Fernando Castilho
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.
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Perdemos nosso tempo acreditando numa CPMI séria?, por Fernando Castilho

O fato é que a corja que defende o fascismo está agora empenhada, não em defender seu mito, mas em dar um novo golpe, desta vez, parlamentar.

Geraldo Magela – Agência Senado

Perdemos nosso tempo acreditando numa CPMI séria?

por Fernando Castilho

Sempre defendi que a relatora da CPMI, senadora Eliziane Gama, em seu relatório a ser finalizado em 17 de outubro, responsabilize os militares diretamente envolvidos na organização dos atos golpistas de 8 de janeiro, como os generais Dutra, Braga Netto e Augusto Heleno, além de outros de patente mais baixas, mas extremamente ágeis em suas redes sociais a mobilizarem as massas ignaras.

Porém, acabamos de saber que a CPMI não punirá os militares. Por influência política do governo, esses deverão ser responsabilizados pela justiça, através da Polícia Federal, do Ministério Público e do STF. Uma pena.

Esperávamos também que alguns parlamentares bolsonaristas que compõem a própria comissão deveriam ser citados no relatório e seus nomes enviados para as comissões de ética das duas casas legislativas para que possivelmente, num horizonte distante, admito, sejam cassados, já que deixam público e notório que defendem e apoiam golpistas e terroristas.

Há vários deles, mas os que chamam mais a atenção são o deputado pastor Marco Feliciano que chegou a chamar o tenente-coronel Mauro Cid de herói nacional e outros como o delegado Ramagem e Nikolas Ferreira que quase estenderam um tapete vermelho para o general Augusto Heleno. Bolsonaristas trocavam olhares, acenavam e sorriam para o depoente envolvido no transporte da bomba que iria matar muita gente caso explodisse próximo ao aeroporto de Brasília, Wellington Macedo!

Além disso, defendi que parlamentares da base governista que compõem a CPMI deveriam convocar o deputado federal André Fernandes para depor, já que está sendo investigado pela Polícia Federal por estar presente no dia da tentativa de golpe de 8 de janeiro, gravando vídeo e insuflando a tomada do poder por bolsonaristas. Outro que também deveria ser convocado é o senador Marcos do Val, também investigado pela PF por confessar ter tentado, dentro do enredo do golpe, grampear o ministro do STF, Alexandre de Moraes.

TODOS esses deputados e senadores bolsonaristas TÊM que ser responsabilizados, já que cometem crimes que não deveriam ser atingidos pela imunidade parlamentar, pois não se trata de livre debate de ideias, mas sim, de defesa de terroristas e de gente que tentou dar um golpe de estado. E é notável como eles em suas redes sociais ajudaram a mobilizar pessoas para os acampamentos golpistas. Não dá mais para ficarmos assistindo discursos mentirosos destinados a manter a tentativa de golpe.

Por isso tudo, a CPMI que foi convocada pelos bolsonaristas e que os governistas passaram a dominar, após um ímpeto inicial que nos animou a confiar que cabeças iriam rolar em profusão, poderá em 17 de outubro ter um fim decepcionante e melancólico.

O fato novo é que a corja que defende o fascismo no Brasil está agora empenhada, não em defender seu mito, mas sim, em dar um novo golpe, desta vez, parlamentar.

Começa a tramitar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que, se aprovada, dará ao Congresso a palavra final em casos que passem pelo Supremo Tribunal Federal.

Desta forma, o Marco Temporal, rejeitado pelo STF, teria agora condições para ser aprovado pelo Congresso. Outras votações polêmicas que digam respeito à pauta de costumes, principalmente, seriam revisadas pelos parlamentares. E é necessário lembrar que, embora os congressistas bolsonaristas não sejam maioria, os conservadores o são.

Essa PEC desrespeita a Constituição, portanto, nem deveria ser aprovada pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), mas caso seja, será apresentada em plenário para aprovação por 2/3 das casas legislativas em dois turnos, para mais tarde ser derrubada pelo STF. E é isso que os bolsonaristas querem. Confusão.

