Padrões de Intolerância
por Fernando Nogueira da Costa
Vou fazer aqui um duplo movimento. Primeiro, comparar EUA com Europa e Brasil, quanto a eixos de intolerância da extrema-direita em expansão. Depois, articular isso com religião, capitalismo e imperialismo, como estruturas — não como “traços culturais soltos”.
Na comparação internacional dos padrões de intolerância, os Estados Unidos revelam intolerâncias fragmentadas, mas politizadas: homofobia reativa, anticomunismo visceral, xenofobia seletiva, estigma contra ateus. Convivem lá um liberalismo jurídico avançado e um conservadorismo cultural forte.
Seus conflitos são abertos, polarizados e ideológicos. Trata-se de uma sociedade de confronto permanente.
Na Europa Ocidental, há (em média) menos homofobia aberta, menos religiosidade política. O anticomunismo é mais frio e histórico, menos histérico.
Entretanto, a xenofobia hoje é o eixo central, sobretudo contra muçulmanos, africanos e refugiados. Mas lá a intolerância aparece como defesa da identidade nacional e do Estado de bem-estar. O discurso é “civilizacional”, não moral. Racismo e xenofobia são secularizados — e “racionalizados”.
No Brasil, a homofobia e o machismo são mais cotidianos e violentos. Há menor anticomunismo popular, diferentemente do assumido pelas elites econômicas e a mídia neoliberal.
A xenofobia é menos central, porque a desigualdade social é interna – e não vem de fora trazida por imigrantes. Há forte peso de informalidade, violência direta e patriarcado cotidiano. A intolerância é menos ideológica e mais prática, incorporada ao dia a dia.
Quanto à religião, atua com três funções distintas nas três regiões. Nos Estados Unidos, a religião é pilar identitário nacional. O protestantismo molda a moral sexual, a ideia de mérito e a visão maniqueísta da divisão binária do mundo entre o bem e o mal).
A intolerância aparece como cruzada moral. Deus legitima o mercado, as armas e a nação vista como superior a outras.
Na Europa, embora tenha sido seu berço, a religião perdeu centralidade política. Conflitos são culturais-seculares: “valores europeus” contra “outros”.
Islamofobia substitui o anticomunismo. A intolerância troca Deus por “civilização”.
No Brasil, a religião historicamente atua como conciliadora da desigualdade. Hoje, o neopentecostalismo reforça o conservadorismo moral, individualiza a pobreza como própria responsabilidade, despolitiza a desigualdade.
Pratica menos cruzada ideológica, exerce mais controle social. Deus é apresentado como um gestor do sofrimento.
Quanto à questão de como o capitalismo organiza a intolerância, nos Estados Unidos, o capitalismo é competitivo e moralizado, porque o vencedor merece tudo, o perdedor é por conta de falha individual.
Minorias são toleradas enquanto produtivas e invisíveis. O comunismo é intolerável porque ameaça o mito do mérito. Intolerância atua como defesa do mercado “puro”.
Na Europa, o capitalismo é regulado porque ainda está em busca do bem-estar social. Intolerância cresce quando a imigração pressiona o welfare state, a coesão nacional parece ameaçada.
O conflito é “quem tem direito ao Estado”. Intolerância atua como defesa do bem-estar nacional.
No Brasil, o capitalismo é excludente e informal. Intolerância funciona para naturalizar a pobreza, fragmentar a solidariedade e impedir coalizões populares.
Racismo, machismo e moralismo substituem política social. Intolerância age como cola da desigualdade extrema.
O imperialismo e a superioridade simbólica dos Estados Unidos atuam com base na autoimagem de excepcionalismo como fosse uma “nação indispensável”, portadora universal da liberdade. Essa ideologia ultranacionalista produz desprezo por experiências estrangeiras, dificuldade de autocrítica e legitima intervenções externas. O americano vê sua imaginada superioridade como missão histórica.
Na Europa, o sentimento geral é de superioridade cultural com base em “civilização”, “iluminismo” e “valores”. Por isso, ela é hoje menos missionária e mais defensiva.
Colonialismo mal resolvido reaparece na xenofobia. Superioridade cultural aparece como uma herança silenciosa do esnobismo contra estrangeiros.
O Brasil não tem como ser imperialista, dada sua condição histórica de ser colonialmente subordinado. Intolerância surge aqui quando militares, doutrinados durante a “Guerra Fria anticomunista”, imitam padrões ou comandos vindo do Norte. Com uma submissão vergonhosa, os Capachonaros reproduzem hierarquias importadas mentalmente por gente ignorante.
Logo, quando têm chance governamental, o complexo de inferioridade convive com o autoritarismo interno. Violência é local sem pretensão universal.
Em síntese, nos Estados Unidos, a intolerância é ideológica, moralizada e imperial. Na Europa, existe intolerância cultural-secular e defensiva. No Brasil, a intolerância é cotidiana, violenta e despolitizante.
Todas as ideologias intolerantes com a diversidade cumprem a mesma função: organizar hierarquias sociais em contextos capitalistas desiguais, mudando apenas a linguagem — Deus, civilização, mérito ou ordem.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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