10 de junho de 2026

Para Não Dizer Que Mulheres Não Falam Sobre Guerra, por Nadejda Marques

Há décadas, ativistas do mundo inteiro clamam por igualdade de gênero e inclusão dos princípios feministas nas legislações nacionais, políticas públicas e nas relações internacionais.

Para Não Dizer Que Mulheres Não Falam Sobre Guerra

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por Nadejda Marques

Em 8 de dezembro de 1941, o Congresso Americano aprovou o pedido do então presidente Franklin D. Roosevelt pela declaração de guerra contra o Japão com apenas um voto dissidente:  o da congressista Jeannette Rankin.

Não foi seu primeiro voto contra a guerra. Jeannette Rankin, pacifista de longa data, foi a primeira mulher eleita ao Congresso Americano em 1916 tomando posse em 1917 após um ano de debate sobre se uma mulher estaria habilitada a atuar como congressista no país. Três dias após sua posse, o Congresso votava a declaração de guerra que autorizava aos Estados Unidos entrar na Primeira Guerra Mundial. Em um país onde o voto feminino ainda não era lei nacional, Jeannette questionava a legitimidade dos Estados Unidos em levar democracia a outras partes do mundo quando mulheres americanas ainda não podiam votar ou serem eleitas. Esse seu primeiro voto contra a guerra foi taxado como exemplo da “aversão” feminina a conflitos e lhe custou a reeleição em 1918.

Vinte e dois anos depois, Jeannette Rankin é novamente eleita ao Congresso Americano e mais uma vez teve que votar sobre uma declaração de guerra. Ela sabia que após o ataque a Pearl Harbor um voto dissidente contra a guerra seria suicídio político mas, mesmo assim, declarou: “como mulher, não posso ir à guerra e me recuso a enviar qualquer outra pessoa.” 

Durante a Primeira Guerra Mundial várias feministas quebraram com compromissos internacionais com o pacifismo (movimento que nasceu do feminismo) e o sufragismo e mobilizaram mulheres no esforço de guerra. Paradoxalmente, foi a massiva mobilização feminina durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais que aceleraram o acesso das mulheres aos espaços públicos ainda que em situação de subordinação ou sofrendo discriminação.

Há décadas, ativistas do mundo inteiro clamam por igualdade de gênero e inclusão dos princípios feministas nas legislações nacionais, políticas públicas e nas relações internacionais. Desse esforço, a nível internacional, resultaram várias resoluções das Nações Unidas sobre mulheres, paz e segurança, por exemplo. Mas, pouco adianta aumentar a presença feminina nas forças de paz da ONU se as políticas são guiadas por princípios de autoridade com base no patriarcado e no etnocentrismo dando às elites dos países ricos o poder para decidir o que precisa ser feito. Pior, a impressão que se tem hoje em dia é que guerras imperialistas se dariam supostamente para defender os direitos das mulheres. De forma muito preocupante, o discurso que justifica intervenções políticas, sócio-econômicas ou militares contra estados que discordam dos valores e interesses neoliberais se apropria indevidamente da história e de bandeiras feministas. Foi assim quando Laura Bush declarou que a invasão ao Afeganistão iria libertar as mulheres do país. Vinte anos de presença militar americana no Afeganistão não alcançaram esse objetivo. De fato, dizem as más línguas que tiveram o efeito reverso incitando grupos mais radicais a uma ideologia anti-feminista. Foi assim quando a administração Trump usou os protestos das mulheres iranianas por igualdade de gênero como desculpa para abandonar o acordo nuclear com o Irã ao mesmo tempo que vendia para a Arábia Saudita as armas usadas no conflito contra o Iêmen onde as principais vítimas são mulheres e crianças.

À medida que o mundo é arrastado para um novo confronto bélico e mesmo que o tema principal não esteja relacionado a situação das mulheres, feministas precisam se posicionar. Feministas precisam ser contra essas novas guerras imperialistas. Não porque são naturalmente pacíficas ou não aptas a atuar em contextos de conflito mas porque ser feminista também significa ser contra todos os tipos de opressão.

Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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