprego, aquele mesmo que ele se empenhou em degradar, ainda assim vale mais que a segurança do cidadão precarizado. Diz para não buscarmos direitos, basta colocar feijão na mesa. Mesmo que este acabe apodrecendo sobre ela porque cadáveres não comem.

Ele será o responsável pela morte de milhares. Pela doença e pelos escombros do que destruiu, concreta e metaforicamente. Bolsonaro extermina vidas, sonhos e o nosso futuro. Para ele, renúncia, impeachment é pouco. Muito pouco. Precisamos vê-lo no banco dos réus. Precisamos vê-lo punido por seus crimes hediondos.

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Vilma Aguiar é socióloga. Escreve sobre política e feminismo. Nestes tempos de confinamento, está escrevendo O livro da quarentena https://www.instagram.com/aguiar_vilma/?hl=pt-br

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