Política não é só eleição, por Luis Felipe Miguel
Cada vez que escrevo um texto criticando a estratégia de moderação a todo custo que os partidos de esquerda adotam (com resultados cada vez mais pobres) a cada eleição, é a mesma coisa. Muita gente vem dizer que um discurso mais radical teria levado a votações ainda piores, logo minha crítica está equivocada.
Nem todo mundo leva este raciocínio a sua conclusão lógica, mas ela é bem óbvia. Se é assim, para a eleição seguinte tem que ceder ainda mais, andar ainda mais para direita, abraçar ainda mais o senso comum despolitizante.
Eu creio que a prevalência deste tipo de compreensão mostra um duplo rebaixamento, que é tanto do horizonte de tempo quanto da imaginação política da esquerda.
Em primeiro lugar, convém lembrar que qualquer projeto político que tenha como única ambição ganhar a eleição seguinte está meio que fadado a se curvar às visões de mundo dominantes. Logo, é incapaz de operar numa dimensão contra-hegemônica, por mais tenuemente que seja.
Mesmo do ponto de vista do mero cálculo eleitoral, portanto, esse tipo de leitura é limitado.
É fácil dar um exemplo. Se o PT, desde sua origem, tivesse se rendido ao eleitoralismo de curto prazo, ele teria desaparecido ou se tornado mais uma legenda entre tantas outras do Brasil.
Foi a relativa intransigência do PT inicial que lhe permitiu se constituir como uma marca política e o credenciou diante do eleitorado. Foi o que permitiu, inclusive, sua deriva para a direita, já de tantos anos, sem comprometer completamente o capital de confiança de sua base social.
Assim, um partido que funcione com um projeto de poder, vinculado a um programa, e que não seja só o instrumento para a satisfação de ambições pessoais imediatas precisa pensar não apenas no resultado eleitoral momentâneo, mas também no acúmulo que deixa para as disputas futuras.
Por isso, é difícil justificar o cálculo de Guilherme Boulos quando optou por participar da sabatina de Pablo Marçal. Em troca de um ganho eleitoral mais que duvidoso (e que se mostrou de fato nulo ou irrelevante), ele deu um passo imprudente na direção da normalização da figura do coach e comprometeu o discurso de combate à antipolítica fascistizante.
Se cada eleição fosse um jogo de computador, que a gente encerra para depois recomeçar do zero, não teria importância. Mas não é assim. Certos erros de hoje comprometem o amanhã.
O pânico permanente da vitória da extrema-direita favorece essa perspectiva de curto prazo. Mas, nisso, tudo ganha a mesma dimensão – como se a reeleição de Bolsonaro e a reeleição de Nunes estivessem no mesmo patamar. E, qualquer que seja o resultado, a falta de acúmulo no debate político nos condena a, no pleito seguinte, enfrentar o mesmo desespero.
Mais grave ainda é a redução da política à institucionalidade. Parece que tudo o que podemos fazer é disputar eleições, propor projetos de lei e recorrer ao judiciário.
Vou citar Valério Arcary, que, em artigo inteligente como de costume, atribuiu a mim e a Vladimir Safatle a tese – definida como “falsa” – de que o giro à direita de Boulos “transformou a derrota eleitoral em derrota política”.
Por que falsa? Ele diz que não se pode concluir que, se Boulos tivesse ficado mais à esquerda, “teria tido mais votos. Ao contrário, o que o desfecho eleitoral provou é que teria menos votos”. Em suma, o único metro é o resultado eleitoral imediato.
Vamos reduzir nosso projeto ao mínimo do mínimo e nos aliar a quem nos trai? É que precisamos de uma frente muito, muito ampla para conquistar mais votos. Nada de criticar o sistema financeiro e as igrejas picaretas? São muito poderosos, não temos como enfrentá-los. Vamos nos curvar ao discurso de “empreendedorismo e fé”, deixando a luta de classes na lata de lixo? É o que o povo quer ouvir, não podemos fazer nada. Lula joga muito recuado? Ah, mas o apoio no Congresso é pequeno. A legislação ambiental não anda? É que a bancada do agro é poderosa.
Com isso, paramos de fazer o trabalho político cotidiano – o que se faz nos bairros e nos locais de trabalho, o que opera com a disputa permanente das visões de mundo e busca reconectar as pessoas com sua experiência vivida, desfazendo representações ilusórias e fomentando uma perspectiva crítica sobre a realidade.
O trabalho que permite alterar a correlação de forças. Que permite pressionar as instituições políticas e obter vitórias mesmo em condições de desvantagem. Que permite resistir com mais eficácia quando tudo parece desabar. E que, sim, pode vir a propiciar também vitórias eleitorais.
É o trabalho que a burguesia não cessa de fazer – com os seus próprios propósitos, é claro, e com os muitos recursos de que dispõe. Ela usa os meios de comunicação para difundir sua ideologia, o controle sobre o investimento para pressionar o governo, o lobby, a cooptação e a corrupção para curvar os tomadores de decisão.
Nossos recursos não são os mesmos. Esta é a sina dos dominados: lutar com armas inferiores para mudar o mundo.
A batalha é desigual, mas só perdemos de antemão se aceitamos os limites à luta política que a classe dominante impõe – e nem respeita.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).
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