10 de junho de 2026

Por uma sociedade da diferença, por Wesley Sousa

Uma individualidade que seja desejável dentro do capitalismo é superficial, pois vigora a homogeneidade: a livre circulação de mercadorias.
Jean-Michel Basquiat

Por uma sociedade da diferença, por Wesley Sousa

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Um dos erros que tanto liberais quanto conservadores fazem muito é a maneira como tratam o termo igualdade. No caso, o senso comum é a forma ideológica ao modo de produção correspondente. Mas há uma razão para isso.

Muitas pessoas são incapazes de distinguirem igualdade de homogeneidade. Talvez isso derive da tendência das pessoas de se enxergarem como consumidoras: a distopia usual que se tem de um supermercado onde uma marca de comida fabricada pelo Estado está em todos os itens e todos eles possuem embalagens vermelhas e letras amarelas.

Em verdade, no mundo do capital, o que se configura como tal não é a concorrência, mas o monopólio (o que inclui o monopólio do assujeitamento das pessoas na homogeneização pelo trabalho). A dinâmica capitalista explodiu a sua própria forma social: agora o processo é mais acelerado e insano, pois o modelo autodestrutivo pela mercantilização do humano e a humanização das coisas atingiu patamares irreversíveis.

O festejar de hoje como diferença é a subsunção como uma reintegração do entretenimento à vida. A midiatização do mundo é a ilusão de como a emancipação se tornou coerção da realidade capitalista. Por isso, a única forma de formalização da igualdade no capitalismo é pela livre exploração do trabalho. A cultura de massas e as novas mídias aplainam a diferenciação sistêmica. Por isso, a luta pela “igualdade social” no capitalismo é uma contradição conceitual e ontológica.

Em vez de permitir todas as pessoas seguirem seu espírito empreendedor em busca de desafios que os realize, o capitalismo celebra o pequeno número de capitalistas que conquistam largas fatias dos mercados de massa. O corolário é a alienação do trabalho que nos faz produzir coisas em escala: induzida a uma dupla uniformização da sociedade. Primeiro, bilhões de pessoas que compram os mesmos produtos; em segundo, milhões de pessoas que fazem o mesmo trabalho (sem saber a finalidade e o porquê). Uma individualidade que seja desejável dentro do capitalismo é superficial, pois o que vigora é a homogeneidade: a livre circulação de mercadorias.

Para pensar essa situação para além do capitalismo, muitos liberais ou conservadores, em geral, tendem a pensar o socialismo como o reino da igualdade forçada. Nada mais falso. Aqui vai um trecho incisivo de Engels numa carta escrita a August Bebel entre 18 e 28 de março de 1875:

“Eliminação de toda desigualdade social e política’, em vez de ‘superação de toda distinção de classe’, é também uma expressão muito duvidosa. De um país para outro, de uma província para outra e até mesmo de um lugar para outro, sempre existirá certa desigualdade de condições de vida, que poderá ser reduzida a um mínimo, mas nunca completamente eliminada. Os habitantes dos Alpes terão sempre condições de vida diferentes das dos povos das planícies. A representação da sociedade socialista como o reino da igualdade é uma representação unilateral francesa, baseada na velha ‘liberdade, igualdade, fraternidade’, uma representação que teve sua razão de ser como fase de desenvolvimento, em seu tempo e em seu lugar, mas que agora, como todas as unilateralidades das primeiras escolas socialistas, deveria ser superada, uma vez que serve apenas para provocar confusão nos cérebros e porque, além disso, descobriram-se formas mais precisas de tratar a questão”[1].

Por isso, a igualdade que se dizem tanto é abstrata e ideologicamente direcionada, se olhamos as difusas concepções marcadas por um pressuposto do modo de produção capitalista. Para se falar em igualdade, é preciso, portanto, uma transformação de outra ordem: 1) superar a divisão social do trabalho, 2) a acumulação de capital, 3) e o Estado. Numa sociedade da indiferença, a individualidade é homogeneizada. Noutros termos, o capitalismo é o reino da homogeneidade, tanto objetiva quanto subjetivamente.

Um exercício prático: já viram os condomínios que se constroem no país? Os cubículos cinza, banhados em luz fluorescente, em prédios de escritório tão semelhantes entre si? As lojinhas e as áreas de serviço e os seriados da TV? A possibilidade de adquirir produtos das firmas capitalistas concorrentes não produziu uma sociedade interessante e variada como tanto se dizem.

É importante lembrar que o termo igualdade é estritamente jurídico no regime burguês. O erro liberal e conservador, reafirmando-se, é a crença da desigualdade social ser o mesmo que diferença. Por isso, é natural que seja expressada na sociedade por via econômica, ou seja, o diferente é imbricado numa suposta “natureza humana”, que, por sua vez, é essencialmente desigual, já que é o capitalismo que engendra as dinâmicas de vida através do fetichismo da mercadoria.

Deste modo, uma sociedade que seja então comunista parte desta ruptura ontológica: ela será baseada no oposto da uniformização. Trata-se de uma diversidade enorme não só entre as pessoas, mas até na “ocupação” de uma única pessoa. Como escreveu Marx no Terceiro Livro de “O Capital”, podemos dizer que, sob o reino da necessidade (necessidade eterna de intercâmbio orgânico entre homem e natureza), emerge-se o reino da liberdade (campo de escolha entre alternativas postas). Esse ponto é decisivo.

O gérmen da sociedade futura brota das contradições insolúveis desta atual. No entanto, a “ruptura ontológica”, da qual Robert Kurz menciona em um de seus ensaios, se faz na eliminação das alienações do Estado, do trabalho e do valor. A superação – ou rompimento – não se trata de nenhum modelo a priori e idealizado, mas dos fundamentos da falsa universalidade da sociedade burguesa.

Enfim, a igualdade, segundo a filósofa Rosa Luxemburgo, significa a supressão da propriedade privada, isto é, suprimir a exploração do homem pelo homem para o processo de acumulação de capital sobre o trabalho alheio. Só numa sociedade humanamente diferente é onde nossas diferenças humanas podem florescer em aptidões e atividades: pessoas que sejam, de fato, socialmente iguais e humanamente diferentes.

Wesley Sousa é doutorando em Filosofia pela UFMG. Membro do grupo “Crítica e Dialética” (UFMG/CNPq) e da ABRE (Associação Brasileira de Estética).


[1] ENGELS, F. In: Marx and Engels Collected Works, Vol. 24 – 18–28 March 1875 (ver p. 67 da edição).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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