Só ingênuos imaginam que aloprados como aqueles que acamparam em frente aos quartéis não serão convocados para fazer manifestação em frente ao STF. Aliás, já há uma convocação para 15 de novembro circulando pelas redes bolsonaristas.

Rejeitado o projeto por inconstitucionalidade, os deputados golpistas poderão bradar a todos os cantos que o Brasil vive sob uma ditadura de toga, insuflando a massa ignara contra as instituições novamente.

É pelo risco que novamente corremos que a essa malta de parlamentares nenhum centímetro de espaço seja dado. Neles tem que ser colocada, dentro do rigor da lei, uma corrente e uma focinheira para que não ousem atentar contra a democracia novamente.

Que a maioria democrata da CPMI perceba que não basta fazer belos discursos inflamados nas sessões, mas que se comece a responsabilizar já deputados e senadores que insistem em golpear o Brasil. Além dos generais, é claro.

A CPMI TEM o dever moral de fazer isso.

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor

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1 Comentário

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  1. KIDS PRETOS: QUANDO O TERRORISMO VESTE FARDA

    No dia seguinte à intentona fascista do 8 de janeiro já estava mais do que evidente a participação das operações especiais do exército na condução dos acontecimentos. Porém, diante das incertezas do que ainda poderia vir a acontecer – torres de transmissão estavam sendo sabotadas – o governo optou pela prudência.

    Relendo as notícias que circularam nos dias seguintes, percebe-se que, para quem estava no centro dos acontecimentos, era claro que havia uma tentativa de golpe dissimulada em curso. Como havia alguns comandantes militares reticentes em aderir, aguardando o desenrolar dos acontecimentos, era melhor não atiçar os ânimos. O Ministro da Defesa encabeçou a operação “desarma a bomba e finge que nada aconteceu”. Como tentou argumentar recentemente, chegando as raias do ridículo, teria sido quase uma excursão turística de exaltados que fugiu ao controle.

    Os militares sabiam que, no mundo atual, eles não poderiam dar uma quartelada grotesca tal como sempre fizeram no passado. Enviados do Departamento de Estado dos EUA tiveram que vir ao Brasil para alertá-los de que isso não seria mais aceitável. O “Brother Sam” os deixaria na mão dessa vez. Parece que não foi fácil convencê-los, pelo relato dos norte-americanos. Tiveram que ameaçá-los de que os deixariam sem as viagens de intercâmbio, treinamentos conjuntos, cursos de capacitação, acesso aos brinquedinhos moderninhos de guerra e sem verbas de cooperação.

    Foi um banho de água fria.

    Só lhes restou tramar um golpe clandestino, dissimulado, em que as suas digitais ficassem ocultas. Se desse errado, sairiam ilesos e, principalmente, impunes. Aí entraram em cena os Kids Pretos, os Destacamentos Operacionais de Forças Especiais (DOFEsp), cuja atuação se dá em “ambientes hostis de conflitos políticos e internos”. São preparados para “guerras irregulares que têm objetivos relevantes políticos, militares, econômicos ou psicossociais”, ” sensíveis de sigilo”. Até atualizaram a própria doutrina após a intentona do 8 de janeiro ( Portaria – COTER/C Ex Nº 273, de 19 de maio de 2023).

    A não convocação da GLO – dada como certa por eles – não estava nos planos. Temerosos de um desfecho completamente incerto, nenhum general da ativa teve a coragem de tomar a liderança e colocar a sua carreira em risco.

    Aos poucos, a história vai sendo revelada. Desde a tentativa primeira de explodir o aeroporto de Brasília e outros locais (mais bombas foram preparadas) até o 8 de janeiro, presumivelmente muitas outras ações terroristas foram cogitadas.

    A história se repete. Das ações do “grupo secreto” nos anos 60, dos planos do PAra-Sar ao atentado do Riocentro. O terrorismo sempre fez parte do DNA das Forças Armadas brasileiras E, enquanto reinar a impunidade, assim continuará a ser.

    Pra sorte da nossa frágil democracia, mais uma vez o terrorismo dos fardados falhou.
    Só resta torcer pra quem continuem fracassando, já que tudo indica que a impunidade vencerá outra vez.

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