Podemos prever como será o novo normal?, por Rogério Maestri

Observa-se que poucos se aventuram a fazer e que é de uma necessidade premente, estudar o passado para ter uma ideia do futuro, pois a história é pródiga em epidemias e pandemias. 

Podemos prever como será o novo normal? Os únicos que poderiam dar uma resposta ignoram o seu estudo

por Rogério Maestri

Cientistas sociais, economistas, psiquiatras e mais dezenas de profissionais de várias áreas se interrogam que será o mundo na situação pós-pandemia.

O mais interessante é que o único profissional que teria condições de fazer uma análise mais cientifica, o historiador. é o menos consultado e ouvido, simplesmente porque ele se educou somente para falar do passado, e se auto interdita de falar do futuro.

Os historiadores durante séculos no ocidente e milênios no oriente se auto limitaram a descrição do passado, apesar de toda a evolução de ciência da história eles tem uma resistência de utiliza-la para a previsão do futuro, pois no fundo nunca procuraram estabelecer leis que indicassem o que pode acontecer na sociedade, quando  na presença de novos paradigmas que retiram a sociedade do seu “normal”. Os historiadores marxistas são talvez os únicos que timidamente procuram estabelecer novos padrões de sociedade a partir de leis sociais que não captam as alterações possíveis de além da luta de classes, como que mecanicamente dois lutadores de luta livre seguissem rigorosamente as regras estabelecidas antes do início da contenda. Entretanto qualquer um sabe que numa luta real sabe que se um lutador emprega um golpe inesperadoo resultado da luta se torna inesperado, logo pensar que o passado de uma luta de classes se reproduzirá em parte o que ocorreu em outras situações é simplesmente ignorar esse conceito e achar que o passado seguirá exatamente o que já ocorreu uma vez.

Mas voltando ao assunto o “novo normal” pós pandemia, observa-se que poucos se aventuram a fazer e que é de uma necessidade premente, estudar o passado para ter uma ideia do futuro, pois a história é pródiga em epidemias e pandemias.

Leia também:  A carga da brigada lerda de jegues bolsonaristas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A última grande pandemia que fomos assolados foi a gripe espanhola. Essa pandemia nos dá uma ideia de que podemos prever para o futuro, essa gripe que matou entre 17 a 50 milhões de pessoas, se projetada para a atual população da Terra, teria um número de mortes que variariam entre 70 a 200 milhões de pessoas. Só esse dado e a tolerância que temos atualmente as mortes  já nos dá um exemplo de quanto mudamos no comportamento nos últimos 100 anos.

Se seguíssemos a mesma proporção para países como os USA e Brasil, teríamos algo entre um milhão e meio milhão respectivamente. O presidente norte-americano da época, Woodrow Wilson é considerado um dos melhores presidentes da história daquele país, enquanto Trump, se perder a reeleição será pelo seu desempenho medíocre no combate à epidemia, ou seja, nota-se um maior respeito a vida e responsabilização dos governantes.

Porém a gripe espanhola que ocorreu durante uma guerra que produziu milhões de mortes, fez com que junto com a censura de guerra essa mortal pandemia ficasse praticamente esquecida em poucos anos, sendo até denominada como a pandemia esquecida.

O mais interessante de tudo é que numa listagem de epidemias desde o ano 1200 AC até os das atuais é listado na Wikipedia em inglês (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_epidemics) 281 epidemias no mundo, ou seja, um número razoável para entendermos o impacto das epidemias no comportamento humano, porém o mais interessante é que se olharmos nesta listagem vemos que há todo um interesse em saber a origem das epidemias e quando elas começaram. Entretanto informações de como e quando elas terminam praticamente inexistente, logo parece que o importante é descobrir a origem para nomear culpados dessas desgraças. Isso fica claro com a própria gripe espanhola que apesar de ter começado nos USA, levou o nome de espanhola!

Leia também:  A “modernização das relações de trabalho”, a informalidade e a pandemia, por Adalberto Cardoso e Thiago Brandão Peres

Por outro lado como termina as epidemias e quais os efeitos que ela deixa na sociedade da época não parece importante, como a negação das doenças fosse uma constante na história da humanidade.

Em resumo, epidemias são esquecidas rapidamente e o rastro de mortes e de problemas e revoltas sociais originadas dessas parece que não tem importância, como a história das epidemias são contadas somente a partir de seu começo e os historiadores nem se interessam em saber nem quando elas terminam e como se criam os “novos normais”.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

5 comentários

  1. Taí! Realmente um importante ponto a ser pesquisado, analisado e resenhado. No dia a dia não nos damos conta da importância e relevância da história para compor o futuro.

  2. Eu escuto sempre, que povo que não conhece o seu passado, repete seus erros. Ninguém parte das centenas de epidemias que ocorreram no mundo para simplesmente entender os erros e as consequências que esses causaram, há uma verdadeira negação de tudo que passamos como tivéssemos vontade de superara-los simplesmente ignorando-os.

  3. Talvez o conhecimento de como as epidemias começaram tenha ajudado a evitar muitas outras, que nem precisaram entrar na história.

    1
    1
  4. É pertinente o que seu questionamento desde o título, professor Maestri, nos levanta em relação aos historiadores profissionais. Até aqui nota-se um declínio da qualidade da produção científica e uma especialização(fragmentação) geral. São os tempos eu diria, que nem a História pode escapar. Quem junta tudo?
    Uma resposta totalizante, que buscasse na longa duração ao estilo dos franceses da Ecole des Annalles seria impossível em alguns minutos. Em geral são décadas de pesquisa para produzir aquelas 300 páginas.
    Uma resposta mais marxista tende a considerar sempre a economia e as relaçoes de produção como determinantes. Marx e provavelmente Engels dariam uma resposta “na veia” apostaria eu…
    A verdade é que boa parte da ciência tem pouco tempo de desenvolvimento e poe recente nisso. O genoma é coisa do final dos anos 90. E datam desta época os primeiros alertas no mundo editorial de possiveis pandemias. Os filmes datam da primeira década do XXI. Aprendemos com os historiadores que a arte e a religião por não ter um caráter científico, fragmentário e especializante podem nos dizer aquilo que cientificamente não é possivel prever. A arte e a religião sentem… como os animais domésticos que no tsunami e terremoto de Lisboa no séc. XVIII se agitaram antes do terrivel castigo(sic!) que chegava;
    Nessa pandemia do coronavírus os estatísticos esclareceram através dos gráficos que as curvas deveriam ser achatadas salvando tantas vidas quantos os médicos, não? Se anteciparam e nós ouvimos? Em parte.
    Mas e os historiadores? Por certo eles estão melhor na fita que os políticos negacionistas e religiosos que insistiram em manter seus cultos a despeito da periculosidade. Que se aplaudam as exceções!
    Esperava-se mais da historiografia produzida, e outras cobranças de previsibilidade social e sanitária surgirão. São últimos dias?
    Li que Nostradamus, sim o famoso profeta do sec XVI, era médico e cristão convertido do judaismo. Conheceu livros cabalísticos e cuidou de vários pacientes nas pestes europeias perdendo a 1a esposa e filho.
    Os tempos atuais não produzem mais um Nostradamus ou Bandarra (Portugal). A história não se repete mesmo.
    Mas sobrevive uma demanda por previsibilidade que é determinada pelo mercado não? Isso não mudou desde as cavernas…

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome