21 de maio de 2026

Os usuários das novas Tecnologias da Informação são culpados?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

As novas Tecnologias da Informação treinam os seres humanos. Elas condicionam nossas maneiras de ser e de agir num mundo mais informatizado.

Os usuários das novas Tecnologias da Informação são culpados?

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Hoje ao abrir o e-mail com a newsletter do Conjur me deparei com uma pérola. O autor dela cita vários outros autores para criticar os efeitos nefastos do uso das novas tecnologias.

O que mais me chama atenção no texto é a absoluta falta de compreensão de que as inovações tecnológicas são impostas à sociedade por poderosos conglomerados empresariais e industriais que obtém legitimação e até financiamento estatal. A digitalização do processo não foi escolhida pelos operadores do Direito, ela foi imposta ao Judiciário como uma forna de proporcionar mais agilidade com menos custo.

Os reflexos da modernização do Judiciário foram tanto a Facebookização do processo (advogados, promotores e juízes navegam nos processos à procura de likes como se estivessem no Facebook e alguns trabalham com o Facebook aberto trabalhando e se distraindo ao mesmo tempo) quanto as imagens grotescas de algumas audiências por videoconferência. Mas as pessoas não são necessariamente culpadas. Algumas vezes elas são apenas vítimas das inovações tecnológicas.

Algorítimos são projetados para manter as pessoas engajadas nas redes sociais pela maior quantidade de tempo. Adds só produzem lucro para os donos das plataformas de internet se a atenção dos usuários for sequestrada e eles continuarem clicando em novos conteúdos. Mais cliques significam mais lucro para os donos das Big Techs. Likes funcionam como minúsculas recompensas digitais, eles são injeções de endorfina aplicadas aos usuários para mantê-los navegando.

Navegar é preciso, disse o poeta Fernando Pessoa. Não viver ao navegar na internet é ou pode ser extremamente viciante dizem os psicólogos. É simplesmente impossível para um ser humano sair de um estado mental (de dispersão e espontaneidade) e entrar em outro (de concentração e seriedade) com a mesma velocidade que é possível deixar o Facebook e entrar no website de um Tribunal para praticar algum ato processual. Qualquer browser de internet pode ser utilizado com diversas guias abertas simultaneamente.

As novas Tecnologias da Informação treinam os seres humanos. Elas condicionam nossas maneiras de ser e de agir num mundo mais e mais informatizado. Aliás, na fase atual as coisas são ainda mais surpreendentes, pois os seres humanos treinam Inteligências Artificiais para que elas possam treinar os seres humanos a treiná-las ainda melhor… Nós estamos sendo aprisionados num feedback cycle cujos efeitos são inevitáveis e algumas vezes indesejados.

É fácil culpar os usuários de smartphones que se reuniram em Paris para tirar selfies. Mas ao refletir sobre esse episódio a pergunta necessária é outra: O que mais aqueles jovens poderiam fazer nesse admirável mundo novo em que todas as individualidades foram aprisionadas em caixinhas luminosas viciantes?

Perceber que todos nós fomos transformados em ratos nos imensos laboratórios comportamentais que garantem lucros astronômicos para os donos de Big Techs é um pouco mais difícil e doloroso, mas isso é indispensável. Não é possível transformar o mundo sem conhecê-lo e sem reconhecer que as pessoas sempre se ajustam como podem às condições de existência que lhes são proporcionadas.

Facebookizados, agora os advogados (especialmente aqueles que são jovens e já cresceram utilizando internet) têm que lutar não apenas contra seus adversários e/ou contra as vicissitudes do Poder Judiciário informatizado. Na verdade cada qual deve lutar consigo mesmo para desenvolver hábitos adequados que permitam separar um tipo de atividade na internet (o lazer viciante) de outra muito diferente (advocacia on line).

Ao contrário do autor da pérola mencionada no início, prefiro ser compreensivo e tolerante. Assim como me adaptei à nova realidade, os jovens farão o mesmo. O futuro pertence a eles assim como um dia pertenceu a nós que começamos a ficar idosos.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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