21 de maio de 2026

Pois é Tarcísio, PCC está aí cumprindo até papel político, por Armando Coelho Neto

Não dá para saber se o PCC é anjo ou demônio para a extrema direita. Cabe, certamente, lamentar a morte do delegado Ferraz.
Arte Urbana - Reprodução

Pois é Tarcísio, PCC está aí cumprindo até papel político

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por Armando Rodrigues Coelho Neto

O Brasil assistiu perplexo a brutal execução do ex-delegado-geral de São Paulo e secretário de Administração de Praia Grande (SP), Ruy Ferraz Fontes, um pioneiro nas investigações sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do país, com braços em outros estados e países fronteiriços. Sua influência nas entranhas de São Paulo vão além do crime. É um mistério à parte.

As suspeitas iniciais do delito recaem sobre meliantes ligados a esse segmento criminoso, que aparente ou comprovadamente, teria ligações com o transporte público da cidade de São Paulo, administrada por Ricardo Nunes (MDB). De outro giro, consta que um policial suspeito de lavar dinheiro para essa mesma facção, teria integrado a equipe de segurança do republicano Tarcísio Freitas (Tretas). Será?

Ora pois! Em singular clima de quem usa cuida, durante a campanha eleitoral para prefeitura paulista, e para favorecer Nunes, a poucas horas do 2° turno do pleito de 2024, o governador do Estado declarou que sua polícia teria interceptado mensagens da facção PCC, ordenando para votar em Guilherme Boulos (PSOL). Tarcísio e Nunes foram processados, mas o TRE/SP deu o “salve” para os dois.

É, Tarcísio. São Paulo nunca foi governado pela esquerda. Sua polícia de direita foi mais eficiente para detectar a “mensagem” (nunca exibida) para prejudicar Boulos, do que para evitar o assassinato de quem durante anos combateu o PCC. A mesma eficiência que levou Tarcísio a descartar, de pronto, que o PCC não tem nada a ver com as mortes pelo consumo de bebidas batizadas com metanol. A conferir, não?

A essa a altura, não dá para saber se o PCC é anjo ou demônio para a extrema direita. Cabe, certamente, lamentar a morte do delegado Ferraz, pois com ele morre também um pouco de esperança da sociedade, que deseja mais Ferraz nas polícias e mais investigações, do que mortes gratuitas para satisfazer os egos sádicos dos Derrites e Tarcísios da vida, ávidos por estatísticas letais. Quantos mais mortos…

Sob espectro do PCC, a direita e extrema-direita queixam-se eternamente da criminalidade, e acusam a esquerda pela suposta falta de proposta, sem, no entanto, apresentar qualquer solução. Os 40 anos de dedicação de Ferraz revelam muito mais a luta solitária de um obstinado do que a existência de uma efetiva plataforma de combate à criminalidade, seja contra a vida, o patrimônio privado ou público.

Tarcísio e bolsopatas fingem combater a violência no exercício de suas próprias maldades, saciando a sede de vingança popular. Com muito moralismo e demagogia barata, tentam passar a ilusão de combater uma criminalidade que tem parte de sua origem na macropolítica que defendem. Questões sociais estão longe de esgotar causas da criminalidade, mas ignorar que existem é em si um crime.

O miserável é presa fácil para o mundo do crime. Mas, a relação direta entre a pobreza e o aumento da criminalidade provoca arrepios na extrema direita, em especial a defensora de que bandido bom é bandido morto. No entanto, manter a engrenagem do neoliberalismo sustentado pelo consumo, e, paradoxalmente defender o capitalismo sem consumidor tem reflexos óbvios no aumento da pobreza.

Como atrai votos, é mais fácil matar criminosos e ou inocentes do que refletir sobre a relação direta entre o desemprego e vulnerabilidade, ignorando a estreita ligação entre a pobreza e o crime. No lugar disso, melhor criminalizar a pobreza, de forma que o policial armado pobre perca a empatia com o pobre não policial e desarmado. Leia-se o mesmo pobre exposto ao assédio dos que comandam a criminalidade.

É nesse contexto que o direito penal perde o sentido de proteção da sociedade e ou contenção da criminalidade, para servir apenas para a incriminação de condutas dirigidas às classes pobres. Valores subvertidos, alimentadores do sentimento de vingança popular como os Coronéis Telhadas da vida tiram proveito, apregoando ser difícil combater o crime numa sociedade que idolatra bandido. Incrível, não?

Pois é Tarcísio, o delegado foi assassinado, e o PCC está aí não só como organização criminosa, mas também como entidade a cumprir um papel político. Tão importante quanto o demônio para os pastores picaretas e quanto para o comunismo a impedir que o Brasil se transforme em Cuba ou Venezuela. Com sua versão sapatenis, o PCC já garantiu espaço até na Faria Lima ou Farinha Lama para alguns.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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2 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    1 de outubro de 2025 8:48 am

    PCC, Tarcísio de Freitas, Derrite, Folha de São Paulo, Faria Lima… cá o crime não é apenas organizado ele é ramificado, capilarizado e tá todo mundo cheiroso junto misturado.

  2. Robert Red

    1 de outubro de 2025 2:57 pm

    “Esquecer” que o PCC se tornou uma Multinacional do Crime graças aos 28 anos de governos do PSDB em São Paulo é sacanagem, esperteza e passação de pano pra tucanalha. Tarcísio precisa enfrentar, mas o pai disso é outro.

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